Sou contra a escola de tempo integral imposta pelos governos.

A defesa da escola de tempo integral parte de um pressuposto que eu questiono: o de que quanto mais tempo uma criança permanecer sob a tutela de uma instituição, melhor será sua formação. Pelo discurso da proteção, da eficiência e da aprendizagem, naturaliza-se a transferência da responsabilidade educativa da família e da comunidade para o Estado. Essa lógica representa um enfraquecimento da experiência humana. A educação não nasce do prolongamento da escolarização, mas da riqueza das relações sociais, da convivência entre gerações, da participação na vida comunitária, do brincar livre, da cultura, da arte, do trabalho cooperativo e da autonomia construída na vida cotidiana… da rua, da praça… Ao ocupar horas da infância, a escola reduz justamente os espaços onde a liberdade se aprende na prática.

Essa expansão institucional é motivo de preocupação. Como defendia Bakunin, uma sociedade livre não pode ser construída pela ampliação das estruturas de autoridade, mas pelo fortalecimento da autonomia dos indivíduos e das comunidades. A formação humana deve emergir da cooperação voluntária e das relações horizontais, e não da centralização progressiva da vida social em instituições. Da mesma forma, Ivan Illich denunciava que a sociedade moderna passou a confundir educação com escolarização, transformando a escola em uma instituição que monopoliza o conhecimento e enfraquece outras formas legítimas de aprender. Quando toda experiência educativa é deslocada para dentro da escola, a própria sociedade desaprende a educar. Até mesmo a Constituição Federal de 88 define que a educação tem como co-autora a sociedade.

Uma comunidade saudável não delega integralmente a formação de suas crianças a especialistas ou burocracias; ela assume coletivamente essa responsabilidade por meio da família, da vizinhança, das associações culturais, dos espaços públicos, das tradições e das experiências compartilhadas. A infância não precisa de mais horas de institucionalização, mas de mais oportunidades de viver a cidade, fortalecer vínculos afetivos, conviver com diferentes gerações e participar ativamente da vida comunitária. O futuro de uma sociedade não será determinado pela quantidade de tempo que suas crianças passaram dentro das salas de aula, mas pela qualidade das relações humanas que construíram fora delas. Quanto mais forte for a família, mais viva for a comunidade e mais livres forem as experiências de aprendizagem, menor será a dependência das instituições e maior será a capacidade de formar indivíduos autônomos, solidários e verdadeiramente livres.

Omar Costa Ribeiro
Sujeito social”