Meus amigos, minhas amigas, caros leitores do Blog do Agito Geral, Ana Maria Reis Gonçalves, a nossa querida tia Nem, é uma amiga muito especial da cidade de Itabuna, por quem tenho um carinho enorme, embora já faça algum tempo que não nos falamos.

Eu gosto da tia Nem, da sua maneira de enxergar a vida, da sensibilidade que lhe é própria e da forma leve e profunda com que transforma sentimentos em palavras. É uma figura simpaticíssima, daí o apelido carinhoso pelo qual é conhecida e querida por tantos: tia Ne.

Pois bem. Faço parte de um grupo de amigos da terra grapiúna, essa imponente cidade do sul da Bahia, tão rica em história e cultura, e, de repente, me deparei com mais um escrito da tia Nem.

E, como aconteceu em outras ocasiões, fui profundamente tocado pelas suas palavras.

Mas confesso que esse texto, em especial, me chamou ainda mais a atenção. Talvez porque seja tão atual, tão verdadeiro, tão presente neste mundo em que vivemos, onde tantas vezes buscamos explicações para as inquietações da alma e, paradoxalmente, as respostas estão dentro de nós mesmos. Mas, por alguma razão, insistimos em não ouvi-las.

No seu texto, tia Nem nos lembra que viver pode ser algo muito mais simples do que imaginamos, apesar dos caminhos que o mundo moderno insiste em nos apresentar. Em tempos de internet, redes sociais e conexões instantâneas, parece que fomos condicionados a possuir mais do que a ser.

E é justamente aí que está uma das passagens mais bonitas e mais emblemáticas do seu escrito.

Ela nos convida a refletir. Por que não valorizarmos mais os almoços de domingo em família? Por que não darmos mais importância aos abraços sinceros, ao aconchego de um colo, a um afago, a uma palavra amiga, à presença daqueles que amamos? Por que não? Afinal, são essas pequenas grandezas que dão sentido à vida.

Tia Nem, parabéns pela sua sensibilidade e pela capacidade de tocar os corações através das palavras. Continuo com saudades de você. Um grande abraço para Itabuna, para a querida região sul da Bahia e para todos os seus leitores e amigos.

E agora, convido os nossos leitores a fazerem uma pausa, desacelerarem um pouco e mergulharem nesse belíssimo texto da nossa querida tia Nem. Tenho certeza de que vale a pena.

A pressa de viver e o esquecimento de sentir.

Por Maria Reis Gonçalves  (Tia Nem)

Vivemos em uma época em que tudo parece acontecer rápido demais. As mensagens precisam ser respondidas imediatamente, as opiniões são formadas em poucos segundos, as notícias envelhecem em questão de horas e até os relacionamentos parecem sofrer a pressão da velocidade.

Nunca tivemos tanto acesso à informação, mas, paradoxalmente, nunca pareceu tão difícil encontrar tempo para refletir sobre ela.

A sociedade atual valoriza a produtividade, a eficiência e os resultados. Isso, por si só, não é um problema.

O problema surge quando passamos a acreditar que nosso valor como seres humanos depende apenas do que produzimos. Aos poucos, muitas pessoas começam a medir sua própria importância pela quantidade de tarefas concluídas, pelo reconhecimento recebido ou pela aprovação dos outros.

A psicologia tem observado um fenômeno cada vez mais frequente: pessoas exaustas não apenas fisicamente, mas emocionalmente. Indivíduos que cumprem compromissos, alcançam metas, mantêm uma rotina aparentemente organizada, mas que carregam um vazio difícil de explicar.

Esse vazio muitas vezes nasce da desconexão consigo mesmo.

Há quem saiba tudo sobre os acontecimentos do mundo, mas pouco sobre os próprios sentimentos. Há quem acompanhe diariamente a vida de centenas de pessoas pelas redes sociais, mas não consiga responder com sinceridade à pergunta: “Como eu realmente estou?”

Talvez uma das maiores perdas do nosso tempo seja justamente a perda da capacidade de sentir com profundidade.

Estamos nos acostumando a passar rapidamente pelas emoções. A tristeza deve ser superada logo.

A frustração deve ser escondida.

A vulnerabilidade é frequentemente confundida com fraqueza. E assim vamos construindo uma espécie de armadura emocional que nos protege da dor, mas também nos afasta da autenticidade.

Sentir exige coragem.

É preciso coragem para admitir que algo machucou. Coragem para reconhecer limitações. Coragem para pedir ajuda. Coragem para desacelerar quando o mundo inteiro parece estar correndo.

O filósofo Byung-Chul Han descreve nossa época como a “sociedade do cansaço”, um tempo em que as pessoas se tornam exigentes consigo mesmas a ponto de se transformarem em suas próprias cobradoras. Não é mais necessário que alguém nos pressione constantemente; nós mesmos assumimos esse papel.

E então surge uma pergunta importante:

Estamos vivendo ou apenas administrando obrigações?

Talvez seja hora de resgatar aquilo que não pode ser medido por números, curtidas ou conquistas materiais. Talvez seja hora de valorizar mais as conversas sinceras, os silêncios que confortam, os encontros sem pressa, os afetos verdadeiros e os momentos em que podemos simplesmente ser, sem a necessidade de provar nada a ninguém.

A vida não acontece apenas nos grandes acontecimentos. Ela também está presente nos pequenos instantes que costumamos ignorar: no café compartilhado, no abraço demorado, no olhar de quem nos ama, no pôr do sol observado sem distrações.

No final das contas, ninguém se recordará da quantidade de e-mails respondidos, das metas cumpridas ou das horas extras trabalhadas. Mas certamente serão lembrados os afetos construídos, as mãos estendidas nos momentos difíceis e a capacidade de tocar a vida de outras pessoas com humanidade.

Talvez o grande desafio do nosso tempo não seja aprender a fazer mais.

Talvez seja aprender, novamente, a sentir mais.

E essa reflexão merece um lugar especial em nossos dias, porque uma vida cheia de compromissos não é necessariamente uma vida cheia de significado. O significado nasce quando a alma encontra espaço para existir em meio à correria do mundo. Afinal, viver não é apenas passar pelo tempo. É permitir que o tempo passe por nós, deixando marcas, aprendizados e memórias que realmente valham a pena.”