Eu uso óculos

Por Marco Jardim
E se enxergar for também uma forma de continuar vivendo? Poema sobre o que ainda há para ver.
As pálpebras se movem.
Abrem, fecham, na intensidade da luz.
Não é exatamente efeito da densidade do corpo que morre hora após hora.
É o anseio de certa beleza de outrora, pura, virginal.
Porque meu corpo não é dado a obedecer às chamadas do despertador moral.
Desejo, pestanejando, ainda que como um animal hibernante, acreditar em milagres, acordar, comer, rugir e trepar sob a garoa, no galho mais próximo.
Tremeluzir as pálpebras e deixar passar este setembro de ar frio.
Sussurram que estou num inverno entorpecido, com este olhar meio caído e a chuva sobranceira embaçando as lentes, pendendo sobre as pestanas.
Sem impulso, sem hora, sem grana.
Com apneias, hérnia, estafa, intolerância à lactose, escoliose e ojeriza declarada a todo este ruído.
Sem forças para remover o torpor do corpo menoscabado.
Olhando em volta, as circunstâncias não parecem mesmo tão normais.
Os homens vão na direção contrária e as almas não voltam atrás.
Meus olhos até estacionam no rosto, nos cabelos e nos aros dos óculos de um outro rapaz.
Numa escada, numa louça espatifada no chão, no quanto é bonito o sol.
Piscando, pra não lacrimejar.
Do fundo da lente, quero ser como outros que vejo por aí, normais, bonitos, solares.
Os olhos brilhando à luz que viceja.
Quero ser imortal.
O máximo que tenho sido é aquele que senta no banco de trás, que se esconde, que pega a estrada errada, perde o fim da tarde passada e a respiração abdominal.
Esfrego os olhos com as costas das mãos e, depois de piscar algumas vezes, pingo colírio em minha realidade.
Viro o rosto de lado, franzindo a testa, semicerrando os olhos e ensaiando encontrar outros lampejos de querer, provando uma tâmara sem a vontade de comer.
Sem pestanejar, na inquietude dos cílios, resolvi não controlar o tempo.
Ajeito os óculos, suavemente.
É só uma vontade crente no que ainda estou vendo e no breve gosto do pedaço da vida















