Um sinal de esquerda
Por Iara Damiana Campos Alves
Passageira apressada, venho observando ao longo da vida que, no percurso do dia a dia, os transeuntes cruzam-se, confrontam-se, defrontam-se, mas não se encontram. E, nessas minhas passagens de lucidez afetiva, cansada de tanta solidão voluntária, saio em busca do meu amigo caminhador para conversarmos amenidades, sob o sol moreno da primavera.
As nossas conversas apresentam sempre um produto caro, à prestação, mas nunca fiado. E, entre uma fala e outra, bisbilhotamos a folha corrida da crase – variante morfofonêmica, resultado da juntura de duas vogais iguais.
Nesse dia, ele me deixou com a oratória do gramático, palavreando reticências que norteiam normativamente esse apêndice tantas vezes supurado, vestindo as honrarias e oficialidades merecidas até esgotar meu último argumento.
Depois de tantos apartes e exceções, caí em terra, mudei de tom e falei comigo mesma – diabo de palavrinha complicada… Venho acompanhando sua trajetória, lendo, nos autos de seu processo gramatical, um número estimativo de graves denúncias – aliciadora de determinantes modestos (os valetes de confiança dos feudo-substantivos), inimiga figadal de termos indefinidos, combatente de nome próprio que a História faz célebre e outras ações criminais arquivadas na pasta da Promotoria.
E a crase vai além, com seus desencontros. Não aceita a Gramática, senhora muitíssimo feminina, conferir abertamente o direito de prioridade ao masculino, porque ela, feminista assumida, não se deixa acentuar frente ao sexo forte, a não ser que haja saia elíptica.
Não satisfeita, freia algumas junturas de órgãos competentes, quando, agramaticamente, querem crasear antes de verbos, impedindo a realização de ações diretas já. Querem crasear a residência sem nome do mutuário, depois do confisco pelo BNH. Querem crasear o assistir a enferma na fila do INAMPS – e como craseiam.
E, com parênteses, aspas e reticências, pesa ultimamente a mais grave acusação, depois de descoberto o motivo que explica toda essa atitude irreverente – a crase é um sinal de esquerda.
IEED – 1985














