Mais um belíssimo texto da nossa querida amiga, Tia Nem, de Itabuna

Meus amigos, minhas amigas, caros leitores do Blog do Agito Geral, eu cometi um erro ao não fazer um comentário sobre o texto que a minha querida Tia Nem nos encaminhou na terça-feira passada. Deixei passar, não comentei, mas já pedi desculpas a ela por essa omissão. Hoje, não poderia deixar de escrever algumas palavras sobre o que ela nos traz e que publicaremos em nosso blog.
Eu sempre sou chamado à atenção pela minha família, até pela caçula de quinze anos, de que a gente não precisa dar tantas explicações. E o tempo passa, a vida segue, e vamos descobrindo que isso é verdade.
A nossa intimidade, o nosso íntimo, aquilo que carregamos dentro de nós, nos pertence. Ninguém sabe exatamente o que se passa no interior de outra pessoa. Quantas vezes tentamos explicar aquilo que sentimos, aquilo que fazemos, quando, na verdade, determinadas coisas pertencem somente a nós?
E quero dizer à Tia Nem que aprendi mais um pouco com a vida depois de ler esse texto maravilhoso. É exatamente isso que uma boa leitura faz: provoca, ensina, desperta uma reflexão e, muitas vezes, nos faz enxergar algo que estava diante dos nossos olhos, mas que ainda não havíamos percebido.
Aproveito, Tia Nem, para repetir algo que já lhe disse: tenho uma admiração muito especial pelo que você escreve. Seus textos têm sensibilidade, experiência e essa capacidade tão bonita de fazer o leitor pensar sobre a vida.
Você é um verdadeiro brinde para os seus leitores aí do Centro-Sul e, agora, também para nós aqui no Sudoeste da Bahia, através do Blog do Agito Geral.
Grande abraço, Tia Nem. Um ótimo dia e que Deus te abençoe.
A dignidade de existir sem pedir desculpas.
Por Maria Reis Gonçalves (Tia Nem)
Há um lugar dentro de nós onde mora o que é inegociável. Um território íntimo, silencioso, que não se curva às expectativas, nem às exigências dos que querem moldar a alma alheia. Esse lugar se chama dignidade.
A dignidade humana não é só o direito de viver — é o direito de ser. Ser quem se é, sem precisar se justificar o tempo todo. Sem precisar pedir desculpas por existir. Sem ter que encolher a própria luz para caber no mundo estreito dos outros.
Desde cedo, aprendemos a nos adaptar. A sorrir quando queríamos chorar.
A obedecer para sermos amados. A nos silenciar para evitar rejeições.
Muitos de nós, ao longo da vida, fomos cedendo pequenos pedaços de nós mesmos — por medo, por necessidade, por sobrevivência.
E cada pedaço cedido nos custou caro. Custou presença, verdade, paz interior.
Dignidade é quando, mesmo ferido, alguém ainda consegue manter o olhar firme. É quando o corpo traz cicatrizes, mas a alma continua inteira.
É quando uma mulher que foi humilhada encontra dentro de si a coragem de recomeçar. É quando um homem que perdeu tudo não perde o respeito por si. É quando um idoso com passos lentos exige ser escutado. É quando uma criança diz “não” pela primeira vez e é acolhida. Dignidade é resistência.
É afirmação. É liberdade.
Mas, infelizmente, o mundo não está acostumado a respeitar o que é essencial. Quantas vezes confundem humildade com submissão? Quantas vezes exigem que alguém seja “grato” por receber o mínimo? Quantas vezes silenciamos o grito do outro dizendo que ele está exagerando, que está sensível demais?
Há uma violência que não grita, mas vai matando em silêncio: a violência da indiferença, da desumanização, da invalidação constante.
E essa violência rouba mais do que autoestima — ela rouba o senso de merecimento.
Quando alguém começa a achar que não merece ser tratado com respeito, é porque a dignidade já foi ferida muitas vezes.
E recuperar isso não é simples. É um processo lento, quase cirúrgico.
Exige reaprender a se ver com olhos amorosos.
Exige escolher a si mesma, a si mesmo, mesmo quando ninguém mais escolhe. Exige coragem para colocar limites, para dizer não, para se afastar de onde o amor virou moeda de troca.
Dignidade também é espiritualidade. Não no sentido religioso, mas na experiência profunda de saber que há algo sagrado em cada ser humano — algo que ninguém pode tocar ou roubar. Mesmo que te arranquem os títulos, a casa, a saúde, a companhia — há um núcleo inviolável em ti que continua vivo.
E esse núcleo é tua dignidade.
Por isso, é preciso lembrar: ninguém precisa implorar por respeito. Ninguém precisa pedir licença para existir. O valor de uma vida não se mede pela opinião dos outros, mas pelo amor que ela carrega dentro.
E se o mundo não te reconhece, reconheça-se. Se o mundo não te valoriza, valorize-se. Se o mundo te vira as costas, vire-se para si mesma. Ainda há vida em ti. Ainda há dignidade em teus passos, mesmo que o caminho tenha sido duro.
A dignidade humana é, no fim das contas, a última coisa que nos resta quando tudo parece perdido.
E, ironicamente, é ela quem nos devolve o chão, o fôlego e o direito de continuar.















