Meus amigos, minhas amigas, caros leitores do Blog do Agito Geral, convido vocês a lerem com atenção a carta, a reflexão e o posicionamento apresentado pelo jornalista Chico Cavalcante aos seus companheiros de partido e aos diversos segmentos da esquerda brasileira.

O texto aborda a conjuntura política que hoje envolve não apenas o Brasil, mas também parte significativa da América Latina. Trata-se de uma análise que procura provocar reflexão, estimular o debate e chamar a atenção para os desafios enfrentados pelos grupos políticos identificados com o campo progressista.

Ao longo da leitura, percebe-se um tom que transita entre a preocupação, o alerta e a autocrítica. Em alguns momentos, o texto se aproxima de um desabafo; em outros, assume a forma de um apelo dirigido aos companheiros de militância e às lideranças políticas que integram esse campo ideológico.

Naturalmente, caberá a cada leitor interpretar as palavras do autor, concordar ou discordar dos argumentos apresentados e formar sua própria compreensão sobre os temas abordados.

Vivemos um período de intensa efervescência política. O Brasil atravessa uma fase marcada por debates acalorados, forte polarização e divergências que se manifestam em praticamente todos os ambientes da vida pública.

É inegável que esse cenário tem provocado, em muitos setores da sociedade, sentimentos de desconfiança e descrédito em relação à política e aos agentes públicos. Um fenômeno que merece atenção, independentemente das posições ideológicas de cada cidadão.

Ainda assim, a democracia continua encontrando no voto o seu principal instrumento de legitimidade. É por meio dele que homens e mulheres escolhem seus representantes e definem os rumos dos municípios, dos estados e do país.

Por isso, considero importante que reflexões como a apresentada por Chico Cavalcante sejam lidas, analisadas e debatidas. O fortalecimento da democracia passa também pela disposição de ouvir diferentes opiniões e compreender distintas interpretações da realidade política.

Dessa forma, disponibilizamos o texto na íntegra para que nossos leitores possam conhecer o pensamento do autor e tirar suas próprias conclusões.

A leitura vale a pena. Reflita, analise e forme sua opinião.

Os tsunamis nascem abaixo da linha d’água: o que temos a aprender com a Colômbia

Chico Cavalcante

O resultado do primeiro turno na Colômbia não foi apenas um susto. Foi um terremoto político cujo epicentro está submerso. Ivan Cepeda, apoiado por Gustavo Petro, liderou as pesquisas por meses, mas foi ultrapassado na reta final por Abelardo de la Espriella, da extrema-direita, que somado a Paloma Valencia alcançou 50,7% dos votos. As pesquisas erraram. Mais uma vez. Como erraram com Milei na Argentina, com Kast no Chile, com Noboa no Equador. O fenômeno se repete: um eleitor invisível, que não aparece nos números, não responde a pesquisadores e não vota com a razão, explode nas urnas movido por algo que a esquerda insiste em ignorar — a emoção.

Esse tsunami não nasce na superfície. Nasce abaixo da linha d’água, no descontentamento subterrâneo que a extrema-direita aprendeu a arregimentar. Na Colômbia, na Argentina, no Chile, esse movimento já surpreendeu. Agora, o alarme está soando para o Brasil. Se não mudarmos a linguagem, a mensagem e a própria alma da comunicação política que empreendemos, o próximo tsunami pode levar embora não apenas uma eleição, mas a própria estabilidade institucional do país, porque não é apenas um governo que estamos protegendo contra o avanço insano da ultra-direita golpista. É a própria noção de democracia.

O problema não é apenas o bolsonarismo. É a sua capilaridade. A extrema-direita, como lembrou recentemente Valério Arcary na Esquerda Online, conquistou uma implantação social incomparavelmente superior à da esquerda. Não se resume às igrejas pentecostais. Há uma militância difusa, resiliente, que se sente acolhida emocionalmente enquanto a esquerda, muitas vezes, ainda aposta em planilhas, dados macroeconômicos e defesas racionais do legado de governo.

Se houvesse alguma racionalidade nessa disputa, Flávio Bolsonaro, o mais corrupto membro de uma família de cleptocratas, estaria amargando índices residuais nas pesquisas de intenção de votos. A folha corrida do candidato do PL não deixa sombra de dúvida de sua ligação com a máfia do Banco Master, com notórios quadros do crime organizado, com o Escritório do Crime carioca e com práticas de enriquecimento ilícito cujas provas tornariam inviável qualquer atividade pública se estivéssemos vivendo algum tipo de normalidade cognitiva.

Lula tem aprovação entre os mais pobres, mas o bolsonarismo domina a “classe remediada” — assalariados que ganham acima do salário médio e se sentem abandonados por um discurso progressista que, aos olhos deles, prioriza “outros” em vez de suas próprias angústias. Não se trata de fato; trata-se de percepção. E percepção é território da emoção.

Uma linha exclusivamente defensiva do legado do governo Lula será insuficiente. Por quê? Primeiro, porque a classe trabalhadora está dividida. Segundo, porque a classe dominante, sem qualquer compromisso republicano com a democracia, forma um bloco majoritário sólido contra qualquer candidatura minimamente transformadora — e arrastará a classe média acomodada. Terceiro, porque os resultados positivos da gestão não atravessam a “muralha” ideológica construída pela extrema-direita. Quem odeia Lula por razões culturais ou afetivas — nutridas pela rede ininterrupta de desqualificação moral empreendida péla extrema-direita — não mudará de voto porque o PIB cresceu 0,5% a mais.

Aqui reside o cerne da ameaça institucional. A estabilidade democrática não depende apenas das instâncias formais. Depende de um tecido social mínimo de confiança no outro, no sistema, no futuro. A extrema-direita neofascista, ao explorar o ressentimento como motriz política, rompe esse tecido. E a esquerda, se responde apenas com razão técnica ou nostalgia do fomos ou fizemos, perde o combate no campo onde ele realmente se decide: o campo simbólico, afetivo, narrativo.

Arcary propõe um remédio amargo mas necessário para a esquerda brasileira: não um giro ao centro, que seria devastador, mas um giro corajoso à esquerda na forma, não apenas no conteúdo. Disputa de valores, não de planilhas. Visão de mundo, não apenas de gestão. Compromisso emocional com o que é justo. E, sobretudo, uma aposta no futuro — não na defesa do passado.

Compromissos simples, claros, cristalinos: Brasil soberano contra Trump, imposto sobre grandes fortunas, passe livre, renda mínima universal,  defesa da Amazônia, fim das emendas parlamentares que sequestram o orçamento, segurança pública que asfixie financeiramente as milícias e o crime organizado. Não se trata de radicalismo vazio. Trata-se de oferecer ao eleitor invisível uma narrativa que faça sentido emocional para sua vida concreta.

A campanha eleitoral avança e o perigo real é o excesso de otimismo baseado em pesquisas. A “hipnose” dos números pode alimentar erros irreparáveis de linha política. Metade da população não tem definição política firme. Essa metade não será conquistada com medo do passado, mas com esperança audaciosa de futuro.

O tsunami colombiano é um aviso. Os eleitores de Abelardo não eram todos fascistas convictos. Eram, em grande medida, pessoas que sentiam que a esquerda não lhes falava — nem na língua, nem no coração. Se a esquerda brasileira não aprender a nadar nessas águas emocionais, o próximo tsunami não surpreenderá ninguém. Só destruirá tudo outra vez.

Chico Cavalcante é jornalista”