Gilberto Luna alerta: falta interpretação, sobra fanatismo

Em conversa ontem com meu amigo Gilberto Luna, engenheiro civil e uma das figuras responsáveis pela verticalização de Vitória da Conquista ao longo de quase meio século, através da Ecosane, falávamos sobre a internet, sobre as redes sociais e sobre a tecnologia, algo de que nenhum país do mundo hoje consegue sobreviver sem.
A ciência evoluiu muito, mas, por vezes, essas ferramentas são utilizadas de forma equivocada. Podemos até afirmar, ou nem seria necessário afirmar, que essa utilização é completamente equivocada e, em muitos casos, até criminosa. Alguns o fazem por desconhecimento, repetem informações falsas recebidas, proliferam conteúdos e enviam para grupos de forma inadvertida, por ignorância. Outros, infelizmente, agem com maldade, algo que ainda existe em parte do ser humano em todo o planeta.
Não estou falando apenas de Vitória da Conquista, da Bahia ou do Brasil. Trata-se de um fenômeno mundial, em que ferramentas criadas pela inteligência humana, que deveriam servir para o bem, acabam sendo utilizadas de forma distorcida, dentro daquilo que, na minha visão, está sob a ótica do grande arquiteto universal, que é Deus.
E, trazendo essa reflexão para o campo local, discutíamos o nível de conflito que se vê nas redes sociais, um verdadeiro clima de guerra, de belicismo, entre dois polos, dois extremos que dividem o Brasil como se fossem torcidas organizadas, como se estivéssemos em arenas romanas, onde gladiadores se enfrentavam. O que se observa, na prática, é uma disputa quase bélica, em que as redes sociais se transformaram em campos de confronto, semelhantes a clubes de futebol, com torcedores apaixonados que não medem as consequências nem refletem sobre o que pode vir depois.
Diante de tudo isso, Gilberto Luna, com a sua inteligência e capacidade de interpretação, construiu uma análise que considero extremamente importante e que merece ser compartilhada com os nossos leitores.
Segue, portanto, a matéria do meu querido amigo, que, mesmo estando em Vitória do Espírito Santo, permanece conectado com a nossa querida Vitória da Conquista.
“Entre o Campo de Futebol e a Urna: A Paixão que Cega a Razão no Brasil
Por Gilberto Ferreira Luna
No Brasil, costuma-se dizer que somos um país de “200 milhões de técnicos de futebol”. Essa onipresença do palpite apaixonado, contudo, transbordou as quatro linhas do gramado e invadiu a esfera cívica. O fenômeno das redes sociais criou uma nova classe de analistas: o eleitor que, movido pela lógica das torcidas organizadas, discute o destino da nação com o fígado, desprovido de qualquer rigor ou posicionamento político minimamente fundamentado. Essa postura emocional transforma a política em um espetáculo vazio, alimentado por uma avalanche de conteúdos que abandonaram a isenção em troca do engajamento.
Nesse cenário, o que o filósofo Guy Debord chama de “Sociedade do Espetáculo” torna-se a nossa realidade, onde a imagem construída vale mais do que a proposta real. O Horário Político, que deveria ser um instrumento de informação, rendeu-se a essa estética, transformando-se em um show de marketing onde o candidato é um produto e o eleitor, um espectador passivo. O candidato não precisa mais ser competente; ele precisa apenas parecer um herói ou um “mito” para sua plateia, consolidando o que muitos chamam de abdicação do pensar.
Onde o debate deveria exigir interpretação e critério, hoje sobra apenas o fanatismo, transformando a gestão pública em uma questão de fé cega. Ao repetir bordões de redes sociais sem qualquer filtro, o cidadão cai no que Hannah Arendt definiu como “ausência de pensamento”, tornando-se peça de uma engrenagem que apenas reage a estímulos emocionais. Essa paixão, embora motor essencial do futebol, torna-se um veneno para a democracia quando isolada da razão. O “técnico de futebol” que habita em cada brasileiro precisa entender que o erro de um juiz no estádio é apenas um lamento de domingo, mas o erro de um representante no Estado compromete o futuro de uma geração inteira.
Por isso, o desafio atual não reside na falta de informação, mas na sobriedade necessária para filtrá-la e trocar o grito de guerra pela responsabilidade cidadã. O isolamento provocado pelos algoritmos reforça essa mentalidade de bando, eliminando o diálogo e fazendo crer que a paixão clubística confere autoridade técnica para gerir uma nação. Diferente dos estádios, onde o espetáculo termina com o apito final, na política o jogo continua no dia seguinte, e o preço do ingresso é a nossa própria dignidade.”














