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Boa viagem, por Marco Jardim

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Eu morava num lugar de horizonte sem mar.

O que eu via é o que, ordinariamente, outros tantos veem.

O mercadinho, a loteria, o vendedor de aipim, o cortiço, o bar, a placa de geladinho na janela.

Mais abaixo, a peixaria, o moço que conserta bicicletas, o que laqueia molduras, o açougueiro e a casa vermelha descascada.

Descendo a ladeira, um poço escuro.

Entre um cochilo e outro abrasantes, agora estou na estrada.

Entre um tempo e outro, estou fora da ordem.

Não sei bem se me habituei às paisagens, aos costumes, às fotografias, mas tudo era menino, menina, no olho da rua, na virada da encosta, no alto da serra, no meio-fio.

O reflexo das cores era o mesmo de sempre, parecia flama, parecia monotonia sem conciliação.

O sol sempre a pino, na feira, na praça, no lilás.

Nos lugares modestos que nem os nomes recordo mais.

No prédio onde eu morava, apartamentos sempre fechados, portas e janelas pintadas de azul desbotado.

As roupas dobradas sobre a cama, os frascos de perfume nas tábuas embutidas, os lençóis e travesseiros espalmados por uma indiferente solidão.

Agora, quando me deito, ao fim do dia corriqueiro, sonho, completamente nu.

E, como que num encantamento, registro uma romaria.

Vejo-me subindo uma serra, estrada de mata silvestre, casas inscrustadas no monte.

Um bairro longevo, Laranjeiras, Capelinha, Cosme Velho.

Perto de um sobrado amarelo-antigo, construção embargada, vejo uma árvore gigantesca.

Uma daquelas centenárias, como a jaqueira na trilha da Ribeira.

Nas ruelas, já de tardinha, tudo parece agora algo que virtuoso, com a cor da terra corando a Concha e um sol brando brilhando nos prismas das pedras do chão.

Tem mar no sonho. Costa, praia vazia, búzios à margem.

Um nítido farol, o sinal sob o sol, uma vida autêntica, tangível.

Um homem barbado, belo, artista, vestido de linho muito alvo e transparente, abre o portão de uma morada e me chama pro almoço.

Comida de cheiro, axé, cumbucas de barro.

Oferta cocadas de marmelo e apanha um pote de coco com um espelho circular de água doce.

Do reflexo, vejo um córrego que desce sobre um gramado em declive.

Ouço o vozerio fagueiro de nativos, ouço Gal, ouço o miado de um gato.

Mainha aparece na sacada e acena, contente.

Na expansão desse estado inconsciente, desperto.

Respiro, porque sei que o mundo, atrás do pano orgânico, esconde tecidos mais despidos.

No júbilo do gozo do sonho, aguardo o alvorecer.

Mostro a polpa da mão ao som e ao sol do amanhecer na veneziana.

Aceito as boas vindas da luz (e o som e o sol do mar) nesse início de outra manhã costumeira.

Ainda sinto a mão de sonho do nativo em meus pêlos, em minha tatuagem.

E a voz de minha mãe ecoando: “Filho, boa viagem”.

Marco Jardim – para Arthur Scovino

1 resposta para “Boa viagem, por Marco Jardim”

  • Sandra Fontana says:

    Que lindo! Mãe é tudo e fechar uma inspiração, um sonho ou a viagem sem a presença materna, certamente não seria igual. Ela aportou toda mágia no final!

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