Por Luiz Cláudio Guimarães

Dedicado a Benjamin Batista, o criador de academias.

Há poucos dias, pelas mãos do amigo enxadrista e empresário Gilvan Quadros, chegou-me às mãos um objeto de densidade rara nestes tempos de superficialidade virtual: um exemplar autografado de Um Homem Contra o Sol, livro de estreia do professor de matemática aposentado Eron Sardinha Oliveira de Canaã, publicado pela Cogito Editora. Ao abrir a página da epígrafe, deparo-me com a caligrafia do autor e uma dedicatória que funciona como bússola existencial: “A grande coisa da vida é viver!”. Na página seguinte, consta a profecia de Gilvan, que com o faro aguçado de quem antecipa os movimentos no tabuleiro e nos negócios, lançou: “Este livro vai bombar!”. Ambos estão cobertos de razão.

Asseguro-lhes que a obra possui uma singularidade cortante. Nada tem de comum com as cópias pálidas, as transcrições de ideias alheias que pululam no mundo digital e que são facilmente abduzidas pelos algoritmos dos “expertos” de ocasião. Se eu pudesse resumir em poucas palavras a audácia de Eron, diria que ele esgrima de forma magistral o Sapere aude de Immanuel Kant: ouse saber, ouse pensar por conta própria. O seu método é o da desconstrução gradual das mentiras culturais que nos tomam como reféns desde a infância, bem ao espírito da exortação de Tessalonicenses trazida logo na Abertura do livro: “Examinai tudo e ficai com o que é bom”.

Essa abordagem imediatamente me transportou no tempo, resgatando um dos maiores monumentos já escritos no âmbito da psicanálise e do pensamento baiano: o livro O Homem – Sua Explicação (Vol. 2): Noiatria ou Prática Supressiva do Irreal, de Auto José de Castro. Recordo-me com precisão de quando recebi o exemplar dessa obra, um presente generoso de Chico da Presscolor, dileto amigo de José Augusto Berbert de Castro, do decano Emílton Rosa e de Aurélio Pires — sendo os dois Josés (Auto e Augusto) e Aurélio, hoje, de memória saudosa. É gratificante registrar que, graças a esses vínculos solidificados no convívio fraterno dentro da ALAS (Academia de Letras e Artes de Salvador) e pelo meu grande amor pela cultura, consigo acessar essas pérolas literárias e filosóficas.

Lembrei-me, também com precisão afetiva e intelectual, do artigo publicado no jornal A Tarde por ocasião do falecimento de Auto, escrito pelo meu saudoso professor Washington Trindade — um dos juristas e intelectuais mais probos e brilhantes que a Bahia já deu ao mundo. Para Trindade, Auto de Castro era um “gênio sublime”. Foi preciso correr àquela obra para compreender que a clínica de Auto estava centrada justamente naquilo que ele chamava de supressão gradual da mentira.

Aqui e lá, no divã de Auto de Castro e na literatura de Eron, os dois autores intentam o processo de cura do indivíduo e da sociedade através da inoculação da verdade. No caso de Eron, esse processo se dá sob o testemunho do Sol — um Sol que às vezes também se mostra mentiroso enquanto personagem e objeto mitológico, como na passagem bíblica em que Josué faz o astro parar de girar ao bel-prazer de uma conveniência bélica, como se os gigantes universais pudessem utilizá-lo como um mero arremesso de peso.

A mente cirúrgica do Eron matemático rejeita o “2 + 2 = 5” do absurdo físico e teológico. Ele herda o DNA do racionalismo do século XVIII, um espírito marcadamente voltairiano, em que a clareza geométrica passou a desafiar o misticismo obscuro para destronar as contradições dos textos sagrados. Nesse sentido, ao esgrimir a sua lógica desconstrutiva no sentido derridiano, ele dispensou o ataque ao texto sagrado de fora; pois expõe o caótico desenho e o desencontro das Escrituras. Entre as suas páginas, Eron capta com agudeza a contradição frontal entre I Coríntios 15:5 e Mateus 28:16: afinal, quantos viram Jesus ressuscitado, doze ou onze apóstolos? Afinal, Judas houvera saído para se enforcar — e eu daqui pergunto: de quanta corda precisa um Judas para se enforcar?

A régua lógica de Eron não poupa o Antigo Testamento. Como aceitar que, na cosmologia bíblica, as plantas tenham sido criadas antes do próprio Sol? Ou o paradoxo de Gênesis 4:14, onde Caim, após assassinar Abel nos arredores do Éden, tremeu de medo daqueles que poderiam matá-lo na Terra — que outros humanos habitavam aquele vazio? E, logo adiante, o mesmo assassino errante torna-se, inexplicavelmente, um construtor de cidades. Por sustentar com tamanho rigor essas fraturas dogmáticas, o autor terminou sendo sumariamente desligado da sua Igreja. No próximo dia 29, na Academia de Cultura, teremos a oportunidade de expor esse espírito de contestação com o qual ele tanto trabalhou.

É claro que esse despertar incomoda. Diante da incapacidade de rebater a solidez desses argumentos, o dogmatismo e a mediocridade institucional poderiam até mesmo acionar a sua última e mais covarde linha de defesa: o assassinato de reputação através do preconceito. “Você é um doido!”, disparariam os reféns da ilusão.

Michel Foucault, em sua História da Loucura, já denunciava esse mecanismo político de exclusão: rotula-se como “louco” todo aquele que recusa o jogo das mentiras compartilhadas. A sociedade hipócrita opera uma inversão perversa: chama de “normal” quem vive anestesiado pelo irreal e de “demente” quem busca a lucidez. O “doido”, na verdade, é o indivíduo saudável que se recusa a adoecer junto com a coletividade. Chamar Eron de louco é apenas a reação imunológica de um tecido social doente contra a inoculação da verdade.

Ao desmascarar o Sol mitológico das Escrituras e as contradições clericais, Eron não nos joga no niilismo. Pelo contrário: ele opera a cura noiátrica de Auto de Castro para nos devolver ao Sol real e à única certeza palpável que possuímos. Como bem escreveu o autor na dedicatória que guardarei com zelo, a grande coisa da vida é viver. Sim. Viver sem amarras, sem reféns, sob a luz da mais cortante e libertadora honestidade intelectual.