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Volta pra casa

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Por Valéria Figueira

Todas as vezes em que eu chego em Conquista, quando já estou perto da roça, toca um forrozinho. Vale atentar que forrozinhos são aqueles dos quais temos intimidade. Dos que costumávamos ouvir de cá da fogueira quando criança, enquanto soltávamos traques, e depois quando saíamos procurando as festas dos povoados vizinhos, pois os de Conquista não prestavam. Só valiam aqueles em que era possível ouvir o arrasta pé no chão. Lembro-me tanto que era desfeita fazer escolha, se aceitasse dançar com um tinha que dançar com todos, e eu sempre estava disposta. Geralmente o cavalheiro estendia a mão na sua frente, e já chegava dançando, mas nada de grude, nada de perguntar o nome ou pedir o telefone. Era pra dançar, ou viver aquelas músicas, de preferência com puladinhos, dois pra lá e dois pra cá. 

Vinha então na estrada com uma saudade da minha mãe, do meu pai, da minha tia Leu, da minha terra. Nesses tempos sombrios então, voltar pra casa era mais que um chamado.

No rádio a trilha dos forrozinhos que eu só ouço aqui. Músicas que retratam o modo de viver nordestino, os nossos costumes, e o amor pelo sertão. O rei do baião Luiz Gonzaga foi a maior expressão desse estilo. Entre as quase trezentas canções que ele compôs, uma foi especialmente reservada pra meu caminho da roça essa semana. Respeita Januário, de 1952. Eu ouvi o prelúdio com tanto deleite, sorvendo cada intensão, que precisei transcrevê-la, de presente de São João para vocês. Trata-se de um vídeo intitulado “Volta pra casa” de 1982, em que Luiz relata o seu retorno pra casa dos pais um povoado perto de Exu, interior de Pernambuco, depois de dezesseis anos. Ele conta: 

(…) Aí eu cheguei na janela da casa e gritei:

– Louvado seja o nosso senhor Jesus Cristo!

– Para sempre seja Deus louvado!

– Sr. Januário?

– Sim senhor.

– Estou vindo do Rio de Janeiro, trago um recado do fio do senhor, mandou até uma coisinha pra butá na sua mão… Quando vier de lá traga um copo d’água pra eu que eu tô morrendo de sede. Aí eu escutei o tibungado do caneco no fundo do pote, tibungo, haha. Ai lá veio o véio corredor afora, abriu a janela em cima de mim, chega saiu aquele ventinho, com aquele cheiro, aquele cheiro meu, aquele cheiro antigo… Cabecinha branca,  um silenciozinho, uma paradinha, me olhou, eu olhei pra ele. Aí ele disse: 

– Quem é o Senhor?

– Luiz Gonzaga, seu filho!

– Oxente, isso é hora de você chegar em casa seu corno? Santana, Gonzaga chegou! Eita, viva Deus!!!

Menino como o diabo, irmão que eu não conhecia… Aí pronto, entrei, ninguém dormiu mais naquela noite, até de manhã a casa cheia… – Toca Luiz, toca pra nóis ver!!!

Em poucos minutos era eu quem chegava. Bradei, saindo do carro: – Mainha, chegamos, graças a Deus! Ela veio de lá bem dizendo: – Aleluia, glória a Deus!! Em voz alta, mesmo que ver Januário. De cá avistei a fogueira, pronta pro dia 23. Não vamos poder receber os amigos, nem o pessoal do povoado, nem vai ter conjunto. Não vai ter viagem pras festas com milhares de pessoas, tampouco bandas enormes tocando os “forronejos” e suas variações, nas alturas.

Mas vai ter quentão no fogão de lenha, mainha falou. Eu vou enfeitar a casa, assar biscoitos, e vai ter foguete. Na caixa de som, vai ter o melhor sanfoneiro que esse planeta já viu, o mestre porta vós de todos nós, Luiz Gonzaga. Se sorte eu tiver, ainda vai ter um céu estrelado, aí então eu vou voltar a ter um São João daqueles.

 

Vídeo do Luiz disponível em:

2 respostas para “Volta pra casa”

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alessandro tibo


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