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Por Marco Jardim

Saí da pupa da Pedra do Sal e desci para cortar as pontas do cabelo, mostrar o rosto inteiro, as mechas douradas jogadas pra trás. Extradição.

Um jovem casal olha na direção da esquina, atravessando a estrada do instante. Encenação.

Abandono roupas usadas e visto outros valores na madrugada da praça, tal qual rei nu. Destituição.

Passa uma garota de saia curta e a gente até esquece os mesmos lugares crus. Localização.

Que a vida se demore um pouco mais nesta vulva, que deixe o tempo passar num gozo profundo, que aguarde o fechar dos olhos do sol no descanso atrás do mar. Revelação.

O tempo é de travessia na Lapinha, na vila, na nação, no infinito que liga o porto até depois do oceano. Imensidão.

Que mundo azul este do recomeço. De pele tostada, short jeans desbotado, alma desfiada, ainda boa de usar. Coração.

Mundo livre assim sei que há. E ser livre no verão é sibilar a canção do folhetim. Expressão.

É o centro de uma estação incrustada, calada no tempo da areia. É ver, ao longe, trens, aviões e nuvens passando. E os quadris dela acompanhando. Manifestação.

Ainda dá pra ver a lua cheia a olho nu, Júpiter e Saturno se alinhando. Artistas, malucos-beleza, poetas em busca de encontros. Colisão.

Que mundo resistente este. O da força da boca em não ceder à falta de ar. Respiração.

Estou contando sobre aqueles lábios e aquela mão que acena e se despede de alguém, como se não houvesse porvir. Direção.

Sobre comer o sabor predileto, abraçar o tempo incerto, batizar estrelas com o próprio nome, explicar o mundo que habitamos numa partícula. Fração.

Mundo de símbolos. De eternidade enchendo a graça de esperanças tardias.

Mundo de alarde. Confusão.

Mundo bom de chupar picolé Capelinha no Solar do Unhão. Abrir as janelas antigas e ver se minhas irmãs já se foram, meu filho se foi, minha vida, um vão.

Como é doce o beijo que me faz chorar contigo e que levo escondido comigo pra depois aliviar. Declaração.

Se eu dominasse esse mundo, cada dia dele seria o primeiro do verão. E a manhã nasceria repentina, seria o sonho um belo e infindável lugar. Tradução.

Em cada céu inventado, uma fábula, um pôr-do-sol. E garças brancas do amanhecer que passariam rufando o ar sem descuidos e sem árvores alheias. Tradição.

Um mundo de gentes, plantas regadas, rosas adoradas. Dias de sol no janeiro do tempo moço, da expressão certa, a bandeira aberta, a festa interior.

Libertação.