Meus amigos, minhas amigas, esta Copa do Mundo, a maior de todas já realizadas, realmente tem provocado profundas reflexões. Na verdade, fugiu completamente daquele lugar-comum que normalmente acompanha os brasileiros durante um Mundial.

Por uma questão de patriotismo, de amor ao nosso país e, claro, tendo no futebol um dos principais símbolos que sempre fizeram com que nos orgulhássemos desta nação, da nossa bandeira e das cores verde e amarela, o brasileiro vive intensamente uma Copa do Mundo.

Afinal, fomos respeitados e ainda somos respeitados pelo mundo inteiro quando o assunto é futebol.

Mas esta Copa, da qual infelizmente já nos despedimos, também tem deixado lições e provocado muitos questionamentos.

E eu trago aqui uma reflexão que me foi enviada pelo engenheiro civil Leandro Fonseca, conquistense, uma figura que pensa Vitória da Conquista e que possui raízes profundas com a nossa cidade.

Dr. Leandro recebeu um texto, fez as suas observações e compartilhou conosco um comentário marcado pela indignação e pela reflexão sobre o momento que vivemos.

Vamos publicar, a seguir, exatamente o comentário do Dr. Leandro Fonseca para que você possa ler, refletir e tirar as suas próprias conclusões.

Logo depois, também apresentamos o texto que motivou a manifestação e a indignação do nosso querido conterrâneo.

Primeiro, o comentário do Dr. Leandro Fonseca. E, em seguida, o texto que deu origem a toda essa reflexão.

Leiam, analisem e reflitam.

“Um Brasil ultrapassado, destoante do mundo moderno e sem ser digno da sua história.

Retroagimos e estamos dentro de um buraco profundo.

A imbecilidade é o norte deste Brasil fedido.”

“O Eco das Duas Margens

Você viu essas duas cenas?

A Times Square, em Nova York, sempre foi o epicentro do excesso.

Mas, durante a Copa do Mundo, suas telas gigantes e luzes de neon serviram apenas como moldura para um espetáculo muito mais revelador: o espelho da alma de duas nações.

De um lado da avenida, o bloco vermelho da Noruega marchava com o peso da história e a leveza da civilidade. Sob o comando de um tambor compassado, centenas de cidadãos se agachavam em uníssono. O movimento era um só: braços esticados para a frente e recolhidos com força em direção ao peito. Estavam ali, no asfalto americano, evocando seus antepassados. O grito que ecoava de suas gargantas era *”Ro!”* : o comando ancestral para remar.

Havia ali uma sincronia assustadora de tão bela, uma demonstração de que a força de um povo reside na sua capacidade de agir como um corpo único, coordenado, disciplinado.

O “Viking Row” era uma aula de educação e propósito. Mostrava um povo que entende que, para o barco avançar, todos precisam puxar o remo na mesma direção, com respeito ao espaço público e ao olhar do outro.

A poucos metros dali, a resposta brasileira não tardou. Mas o barco que os brasileiros decidiram colocar na água era de outra natureza.

Aproveitando o mesmíssimo ritmo cadenciado do tambor nórdico, a torcida canarinho, vestida de amarelo, também se sentou no chão.

Mas o movimento de braços e quadris que se seguiu não evocava navios, conquistas ou união; simulava, de forma explícita e hiperbólica, o ato sexual. O grito ritmado que substituiu o comando de navegação foi o *”Créu”*, resquício de um funk de duplo sentido que atravessou décadas para virar o cartão-de-visitas nacional na metrópole mais famosa do mundo.

O contraste é imediato, violento e abissal.

De um lado, a sublimação da cultura através da ordem; do outro, a redução do espírito à piada de baixo calão.

O detalhe mais cruel dessa crônica de costumes não estava na coreografia em si, mas em quem a executava. Aqueles que rebolavam no chão de Nova York não eram os marginalizados pela falta de oportunidades. Em 2026, com o dólar acima de 5 reais, passagens aéreas proibitivas, hotéis inflacionados e ingressos de Copa que custam pequenas fortunas, aquela multidão em verde e amarelo era composta por uma elite.

Eram brasileiros com acesso ao consumo, portadores de diplomas, herdeiros ou construtores de grandes patrimônios financeiros. Gente que teve acesso às melhores escolas e oportunidades que o país pode oferecer.

E é aí que a ferida se abre. O episódio em solo americano enterra de vez a velha ilusão de que os problemas comportamentais do Brasil são fruto exclusivo da vulnerabilidade socioeconômica ou da falta de recursos.

O dinheiro compra o bilhete para a Times Square, paga a hospedagem em Manhattan, mas não compra o que falta na bagagem.

Cultura, afinal, não se mede pela conta bancária de seus cidadãos. Cultura tem a ver com caráter coletivo, com aquilo que toca a alma de um povo e dita o que ele considera orgulho ou vergonha.

Tem a ver com valores morais e com a noção rudimentar de decoro. Enquanto uma nação escolhe mostrar ao mundo sua capacidade de organização e respeito, a outra, representada por sua parcela mais privilegiada, escolhe a apelação, confundindo irreverência com vulgaridade.

As duas torcidas cruzaram o Atlântico, mas habitam planetas civilizatórios completamente diferentes.

No fim, quando o tambor calou, a Noruega deixou em Nova York a imagem de um povo que sabe para onde navega.

O Brasil deixou apenas o eco de um constrangimento autofágico, mostrando que a nossa maior pobreza, infelizmente, não se resolve com dinheiro.

Uma ótima semana para todos nós, com muito trabalho e bom ânimo.

Marx Gabriel

06.jul.26”