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João Pedro Macedo Soares é um jovem de apenas 16 anos, é vascaíno convicto, tem orgulho de sê-lo, e assim como nós todos vem sofrendo com as últimas performances do Gigante da Colina.
João Pedro externou toda a sua genialidade, todo o seu sentimento, não economizou palavras para mostrar que o nosso time só não é capaz de congelar a sua capacidade de escrita. Vale a pena, leia até o final o que João Pedro escreveu:

“Na última quinta-feira (18/02), o rover Perseverance, da NASA, pousara em Marte, aquele planeta vermelho a 80 milhões de quilômetros. Ao ter sua aterrisagem oficializada pelo sonoro grito de “touchdown confirmed”, os cientistas presentes no centro de comando da agência especial americana comemoram como um gol numa final de Copa do Mundo aos 45 do segundo tempo. Embora anos de trabalho duro e dois bilhões e meio de dólares investidos sejam mais valiosos que isso.
O viajante interplanetário tem como objetivo encontrar resquícios de vida nas rochas marcianas. As evidências prévias são sólidas o bastante para justificar o investimento e levantar dúvidas honestas. A confirmação do menor micróbio que seja revolucionaria o entendimento da humanidade perante o universo. Quão sozinho estamos, afinal?
Essa mesma humanidade do rover astrobiólogo é capaz de diversas outras invenções de igual, superior ou menor impacto. Afinal, toda e qualquer descoberta feita antes da construção do robô contribuiu para que se chegasse nele. O presente é fruto do passado, pois. A Estação Espacial Internacional, o foguete Saturno V, a eletricidade, os motores a vapor, a física newtoniana, a roda: todos maquinários fundamentais para o desenvolvimento humano. O alicerce comum delas? A matemática.
As civilizações babilônicas, gregas e egípcias detinham conhecimento matemático suficiente para suas atividades cotidianas, como arrecadação de impostos e construção de pirâmides. Suas descobertas datam de antes de Cristo, mas são tão atuais o bastante para pautarem boa parte do conteúdo do Ensino Médio, vide a geometria Euclidiana.
A matemática e os números são latentes na sociedade atual. E não digo só sobre os zeros e uns que computam o Perseverance em sua viagem marciana, embora isso seria por si só um exemplo relevante. Mais diário, porém, são as noções numéricas encrustadas em atividades de gosto popular. O título deste texto, inclusive, é uma amostragem.
Um vírgula zero vinte sete zero vinte sete zero vinte sete zero três. O resultado da divisão de 38 por 37. Isto é, a média de pontos obtidos por rodada pelo Vasco da Gama ao longo da edição vigente do Campeonato Brasileiro Série A. Número este contrastante à astronômica cifra de 720.000.000, embora não tenha ligação com a NASA, apenas com as dívidas do Clube de Regatas. Na verdade, ambas informações são grandezas inversamente proporcionais; andam de mãos dadas, portanto.
Um campeonato de 38 partidas, das quais 37 já foram disputadas no momento da confecção deste texto, não premia acasos. A mesma “bola vadia” que premiou o time de fulano na 3ª rodada fará ciclano comemorar na 18ª. Qualquer resultado é fruto de trabalho constante. Para o bem e para o mal.
Da mesma forma, trinta e sete jogos não são responsabilidade de um ou dois nomes específicos. Os momentos marcados na memória do vascaíno não carregam mais culpa que nomes específicos do plantel técnico e administrativo, e vice-versa. O pênalti perdido por Cano, a expulsão de Henrique, o gol de Everaldo, a falha de Fernando Miguel contra Bruno Henrique, a penalidade cometida por Pikachu contra o Coritiba, a demissão de Sá Pinto, Ramon e Abel.
Todos são culpados. Logo, ninguém é.
Uma obra de tamanha magnitude negativa tem tantos atores que não adianta culpá-los individualmente, mas sim tratar do todo. Afinal, o Vasco não foi rebaixado por conta dos seis pontos perdidos contra o Coritiba, pois poderia ter feito um contra o Internacional. O estilo de jogo falho de Abel Braga não pauta o resto do ano, pois o de Ramon Menezes poderia supri-lo. Os acidentes são tantos que não há para quem apontar o dedo. Com a mão recolhida, resta apenas lamentar.
O choro de Andrey, Carlinhos, Talles e Ricardo retrata bem, portanto, a sensação vascaína. Analisando friamente, não há razão para isso. Conforme avisado anteriormente, o presente é fruto do passado. E seja nos anos da monarquia euriquista, no triênio comandado por Alexandre Campello ou a temporada 2020–21, não faltaram momentos que coordenaram o rio para desembocar na Série B.
No entanto, o vascaíno não faz ponderações racionais. Do contrário, não seria vascaíno. O Vasco, pois, afasta o são de si. Restam apenas os loucos.
A quase eleição do candidato Leven Siano não foi um acidente. A loucura do advogado, entre a contratação de Balotelli e o empréstimo de três bilhões, concentrava o desesperado pedido de socorro de quem virou o século campeão brasileiro e terminou seu primeiro quinto renegado à Segunda Divisão. Ele é a personificação do mais extremo estado de carência vascaína.
O rebaixamento, dessa forma, talvez sirva como um tapa na cara. Uma merecida e requisitada surra, embora os torcedores sintam que não precisasse de tanto. O tempo dirá o quão foi benéfico. Com três outras traumáticas experiências na Série B, os vascaínos não tem porque ficarem confiantes que o clube aprenderá algo após esse litígio, pois não fizera em nenhuma das vezes anteriores, tanto que chegou a quarta. No entanto, a eleição de Jorge Salgado acende uma fagulha de esperança unicamente por ter o benefício da dúvida. Estar às escuras é mais reconfortante que enxergar o cenário real.
Para o restante de 2021, qualquer projeção atual precisa é falha. O elenco, um dos mais caros em folha salarial no Brasil, provavelmente sofrerá um limpa; tanto os promissores garotos da base quanto outros veteranos que não agregam em campo. Nesse contexto, até mesmo imaginar quem comandará a casamata é inútil. Seria como idealizar a casa dos sonhos sem ter em mãos o orçamento e as ferramentas.
Como se o pesadelo não pudesse piorar, o momento que deveria ser de profunda reflexão e reformulação será de 4 dias. Claro que as mudanças seguirão com o andar do Campeonato Carioca, mas certamente fazê-las com o carro parado ajudaria.
Retornando a outra invenção de genialidade ímpar da humanidade, a música traz paralelos perfeitos para esta situação vascaína, tal qual refletia quando Vanderlei Luxemburgo fora contratado. No caso, Leandro Roque de Oliveira, vulgo Emicida, declamou a conclusão que a equipe precisa tirar deste momento na canção “É tudo pra ontem”.
Talvez seja bom partir do final
Afinal, é um ano todo só de sexta-feira treze
A primeira linha da música é o ponto chave. O Vasco da Gama pode se reerguer a partir da queda. Inicia sua nova jornada do final da antiga. Esta é a metade cheia do copo.
A vazia, no entanto, se vale de uma lógica retrocessiva. Parte do final para, em retrospectiva, lembrar do que já foi o Vasco. A Série B como um ponto final de uma linda história centenária.
Somente o tempo será capaz de esvaziar ou encher o copo. Conforme afirmado por Cyro Aranha, “enquanto houver um coração infantil, o Vasco será imortal”.
Esta é a dádiva e a maldição vascaína. Acorrentando à eternidade, os torcedores esperam que faça bom uso dela.”