delegado valdir barbosa

A melhor galinha caipira da cidade você encontrava no Restaurante de Dalva, situado na Avenida Fernando Spinola, frequentado por boêmios, políticos, empresários e intelectuais.

Muito oportuna a homenagem que o delegado aposentado Valdir Barbosa presta a essa amiga e excelente profissional da arte de cozinhar. Acompanhe o belo texto do autor:

              “DALVA

Restaurantes abertos no fim de semana, ainda com horário limitado, além do que, quem quiser comer, por exemplo, a feijoada do Barbacoa, o sarapatel de Moreira, o arroz de polvo do Boteco do França, o churrasco do Sal Brasa, se vê proibido de provar das iguarias, ao embalo de caipirinhas, roscas, cerveja e vinho. Assim reza o decreto, no talante das decisões sem sentido dos que (e)ditam as normas nestes tempos – ditadores de plantão – e, ai de quem se atreva a desobedecer,  claro, afora os corajosos  viventes dos lugares onde as autoridades continuam temerosas de fiscalizar e fazer cumprir, até mesmo, leis de verdade. Droga!

Entre estas e outras exclamações decido buscar almoço, no Porto do Moreira, sob uma chuva torrencial que lava, sem tréguas, o centro da cidade. Estaciono o carro em fila dupla, logo após o ponto de ônibus, pouco depois do mercado das flores e corro para pegar a rabada com pirão e sarapatel com arroz, farofa e vinagrete cumprindo a missão que me põe de volta ao lar, ensopado, cabeça aos pés.

Minha consorte e sua sobrinha, fiel escudeira, no desiderato do lar, pela ausência das secretarias, em falta, nestes tempos pandêmicos, me veem chegar como um pinto, encharcado.

Parece que a natureza chorava copiosamente, por algo que viria saber e desta forma ocorreu, pois, tão logo sentei à mesa, o sábado ficou triste. Minha especial amiga, Tina Silveira, sobrinha de Dalva Lírio, a querida Dalva do restaurante que durante muito tempo deu movimento e sabor à Fernando Spínola, como de resto a Vitória da Conquista inteira cuida de me noticiar que sua tia deixou nossa companhia partindo para a eternidade.

Imediatamente viajei ao tempo das feijoadas de Dalva, justo aos sábados e lembrei todos os detalhes daquela casa, onde os cômodos guardavam as mesas postas, sempre prontas aos clientes; do balcão, onde ficavam também seus filhos, Eduardo, Pedro e Sergio; da cozinha, capitaneada por ela com esmero, seu toque de fada dava sabor sem igual, a tudo quanto era servido vindo daquele reduto de alquimia. O filé com molho, o cozido das quartas, o peixe frito ou com legumes, enfim, tudo que a culinária pudesse oferecer era, no Restaurante de Dalva, um manjar dos deuses.

Praticamente, durante toda a década de oitenta e parte dos anos noventa fui agraciado com sua atenção desmedida, quase tratado como filho e assim seguiu, até que encerrou suas atividades. Quantas vezes cheguei de Salvador, nas madrugadas frias da terra serrana e bati à janela do quarto onde dormia, no próprio estabelecimento, vindo da rodoviária, nestas horas, Dalva acordava para fazer um café supimpa, com ovos, beiju e tudo a que me dava o direito.

Depois, comprou uma casa abaixo do restaurante, em direção à Vitor Brito, quase defronte da floricultura de Yomico e Antônio, naquele local separou o melhor quarto para mim, canto no qual me pus abrigado até os idos de oitenta e quatro, antes de nascerem Valdirzinho e Maria Luiza. Ainda neste tempo arrendou o hotel Cometa e, novamente, os melhores aposentos da hospedaria me foram destinados.

Conheceu meus segredos, testemunhou todas as minhas paixões, depois que pude conhecê-la, aturou minhas farras, meus exageros etílicos, meus saraus com Zé Barbosa, o ceguinho de Itapetinga, Chico Viola, Cachoeira, Moacir Morcego e outros menestréis, dos muitos que a terra conquistense pariu.

Tantas vezes isto se repetiu, até altas horas da madrugada, mesmo estando cansada, depois do movimento intenso, conforme disse, sobretudo aos sábados, como este dia infeliz de hoje, depois que raspava, para último sortudo cliente, o panelão da feijoada famosa.

É isso querida Dalva, aqui, neste canto temos prazo de validade. Hoje foi seu dia de cumprir na terra, a etapa destinada pelo Criador, então, segues no rumo da estrada brilhante que decerto lhe estará reservada no além.

Aqueles que a precederam, tais como o saudoso Florivaldo Brito e outros tantos que privaram neste planeta, de sua amizade e companhia, com certeza irão abraçá-la, ainda guardando no paladar, os sabores e o carinho com os quais lhes brindastes e você, com seu sorriso franco e largo os fará felizes no reencontro, assim como um dia também voltaremos a ser, da maneira que fomos, até hoje.

Fui engolindo com dificuldade o sarapatel de Moreira, posto a garganta se apertava em nós sucessivos, na esteira das reminiscências e da saudade.

Beijos amiga.

Siga em paz.”