A partida do ilustre médico Dr. Péricles Matos deixou Vitória da Conquista consternada. A cidade ontem amanheceu mais triste com a notícia do falecimento de uma figura muito querida e respeitada, não apenas pela sua reconhecida capacidade profissional, mas também pela forma humana e acolhedora com que tratava seus pacientes.

Dr. Péricles deixa um legado de dedicação à medicina e de serviços prestados à nossa comunidade. Seu exemplo de vida já foi amplamente reconhecido por familiares, amigos, colegas de profissão e por todos aqueles que tiveram a oportunidade de conviver com ele.

Entre as muitas manifestações de carinho que surgiram após sua partida, chamou a atenção a mensagem escrita por Elaine Norberto, filha dos saudosos professores e ex-vereadores Jesiel Norberto da Silva e Dona Elita Figueira.

Jesiel Norberto, pastor evangélico, também era natural de Nova Canaã. Já Dona Elita Figueira pertencia a uma tradicional família conquistense, os Figueira Mendes. Ambos deixaram importantes contribuições para a vida pública e educacional de Vitória da Conquista.

Ao ler as palavras escritas por Elaine, somos tomados por uma sensação de serenidade. Sua mensagem carrega uma leveza rara, capaz de transformar a dor da despedida em um momento de reflexão, fé e esperança.

É um texto que nos convida a olhar para além da ausência física e a recordar os ensinamentos, os gestos e os exemplos deixados por aqueles que partiram. Uma despedida marcada pela gratidão, pela espiritualidade e pela confiança nos desígnios de Deus.

Por isso, convidamos os nossos leitores a conhecerem a homenagem prestada por Elaine Norberto ao seu querido amigo Dr. Péricles Matos.

Leiam com atenção e sintam a delicadeza de cada palavra. Talvez vocês também encontrem nelas a mesma paz que encontramos ao lê-las.

“Homenagem a Péricles Norberto Matos

Elaine Norberto

A lembrança mais antiga que tenho de Pequinho me veio através de tia Néia. Ela e Jadiel iriam a São Paulo e perguntaram aos filhos o que gostariam que lhes trouxessem de presente.

Pequinho, depois de instado a responder, disse apenas: eu quero uma ruralzinha.

– Uma ruralzinha!, tia Néia repetia, encantada, com um brilho particular nos olhos. Ele só queria uma ruralzinha!

Seria um equívoco interpretar esse desejo único como se ele quisesse pouco. Ao contrário; era prova de que ele queria muito, de que queria intensamente um objeto que era único e insubstituível. Era um sinal de que tinha determinação e foco.

Era também uma prova de exigência. Ao voltarem da viagem, os pais não poderiam dizer encontrei isso e não aquilo. Teriam que se virar para trazer uma ruralzinha para Pequinho. Seria tudo ou nada. Satisfazê-lo exigia precisão.

Essa resposta mostrava também um apego ao essencial. Não se deteve a descrever o objeto; não importava o tamanho ou a cor. Sendo uma ruralzinha estava bom.

Havia, pois, um desprezo pelo excesso, um carinho pela concisão e uma afeição pelo pouco falar.

Assim era Pequinho.

Pude constatar essas virtudes quando, na época de estudante, morei com os filhos de Jadiel – Jeda inclusive – e Denise, a prima querida que nos deixou a pouco tempo.

O fato de que nos víamos pouco não queria dizer nada. Obrigada, Mony, porque aquele dia, na casa de vocês, depois de uma conversa intensa, você pôde ver o que havia de gêmeo em nossas almas. Fiquei muito honrada com o elogio.

Tínhamos uma viagem prometida para Paris. Fica então a viagem adiada para quando nos vermos novamente, em outras plagas.

Em breve cavalos de fogo levarão o corpo que foi teu, antes de te unires ao Criador em espírito e em verdade.

Mony, Natalia, Rudá e Gabriel: quero tê-los como herança de Pequinho.

À esposa, filhos, irmãos, e a todos nós que o amávamos tanto:

não nos detenhamos no fato de que, sem ele, o mundo perde parte do que há de belo e leve.

Continuemos o caminho com mais sabedoria, aprendendo com ele sobre esse atributo.”