:: ‘Artigos’
A boca do povo
Foi mesmo! Noé de Denga falou que viu tudo, o coração parou de vez na hora que a última urna foi dada por encerrada e ele não teve nem uma dúzia de votos. Nem falou nada antes de entregar a alma a Deus, só deu um peido e caiu de frente no tapetão do cinema. Foi tão de repente que não deu nem pra apostar em que dia ele ia morrer, como era de costume! Um dia triste, mas Lourival da farmácia falou que o “dotô” disse que se tivesse recebido a notícia de que tinha sido eleito, morreria do mesmo jeito, só que uma vez de tristeza e outra de alegria. Isso eu não posso afirmar, é tudo história desse povo conversador que não gosta de ser citado, antes de contar um fuxico faz questão de frisar: “Não está aqui quem contou”. Mas o fato é que Dr. Arnel bateu as botas ainda novo. Mesmo naquela época, pra um homem “rico”, ele viveu pouco. Morreu com 47 anos, seria como se perdêssemos uma pessoa de 60 e poucos hoje… A vida tá ficando mais bonita, de tão linda se alongou, estamos vivendo mais. Mas para um homem dos anos 1940, quarenta e poucos anos era ser jovem, mas não tão jovem. Um senhor!
Morreu casado, sem filhos, e deixou uma viúva nova e mais jovem do que ele pra gastar a fortuna dos Silva sem ninguém pra se intrometer. O que mais marcou foram os comentários preconceituosos daquela época, os amigos contaram várias versões sobre a morte de um homem rico. Ele falava pouco, não sabiam como foi se “encafifar” com política. Os dois se completavam e ela era 20 anos mais nova, o que pra época também era comum (só para os homens). Mas o fato é que o povo, mesmo não participando em nada da vida do casal apaixonado, comentava sobre eles como se fossem íntimos. :: LEIA MAIS »
Ensina a teu filho
Por Frei Beto
“Ensina a teu filho que o Brasil tem jeito e que ele deve crescer feliz por ser brasileiro.
Há neste país juízes justos, ainda que esta verdade soe como cacófato. Juízes que, como meu pai, nunca empregaram familiares, embora tivessem filhos advogados. Jamais fizeram da função um meio de angariar mordomias e, isentos, deram ganho de causa também a pobres, contrariando patrões gananciosos ou empresas que se viram obrigadas a aprender que, para certos homens, a honra é inegociável.
Ensina a teu filho que neste país há políticos íntegros como Antônio Pinheiro, pai do jornalista Chico Pinheiro, que revelou na mídia seu contracheque de parlamentar e devolveu aos cofres públicos jetons de procedência duvidosa.
Saiba o teu filho que, no monolito preto do Banco Central, em Brasília, onde trabalham cerca de 3 mil pessoas, a maioria é honrada e, porque não é cega, indignada ante maracutaias de autoridades que deveriam primar pela Ética no cargo que lhes foi confiado. :: LEIA MAIS »
Dia das Crianças
Por Valdir Barbosa
Eu já fui velho, hoje sou meio criança,
Posto cheguei, lá da era do oculto,
Quando acordei, no ventre da lembrança,
Já despertei, meio erado, quase adulto,
E me embrenhei em tantas coisas, muito sérias,
Eram tão sérias, tal qual simples brincadeiras,
Depois de anos tirei folgas, tantas férias,
E no trabalho fiz até, muitas besteiras,
Pois, mesmo bobos são os que pensam ter crescido,
Que haver subido é deixar a inocência,
Pois só o puro, em verdade é evoluído,
Portanto, agora, quando vejo quase perto,
A hora certa de voltar pra lá novo,
Sou um menino, vivo, solto, alegre, esperto.
Saudade e Eternidade
Por Valdir Barbosa
Tenho saudades dela, assim, quando me lembro,
Mil desejos loucos, ao estar em sonho,
Um ontem me remete, as flores de setembro,
O amanhã me leva, aos sítios onde ponho,
Onde ponho tardes, nas quais viverei,
As manhã de um tempo, longe, onde vivi,
E decerto um dia, muito saberei,
Coisas conhecidas que já me esqueci,
E nesta viagem da eternidade,
Na qual se confundem, segredos e lugares,
Não existe canto, para ter saudade,
Pois, saudade é tudo aquilo que tivemos,
Sem saber o tanto, quanto iremos ter,
Posto, a vida eterna é o que nos faz serenos.
