Contentamento
Meu tio Anísio sempre me dizia “quando for reclamar da vida, olhe pra trás e veja o tamanho da fila que gostaria de estar no seu lugar”. Ele era uma pessoa que jamais reclamava, sempre feliz, sempre contente e sempre agradecendo a Deus pelo seu momento, pelo seu dia e sempre, sempre num estado de paz inigualável. Sempre brincando com seus amigos, sempre a piada certa nos momentos certos.
Tio Anísio foi o segundo esposo de uma tia muito querida. Quando o conheci, eu estava na adolescência e tive com ele ensinamentos importantes. Alguns segui imediatamente, e outros só com a maturidade e sofrimento passei a compreender a sua grandeza. Até nisso ele estava certo. Um dia, me disse que, às vezes, pessoas queriam, a todo custo, que outras compreendessem os seus ensinamentos, mas que não adiantava, era só deixar a semente plantada, pois um dia ela germinaria e daria frutos, ou seja, só com o devido amadurecimento compreenderíamos certas posições na vida.
Outro dia, estava na praça Marabá com ele quando encontrou alguns de seus amigos aposentados. Quando ele chegou, foi aquela alegria, todos perguntavam onde ele esteve e por que sumiu, ao que ele respondeu: “estou cansado do cheiro de vocês”. Claro que todos responderam que sempre estavam perfumados, etc. Ele disse que de nada adiantaria pois eles eram velhos e todo “velho fedia”. O Seu Otávio, o mais elegante, disse prontamente que sempre tomava banho duas vezes ao dia e, além de um bom desodorante, estava sempre impregnado com seu autêntico perfume francês. Meu tio Anísio voltou a insistir que de nada adiantava já que o fedor era muito superior ao seu perfume, haja vista que “eles carregavam dois ovos goros e um pinto morto debaixo das pernas”, foi aquela gargalhada! Ele era assim.
Nunca me esqueço de uma certa vez, quando ia para Buerarema, ele, no seu jipe com aquele sorriso largo e brilhante, dizia-me que era bom ter as coisas, que era salutar trabalhar para conseguir um lugar ao sol, mas que nunca deixasse de entender que tudo era bondade de Deus e que Ele, na sua infinita sabedoria, “não dava nada a quem precisasse e sim a quem merecia”. Que a ambição desmedida levava o homem à infelicidade, que a ânsia do ter e do poder escravizava o homem e não o deixava ver os reais valores da vida. Que ambiciosos, em suas atitudes, esquecem da amizade e buscam justificativa. Que empresário bom não tem emoção e sim razão. Gosta, acima de tudo, da sua posição no ranking da riqueza, do seu nome no jornal, dos convites para receber os diplomas que, neste ano, foi mais isso, mais aquilo. Nessa corrida, esquece-se de ser esposo, pai, avô, porque o seu tempo já está completamente preenchido nessa busca. Que muitas pessoas abastadas de bens materiais (porque rico para mim tem outro sentido) não tinham amigos, pois não exerciam a energia suprema de cativar as pessoas, de ter amigos, já que a esmagadora maioria dos que os cercavam era por puro interesse. Deixava claro que, em todas camadas sociais, existem pessoas boas e ruins e que logo, logo se distinguiria, mas que jamais se julgasse.
Seu Anísio, com seus gestos e atitudes, mostrava-me sempre o real valor de se ter amigos. Trago comigo uma frase dele inesquecível, na qual diz que “amigos é a forma de Deus cuidar de nós”. É a mais pura verdade. Em momentos difíceis, de dor, quem de nós já não sentiu a suprema graça de se ter amigos?
Lendo um dos últimos livros do professor de yoga, o grande mestre Hermógenes, deparei-me com um texto que me fez lembrar muito do seus ensinamentos e da sua maneira de ser:
“Viver de ansiedade em ansiedade, de um desejo a outro, inquieta, desestabiliza, estressa…”
Um dia, estávamos na igreja de São Jorge, em Ilhéus, andando a caminho do bairro Carneiro da Rocha, ele me falava de um amigo que estava sofrendo muito com um câncer e acabou por contar-me sobre uma premonição que tivera, a qual não levei muito a sério. Disse ele: “a minha morte será no sono, dormirei e acordarei nos braços de Deus”. E assim aconteceu.
Passaram o final de semana em Ilhéus, na casa de uma outra tia, e resolveram voltar no final da tarde para Itabuna. Entraram no ônibus e ele estava meio que calado, dizia minha tia. Quando se sentaram, segurando a sua mão, disse “Nice, estou tão cansado!”. Encostou a cabeça no ombro da minha tia e, depois de algum tempo, ao chamá-lo e ao ver que não respondia, veio o desespero. Ele já não estava mais ali, tinha voltado para casa. Só restava o seu corpo sem respiração. Confirmou-se a sua bendita previsão, tivera a morte de que me falou….
“Vou dormir e, quando acordar, estarei nos braços de Deus”

















Lindo e edificante texto,espero que o mesmo aconteça comigo, um dia irei dormir e acordarei na originalidade do espírito!