Amigos e amigas, caros leitores, o Brasil inteiro respira futebol. E poderíamos dizer que o mundo também. Mesmo aqueles que não são apaixonados pelo esporte mais popular do planeta acabam acompanhando, ainda que de longe, os acontecimentos da Copa do Mundo, a maior competição esportiva do futebol mundial.

E esta edição da Copa já entrou para a história por diversos aspectos, despertando debates, análises e reflexões que vão muito além das quatro linhas.

É dentro desse contexto que trazemos mais uma contribuição do engenheiro civil Gilberto Ferreira Luna, colaborador do nosso blog e uma figura bastante conhecida em Vitória da Conquista. Gilberto foi um dos pioneiros da construção civil no município, através da Ecosane, e ao longo dos anos tem compartilhado suas análises sobre temas diversos, sempre buscando provocar reflexão entre os leitores.

Desta vez, ele volta o olhar para o futebol e faz uma interessante comparação com a histórica Copa do Mundo de 1970, considerada por muitos especialistas, jornalistas e torcedores como o momento em que o Brasil apresentou a melhor seleção de sua história.

Foi uma equipe formada por jogadores extraordinários, atletas que superaram desafios, romperam barreiras e construíram uma trajetória que permanece viva na memória dos apaixonados pelo futebol.

Gilberto também resgata aspectos políticos daquele período, lembrando que o contexto da época era muito diferente do atual. Havia uma forte influência do ambiente político sobre diversos setores da sociedade, inclusive sobre o futebol, e determinadas decisões acabavam repercutindo muito além dos gramados.

Ao trazer essa análise para os dias atuais, ele estabelece um paralelo com o trabalho desenvolvido pelo técnico Carlo Ancelotti.

Segundo a reflexão apresentada, Ancelotti chegou ao comando da Seleção Brasileira com um projeto que vai além desta Copa do Mundo. Trata-se de um planejamento voltado para o futuro, visando consolidar uma equipe competitiva e preparada para os próximos ciclos do futebol mundial, inclusive pensando na Copa de 2030.

Mas, como todos sabemos, ninguém entra em uma Copa do Mundo apenas para participar. A Seleção Brasileira carrega uma tradição vencedora e entra em qualquer competição com a responsabilidade de disputar o título.

Gilberto chama atenção para um aspecto que considera relevante: a forma como Ancelotti teria flexibilizado algumas de suas convicções tradicionais, oriundas da escola europeia de futebol, diante da pressão da opinião pública e das expectativas que sempre cercam a Seleção Brasileira.

É uma reflexão interessante, que certamente desperta diferentes interpretações e pontos de vista.

Por isso, convidamos os leitores a acompanhar atentamente a análise de Gilberto Luna e tirar suas próprias conclusões.

O futebol continua sendo muito mais do que um jogo. Ele é paixão, memória, cultura, identidade e, muitas vezes, um espelho das transformações que acontecem dentro da própria sociedade.

Boa leitura.

O Fantasma do Camisa 9 na Seleção Brasileira!

Dizem que o futebol brasileiro é refém de suas próprias tradições. Talvez seja verdade. Vivemos sob a eterna sombra de 1970, aquela fantástica Seleção que precisou do  caos, da impetuosidade e da demissão de João Saldanha — que caiu por ter a audácia de questionar a titularidade de Pelé — para que Zagallo, o técnico que o substituiu, fizesse o óbvio que ninguém mais ousava fazer: escalar os melhores, independentemente da posição que jogavam em seus clubes.

Naquela frente de ataque, apenas Jairzinho era ponta-direita de ofício. Pelé, Tostão e Rivelino dividiam o espaço com uma inteligência e movimentação tão refinadas que a ausência de um centroavante fixo nunca foi notada. Essa dinâmica livre permitia movimentações difíceis de se conter  na área, como a cabeçada monumental de Pelé na final contra a Itália que terminou em gol, e outra cabeçada genial contra a Inglaterra, defendida por Gordon Banks naquela que considero a defesa mais magnífica de todas as Copas, tanto pelo impulso absurdo do salto quanto pelo milagre do goleiro. Até a zaga foi fruto dessa genial improvisação, com o volante Wilson Piazza recuado para fazer dupla com Brito, sustentados pelo talento de Carlos Alberto, Gérson e as acrobacias do volante Clodoaldo, um malabarista com a bola nos pés, como provou na emblemática jogada contra o Uruguai. O goleiro Félix e o lateral-esquerdo Everaldo completavam o grupo de forma segura, sem alterar o brilho do conjunto montado por Zagallo.

Zagallo teve a coragem de romper com o manual clássico das posições em nome da pura qualidade técnica.

Voltando agora para a nossa atual realidade, após fracassos em série com treinadores  nacionais, a CBF finalmente recorreu à Europa para trazer o multicampeão Carlo Ancelotti. A expectativa era de uma revolução tática. Antes do jogo contra o Marrocos, o próprio treinador deu indícios de que adotaria a fluidez moderna, um ataque móvel sem uma referência estática na área. Mas, para a surpresa geral, a escalação inicial nos devolveu ao conservadorismo: Igor Thiago começou entre os titulares.

Ouso dizer aqui, correndo o risco de desagradar aos milhões de “treinadores” que habitam este país, que faltou audácia ao italiano. Ancelotti, mesmo com toda a sua bagagem europeia, parece ter sentido o peso do debate público brasileiro. Escalou o centroavante fixo pelo puro medo da crítica severa, pela pressão cultural de um país que ainda exige um “camisa 9” à moda antiga. Da mesma forma, a convocação de Neymar até hoje carece de uma justificativa para não ser interpretada como pressão. Quanto a Igor Thiago, que vive excelente fase técnica e física na Inglaterra, seu papel ideal seria o de uma arma para o segundo tempo, entrando para triturar defesas adversárias já fatigadas.

A prova de que a intuição inicial de Ancelotti estava certa veio com as substituições no decorrer da partida. Quando o time se livrou do atacante fixo e ganhou mobilidade, o futebol fluiu, o Brasil jogou melhor e o volume de jogo sufocou o adversarial. A bola não mentiu.

Agora, o torneio segue e o dilema tático se impõe. Ancelotti vai insistir no modelo engessado ou terá a coragem de Zagallo para libertar o meio-campo e o ataque? A dúvida que fica para os próximos jogos é se ele apostará na mobilidade de Matheus Cunha, no preenchimento de espaço de Lucas Paquetá, ou se encontrará uma forma de alinhar os dois para resgatar a nossa essência criativa. O laboratório terminou.

A ver!

Gilberto Ferreira Luna”