Arte Iluminada: Ed Ribeiro
As angústias de uma sociedade “normal”
Por Milton Filho
A doença mental vai se estabelecendo como coisa normal, vai ficando mais robusta, cresce e numa reação em cadeia, vai contaminando toda a área cerebral.
O resultado é uma sociedade trincada, com fissuras cada vez mais visíveis mas, todos, negando a eminente quebra das colunas que sustenta esse frágil edifício.
O trauma do militarismo que cerceou a liberdade, criou o seu extremo que é a liberdade irresponsável e sem disciplina, criou o medo de dizer não às crianças e adolescentes, criou adultos infantis.
O ego perdeu as rédeas do id que agora, livre, deixa aflorar toda a primitividade represada. Nasce daí as quimeras mentais, monstros surreais, só encontrado em sonhos ou alucinações alcoólicas.
O medo da morte acovarda o homem diante da ousadia daquele que se mostra um titã da degenerescência, quando não, junta-se ao “inimigo” que irá proporcionar as benesses e compensações do distúrbio mental ou emocional. :: LEIA MAIS »
Outubro das Crianças e de Nossa Senhora Senhora Aparecida
Por Valdir Barbosa
Um vento leve sopra no meu quarto,
Já é outubro, pulamos de setembro,
Acordo inteiro, tive sono farto,
Envolto em sonhos, dos quais não me lembro,
Morfeu, ainda abraça minha amada,
Saio mansinho, quero seu descanso,
Da varanda, olho gente na calçada,
Enquanto mar ao longe, com a vista alcanço,
João, também ressona no seu ponto,
Sinto saudades dele, quando era criança,
Então, o trem de mil lembranças, me põe tonto,
Sorrio e choro, pelo dom da vida,
Pelos sucessos, também pelos percalços,
Agradecendo à Mãe, Nossa Senhora Aparecida.
Arte Iluminada: Ed Ribeiro
A Cruz e a Espada
Por Nando da Costa Lima
Na primeira metade do século passado (pelo que eu leio e escuto) os homens eram mais espirituosos, devia ser a maneira de passar o tempo, sem a tecnologia de hoje…
A catedral tava um brinco, as senhoras da cidade fizeram questão de caprichar. Todo ano um grupo de festeiras ficava responsável pela limpeza e decoração da igreja matriz nos festejos de sua santa padroeira. Tinha uma missa na saída da procissão e outra na chegada. Aconteceu que na véspera do dia da padroeira da cidade, um burro de carroça morreu ao lado da catedral. Aquilo causou um incômodo geral, o animal logo começaria a entrar em decomposição e isso causaria grandes transtornos. Se fosse um animal menor, o próprio padre teria resolvido com a ajuda de alguns fiéis. Mas era um burro enorme, ali só um caminhão da prefeitura pra dar um jeito, era só jogar o animal na carroceria e dispensar em algum lugar. Nesses tempos a gente ainda usava o termo “vou jogar no mato”. Tudo que tinha pra ser descartado, em vez de ir pro lixo, ia pro mato. E esse seria o fim do bicho, jogariam o burro no mato e os urubus se encarregariam do resto.
Quando o padre ficou sabendo que o burro já estava fedendo, mandou logo o sacristão ir ao encontro do prefeito, que apesar de ser seu adversário político, era o único que poderia dar uma solução para o problema (O sargento iria se sentir ofendido se o padre lhe pedisse auxílio, um revolucionário prendedor de integralista não ia enterrar burro para padre). A festa da padroeira era motivo de orgulho para toda a cidade, principalmente para o prefeito. Só que ele, famoso pelo senso de humor, recebeu o sacristão, ouviu o recado do padre e enviou um bilhete como resposta, sem perder a piada. O padre quase morre de raiva ao abrir o bilhete: :: LEIA MAIS »
Dezoito anos depois
Por Valdir Barbosa
Os meninos mais gulosos ainda lambiam os dedos sentados ao chão, frente aos pratos, onde foi servido caruru oferecido aos Ibejis. Refrigerantes findavam nos copos de plástico e os caramelos, responsáveis por arrematar o repasto aqueciam a algazarra própria da efeméride onde os Santos Meninos – São Cosme e São Damião – são reverenciados todos os anos, quando ela seguiu para cumprir seu grande desiderato e o maior dos privilégios, dádiva apenas concedida às mulheres. Ser mãe.
