Como é gratificante ler os textos maravilhosos da minha querida amiga Tia Nem, da nossa fantástica Itabuna. É um privilégio, minha amiga, receber essas crônicas e poder compartilhá-las com os nossos leitores, não apenas de Vitória da Conquista e da região Sudoeste, mas também de toda a região Sul da Bahia.

Tenho criado o hábito de levar as matérias do nosso blog também para o programa de rádio. Nem sempre é possível ler tudo, mas uma coisa eu posso afirmar: a cada texto seu, eu aprendo um pouco mais. Por isso, convido os nossos queridos leitores a apreciarem mais uma pérola escrita pela minha querida amiga.

Tenho um desejo muito especial: trazê-la um dia a Vitória da Conquista para que, no entardecer, início da noite, você e os poetas da nossa cidade se reúnam na Catedral das Flores, um espaço tão bonito e acolhedor, para um recital de poesia. Seria um momento inesquecível, em que pessoas com a sua sensibilidade dividiriam o palco e as emoções com o público conquistense.

É um cenário encantador. Temos a Catedral das Flores e também um belíssimo orquidário, espaços construídos na atual gestão da prefeita Sheila Lemos e que se tornaram verdadeiros convites à contemplação, à cultura e ao encontro entre pessoas que fazem da arte um instrumento de beleza e inspiração.

Leia na íntegra:

As cicatrizes que a vida nos deu.

Por Maria Reis Gonçalves (Tia Nem)

Há pessoas que carregam cicatrizes visíveis. Outras escondem marcas que nenhum espelho é capaz de refletir. São feridas deixadas por palavras que nunca deveriam ter sido ditas, por silêncios que machucaram mais do que qualquer grito, por despedidas inesperadas, perdas irreparáveis, rejeições, traições e sonhos que morreram antes de florescer.

A vida tem o estranho hábito de nos ensinar através da dor. E, por mais que desejemos um caminho sem sofrimento, é justamente nas curvas mais difíceis que descobrimos aspectos de nós mesmos que jamais conheceríamos em tempos de calmaria.

As cicatrizes não são apenas lembranças do que aconteceu. Elas revelam que houve uma batalha. Contam, silenciosamente, que alguém caiu, chorou, pensou em desistir, mas, de alguma forma, encontrou forças para continuar. São páginas escritas na pele da alma.

Vivemos, porém, em uma sociedade que valoriza a aparência da perfeição. As pessoas escondem suas dores para parecerem fortes. Sorrimos para as fotografias enquanto, por dentro, tentamos juntar os pedaços de um coração cansado. Criamos personagens para sermos aceitos, esquecendo que é justamente a nossa humanidade que nos torna dignos de amor.

Existe uma diferença entre uma ferida e uma cicatriz. A ferida ainda sangra. A cicatriz já não sangra da mesma forma, mas continua contando uma história. Ela não apaga o passado, apenas mostra que a dor encontrou um caminho para não destruir completamente quem a carregava.

Algumas cicatrizes nos tornam mais sensíveis ao sofrimento do outro. Quem já caminhou na escuridão reconhece, com mais facilidade, a sombra no olhar de alguém. E, talvez por isso, seja capaz de oferecer um abraço onde antes ofereceria um julgamento.

As marcas que carregamos também nos convidam à humildade. Elas nos lembram que ninguém atravessa esta existência sem conhecer o peso das perdas. Todos, sem exceção, lutam batalhas invisíveis. Saber disso deveria nos tornar mais gentis, mais pacientes e menos apressados em condenar aqueles que apenas estão tentando sobreviver.

Curiosamente, não são as cicatrizes que nos enfraquecem. É a tentativa de fingir que elas não existem. Aquilo que negamos continua nos governando em silêncio. Mas aquilo que acolhemos deixa de ser prisão e passa a fazer parte da nossa história sem definir quem somos.

A verdadeira cura não acontece quando esquecemos o que nos feriu. Ela acontece quando a lembrança deixa de controlar nossas escolhas. Quando conseguimos olhar para trás sem voltar a sentir que ainda estamos presos naquele lugar.

As cicatrizes da vida não diminuem o nosso valor. Pelo contrário. Elas revelam a coragem de quem permaneceu de pé quando tudo parecia perdido. São testemunhas silenciosas da capacidade humana de recomeçar, de reconstruir afetos e de encontrar sentido mesmo depois do caos.

Talvez a beleza mais profunda de um ser humano não esteja na ausência de marcas, mas na delicadeza com que aprendeu a conviver com elas. Porque algumas pessoas não venceram a vida por nunca terem sofrido. Venceram porque, apesar de tudo, continuaram escolhendo amar, confiar, sonhar e acreditar que amanhã ainda pode florescer.

E, no fim, talvez seja isso que as cicatrizes realmente nos ensinem: elas não são o fim da nossa história. São apenas a prova de que a vida nos feriu… mas não conseguiu impedir que continuássemos vivendo.”