O Abismo entre a Toga, o Plenário e a Rua: a reflexão de Gilberto Luna sobre o Brasil contemporâneo

Eu conheço Gilberto Luna há muito tempo. Sempre desfrutei da sua amizade e sempre nos relacionamos muito bem, fruto de um conhecimento que vem de lá de trás, a partir do meu irmão, Izalviro, o Massa Bruta, que Deus já levou. Massa era um irmão de Gilberto e, evidentemente, nas minhas companhias com meu querido irmão, fui adquirindo também essas convivências sadias que preservo até hoje.
Gilberto é uma pessoa de fino trato, de visão consciente, integrante de uma família tradicional aqui da nossa cidade, comerciantes e empresários. Ele mantém relações estreitas com o Sudoeste do estado, com Itapetinga em especial, terra natal de sua querida esposa, Amélia. Sempre vi Gilberto como um empresário progressista, visionário, e faço questão de lembrar que foi meu apoiador nos primeiros carnavais aqui em Vitória da Conquista.
Além disso, foi Gilberto quem nos apoiou por meio da empresa Ecosane, construtora da qual era sócio-proprietário, juntamente com Zé Clínio Almeida. Foi a Ecosane que nos levou a Salvador para disputar e conquistar o título do primeiro torneio de vôlei de praia da Bahia.
Depois, seguimos também para Salvador, no Farol, para disputar o Torneio de Clubes Campeões da Bahia, de onde trouxemos títulos importantes. Gilberto é uma pessoa politizada, humanista, consciente, equilibrada em todos os sentidos.
Por isso, faço questão de trazer mais um texto belíssimo de sua autoria, que passo agora para a leitura e reflexão de vocês.
Gilberto, você continua sendo a mesma pessoa que conheci lá atrás, nos anos setenta. Um grande abraço para você e para sua família. Que possamos ver Vitória da Conquista cada vez mais desenvolvida, pois sei que é exatamente isso que você deseja.
Segue o texto do nosso amigo:
“O Abismo entre a Toga, o Plenário e a Rua: Lições da História para o Brasil Contemporâneo
Quando as instituições — Executivo, Legislativo e Judiciário — passam a agir em causa própria, elas perdem sua função primordial de representar a vontade popular, tornando-se “corpos estranhos” à nação. Esse fenômeno marca a falência do “Contrato Social” de Jean-Jacques Rousseau. Segundo o filósofo, o povo detém o direito inalienável de retomar o poder quando o Estado deixa de servir ao interesse comum para servir a si mesmo.
O Brasil de 2025 parece viver o fenômeno do “Estado dentro do Estado”. Guardadas as proporções temporais, o cenário remete à França de 1789: uma nobreza e um clero que viviam em uma realidade paralela de privilégios e impunidade, sustentados por uma população exausta. Hoje, o país divide-se entre uma elite burocrática-jurídica e os pagadores de impostos. Historicamente, foi essa desconexão, somada à corrupção sistêmica, que levou à queda da monarquia absolutista francesa.
A história recente reforça que o ponto de saturação social atravessa fronteiras e gerações. A Primavera Árabe (2010-2011)mostrou que o acúmulo de autoritarismo, violência policial e corrupção pode derrubar regimes que pareciam inabaláveis. Mais recentemente, em 2025, vimos os protestos no Nepal, onde a “Geração Z” — movida pela insatisfação extrema com o sistema político — ocupou a Suprema Corte e o Parlamento, forçando a renúncia do gabinete ministerial.
No Brasil atual, assistimos à perda da sacralidade das instituições. Episódios recentes de suposto lobby envolvendo ministros de cortes superiores em favor de interesses privados, somados à apreensão de vultosas quantias em espécie na residência de parlamentares, aprofundam a crise de credibilidade. Quando um magistrado julga causas ligadas a interesses pessoais ou um representante do povo é flagrado em atos de improbidade, eles “rasgam” a Constituição de 1988. A revolta latente na sociedade não é contra as instituições em si, mas contra a degradação promovida por aqueles que as ocupam.
O despertar da consciência popular, impulsionado pela rapidez das redes sociais e pela exposição de escândalos na imprensa, atua como o pavio de uma indignação crescente. O país aproxima-se de um ponto de saturação onde a paz social é ameaçada não pela militância, mas pela ausência de justiça equânime.
O Brasil encontra-se em uma encruzilhada histórica. Ou as instituições iniciam um processo rigoroso de autorreforma e punição de seus próprios desvios, ou a história ensina que o povo encontrará meios — dentro ou fora dos ritos tradicionais — de restabelecer o equilíbrio. Como bem alertou Thomas Jefferson: “Quando o governo teme o povo, há liberdade; quando o povo teme o governo, há tirania”. Governos sem sustentação moral são, afinal, castelos de cartas.
Gilberto F. Luna”
















Há tempos vejo uma análise tao sensata e pontual, além claro, de ser muito propicia e bem vinda para a queda de braço diária entre os poderes e a decadência de um povo alienado em suas percepções de direita x esquerda.
Seu Gilberto é um homem sábio. De análise fria e contundente.
Estamos com um pais, parafraseando um analfabeto importante, “Nunca d’antes nessa história recente, mergulhado em tantos impostos, tantas dívidas, com estatais lesadas, e um povo tao subserviente,talvez pelo analfabetismo funcional como agora.
Uma justiça que deveria ser o fiel da balança, cooptada; poderes que medem forças entre si; corruptos em cargos decisivos, falta mais o quê?
Nao precisa nem lembrar do desmanche das FFAA,uma vergonha perante o mundo.
A consciência popular advém do estômago,a administração romana do pão e circo logo para de funcionar, logo o castelo de cartas, no primeiro sopro, que nem precisa ser um vendaval. cai.Recorro, pois aos seiscentismo da obra satirica gregoriana em seus epílogo, hoje, mais que nunca serve para todo esse país:
Que falta nesta cidade?…VERDADE
Que mais por sua honra…DESONRA
Falta mais que se lhe ponha ..
VERGONHA (…)
E que a justiça resguarda …BASTARDA
É grátis, distribuída …VENDIDA
Que tem a que tantos assusta? …INJUSTA
(…)
A câmara não acode? …NÃO PODE
Pois não tem todo o poder? …NÃO QUER
Ao Brasil aconteceu
O que a um doente acontece:
Cai da cama e o mal cresce
Baixou, subiu. Morreu.
Triste fim de um país tao rico, brilhante e mau governado