Atendida pela obstetra e enfermeiras responsáveis pelo parto, na mesma casa de saúde palco de sua vida laboral, por alguns anos, tudo fazia crer que o trabalho seria rápido, assim, o filho ansiado viria no 27 de setembro, mas, não haveria que ser. Apenas muitas horas depois do dia seguinte, finalmente, João, o Gabriel de Roberta inspirou pela primeira vez uma lufada de oxigênio serrano marcando sua presença nestes tempos da contemporaneidade. :: LEIA MAIS »
Contentamento
Meu tio Anísio sempre me dizia “quando for reclamar da vida, olhe pra trás e veja o tamanho da fila que gostaria de estar no seu lugar”. Ele era uma pessoa que jamais reclamava, sempre feliz, sempre contente e sempre agradecendo a Deus pelo seu momento, pelo seu dia e sempre, sempre num estado de paz inigualável. Sempre brincando com seus amigos, sempre a piada certa nos momentos certos.
Tio Anísio foi o segundo esposo de uma tia muito querida. Quando o conheci, eu estava na adolescência e tive com ele ensinamentos importantes. Alguns segui imediatamente, e outros só com a maturidade e sofrimento passei a compreender a sua grandeza. Até nisso ele estava certo. Um dia, me disse que, às vezes, pessoas queriam, a todo custo, que outras compreendessem os seus ensinamentos, mas que não adiantava, era só deixar a semente plantada, pois um dia ela germinaria e daria frutos, ou seja, só com o devido amadurecimento compreenderíamos certas posições na vida.
Outro dia, estava na praça Marabá com ele quando encontrou alguns de seus amigos aposentados. Quando ele chegou, foi aquela alegria, todos perguntavam onde ele esteve e por que sumiu, ao que ele respondeu: “estou cansado do cheiro de vocês”. Claro que todos responderam que sempre estavam perfumados, etc. Ele disse que de nada adiantaria pois eles eram velhos e todo “velho fedia”. O Seu Otávio, o mais elegante, disse prontamente que sempre tomava banho duas vezes ao dia e, além de um bom desodorante, estava sempre impregnado com seu autêntico perfume francês. Meu tio Anísio voltou a insistir que de nada adiantava já que o fedor era muito superior ao seu perfume, haja vista que “eles carregavam dois ovos goros e um pinto morto debaixo das pernas”, foi aquela gargalhada! Ele era assim. :: LEIA MAIS »
A fita amarela
Por Edvaldo Paulo de Araújo
Ano 1960, morava em Potenza, Itália. Em nossa cidade, os jovens, ambiciosos, partiam cedo em busca de melhores dias para eles e suas famílias. Há muito, sonhava com essa possibilidade, só não o fazendo por amor a uma ragazza amada, minha primeira namorada e primeiro amore, Nina Chiarelli, além de deixar minha querida e amada mãe. Já não tinha o meu papa, que se fora cedo para o outro lado da vida, deixando-me ainda pequeno, fui criado pela minha mama. Minha madre sempre me apoiava e dizia, “vá, filho mio, não se preocupe comigo, em busca de dias melhores para tu e tua família que virá, sabes que aqui não terás muita chance e dizem que, no Brasil, tem muita fartura e todos que para lá partem se enriquecem”. Tinha alguns patrícios nos Estados Unidos e também no Brasil, sendo este o país que mais me atraía.
A ideia de partir e deixar Nina não me cabia, meu coração não aceitava, meus olhos marejam de lágrimas quando pensava na falta que sentiria dela, mas o assunto muito me atraía. Não procurava falar muito, pois era motivo de nossas brigas e por não querer isso, procurava me silenciar. Quando falava do assunto, procurava embalar junto com nossos sonhos de um dia podermo-nos casar, ter uma bela casa, sermos respeitados em Potenza e ver os “bambinos” crescerem sem as necessidades que nos acometiam. Dizia da minha preferência pelo Brasil, especificamente São Paulo, onde tinha primos, filhos do tio Antônio. E as notícias que chegavam eram que estavam muito bem. :: LEIA MAIS »






















