Milton Nascimento: o texto a seguir é de autoria do ilustre professor Joilson Bergher. É primoroso!

É com muita alegria que trago aqui para os nossos leitores uma verdadeira obra-prima. Trata-se de um diálogo entre um grande artista, Milton Nascimento, e a voz. Somente alguém com a sensibilidade de um erudito, de um intelectual, de um acadêmico e de um filósofo poderia buscar, dentro da própria alma e de uma mente tão fértil, a inspiração para construir um diálogo tão extraordinário entre o grande cantador Milton Nascimento e a voz.
É maravilhoso, é primoroso e, de certa forma, nos deixa impressionados diante da capacidade de criação e da sensibilidade que a academia pode proporcionar ao ser humano. Mas observem, meus amigos, e reflitam sobre este ensaio, ao qual faço questão de registrar o meu agradecimento ao ilustre professor Joilson Bergher, pela gentileza e pela deferência de permitir que nós o transcrevêssemos aqui no nosso blog para a leitura dos nossos seguidores.
Vejam que coisa maravilhosa:
POR Joilson Bergher. A voz que cura o mundo. Diálogo com Milton Nascimento. Homenagem ao homem em movimento que se recupera
Milton Nascimento, 83 anos, cantor e compositor mineiro, encontra-se em processo de recuperação após internação por pneumonia. Mais do que uma notícia de saúde, este momento convoca a memória afetiva de um país e do mundo. Este texto propõe um diálogo abstrato entre “A Voz” — aqui tratada como metáfora de uma divindade na música — e Milton, o homem que carrega essa voz pelo mundo. O objetivo é analisar a obra de Milton Nascimento como patrimônio imaterial da humanidade e refletir sobre o que significa um artista que, mesmo em repouso, continua a mover gerações.
Cena: Um terreiro sem tempo. Cheiro de café, chão de terra, violão encostado na parede. Lá fora o vento passa pelas serras de Minas. Milton está sentado, com um cobertor nos ombros. A VOZ não tem rosto. Tem som.
A VOZ: Milton.
MILTON: sorri fraco_ Tô te ouvindo… Demorou pra me chamar.
A VOZ: Eu nunca parei de te chamar. Você é quem saiu cantando por aí e esqueceu de voltar pra casa um pouco.
MILTON: Casa… Três Pontas. A cozinha da minha mãe. O rádio ligado cedo. Eu era menino e já sabia que som cura. Não sabia o nome disso ainda.
A VOZ: Você batizou. Chamou de Travessia. Chamou de Clube da Esquina. Pegou dor de um povo e transformou em acorde maior.
MILTON: Eu não fiz sozinho, não. Tinha o Lô, o Márcio, o Fernando… A gente era muito novo e muito sonhador. A gente achava que podia mudar o mundo com 4 acordes e uma letra torta.
A VOZ: E mudou. Você correu o mundo, Milton. Cantou em Nova York, em Paris, em aldeia, em favela. Levou Minas pro mundo e trouxe o mundo pra Minas. Homem em movimento.
MILTON: _tosse baixo_ O corpo agora pede parada. Pneumonia dá um susto, né? 83 anos avisam: “Ei, desacelera”.
A VOZ: E você vai desacelerar. Vai ficar quieto. Vai ouvir. Porque quem canta a vida inteira também precisa escutar o silêncio.
MILTON: Tenho medo do silêncio às vezes. Medo de que quando eu calar, as pessoas esqueçam.
A VOZ: Esquecer você? Impossível. Coração de Estudante toca em formatura até hoje. Maria Maria levanta mulher do chão. Nos Bailes da Vida embala neto no colo. Você virou oração sem pedir.
MILTON: Se eu fui oração, então que eu sirva. Que minha voz, mesmo baixa agora, lembre alguém de ter esperança.
A VOZ: É isso. Você não é só cantor. Você é morada. E morada a gente visita quando precisa de colo. O Brasil inteiro tá te visitando agora, em pensamento.
MILTON: _fecha os olhos_ Então me deixa dormir um pouco. Mas antes… canta comigo baixinho?
A VOZ: _começa suave_ “Ai, se eu te pego… não, essa não” _risos_ “Canção da América, mãe…”
MILTON: _completa_ “…dos meninos cansados…”
_Os dois cantam juntos. O violão sozinho acompanha._
A VOZ: Descansa, Bituca. Quando você voltar, o mundo vai estar aqui. E a música também.
MILTON: Obrigado por me lembrar que voz não adoece. Só o corpo. E corpo a gente cuida._Luz baixa. Só fica o som do vento e um acorde que não termina._
Importante eu assinalar que
Esse diálogo trabalha a figura presente de Milton como “voz-arquivo” do Brasil: memória, afeto e resistência. Ele nos ensina que arte é cuidado. E que cuidar do artista também é parte da cultura.
Força na recuperação, mestre
Joilson Bergher.
Análises, Debates e Ideias.












