Meus amigos, minhas amigas, caros leitores do Blog do Agito Geral, eu não poderia, de forma alguma, deixar de publicar esta homenagem, mesmo hoje sendo dia 11 de agosto e o Dia dos Pais tendo sido comemorado no último domingo.

Recebi o texto somente ontem, segunda-feira, e, por essa razão, não foi possível publicá-lo na data exata. Mas existem escritos que são atemporais. Não pertencem apenas a um domingo, a uma comemoração ou a uma determinada ocasião. São palavras que permanecem para o resto da vida.

E este texto, sem dúvida alguma, é um deles.

Um dos filhos do nosso querido historiador, memorialista e professor Durval Menezes escreveu uma homenagem ao pai que toca profundamente todos nós que temos ou tivemos a felicidade de conviver com essa figura tão importante em nossas vidas.

O texto é maravilhoso. Leiam e vejam se não estamos diante de palavras que Durval certamente guardará para sempre, não apenas pelo que dizem, mas principalmente por terem sido escritas por um filho que reconhece a presença, a dedicação e o exemplo do pai ao longo da vida.

E Durval é merecedor desse carinho. Pela criação dos filhos, pela dedicação à família e pela maneira como construiu sua trajetória, certamente esta não é a primeira demonstração de amor que recebe da sua prole e também não será a última.

Mas cada homenagem tem o seu valor. Cada palavra de um filho dirigida a um pai carrega uma história que somente aquela família conhece por inteiro.

Por isso, mesmo depois do Dia dos Pais, fazemos questão de publicar.

Existem homenagens que não têm prazo de validade. Esta é uma delas.

Leiam, por favor, o que ficou escrito e registrado para o resto da vida.

Painho,

Neste Dia dos Pais, mais do que lhe dar parabéns, eu queria aproveitar para lhe dizer algumas coisas que talvez nunca tenha conseguido dizer diretamente.

Quando olho para a sua vida, uma das primeiras coisas de que me lembro é do quanto você trabalhou. Dava aula pela manhã, à tarde e à noite e, nos finais de semana, ainda ia para a fazenda. Mas, apesar de trabalhar tanto, nunca foi um pai ausente. Você sempre esteve presente.

E havia uma coisa sobre a qual você nunca economizava: nossa educação.

Lembro-me de uma frase que repetiu muitas vezes: há pessoas que têm carro de luxo na garagem, mas não têm coragem de gastar com a educação dos filhos. Nós sempre tivemos um bom carro, uma vida confortável, mas você nunca colocou aparência acima daquilo que realmente importava.

Para o segundo tênis, para a roupa de marca ou para uma vaidade, não havia dinheiro. Para um livro, um curso ou qualquer coisa que pudesse melhorar nossa formação, sempre havia.

Hoje entendo perfeitamente a diferença.

Você formou seus filhos, pagou mais de uma faculdade, especializações, mestrados, doutorados e continuou fazendo isso pelos netos. Deu oportunidades que poucos pais conseguem dar.

E talvez eu seja um dos exemplos mais curiosos disso tudo.

Eu fui um péssimo aluno. Ficava de recuperação, repeti, não concluí o ensino médio pelo caminho convencional e precisei fazer supletivo. Houve uma época em que você, preocupado comigo, chegou a me incentivar a fazer um curso técnico, porque provavelmente imaginava que eu nem chegaria à universidade.

Pois aquele filho deu um pouco de trabalho…

Mas entrou em Odontologia, formou-se, fez especialização e mestrado em uma Universidade Federal, tornou-se doutor pela Unicamp e hoje é professor de graduação, mestrado e doutorado em uma renomada Universidade pública.

E há algo especialmente bonito nisso: eu me tornei professor como meu pai.

Você foi professor de mainha. Foi meu professor. Foi professor dos meus irmãos. Passou uma vida ensinando. E, de alguma maneira, essa história continua através de mim.

Por isso, cada vez mais percebo que minhas conquistas não são somente minhas. Em cada uma delas existe muito do seu trabalho, das suas renúncias, da sua confiança e das oportunidades que você me deu.

Mas existe outra coisa que eu gostaria muito que você soubesse.

Painho, aos 84 anos, talvez esteja na hora de olhar um pouco menos para aquilo que deu errado e muito mais para tudo aquilo que vocês fizeram dar certo.

Vocês construíram um patrimônio importante, mas construíram algo muito maior do que bens.

Construíram uma família. Formaram seus filhos. Ajudaram e continuam ajudando a criar netos. Deram estudo, casa, carro, saúde, segurança e infinitas oportunidades para que cada um pudesse construir o seu caminho. Socorreram e ainda socorrem seus filhos quando precisam. Continuaram sendo pai e mãe muito depois de qualquer “obrigação” ter terminado.

E fizeram tudo isso sem abrir mão de uma coisa que sempre nos ensinaram: honestidade e retidão acima de tudo.

Nós sabemos que você poderia ter construído muito mais patrimônio material se tivesse aceitado caminhos e oportunidades que não eram corretos. Não aceitou. Preferiu construir tudo da maneira certa. E isso também é uma das maiores heranças que deixou para nós.

Por isso, há algo que eu gostaria muito que você guardasse no coração: não carregue como sua a responsabilidade pelas escolhas que nós, filhos e netos, fizemos.

Eu, mais do que nunca, tendo meus filhos com 7 e 11 anos, comecei a entender isso. Pai pode ensinar, orientar, proteger, dar exemplo e oferecer todas as oportunidades. Mas chega um momento em que cada filho precisa escolher o próprio caminho, e as escolhas que ele fará já não estão mais sob o nosso controle.

E, naquilo que dependia de você e de mainha, oportunidades não faltaram. Muito pelo contrário: tenho certeza de que vocês fizeram até mais do que lhes cabia fazer.

Sei que seu amor é tão grande que você continua tentando resolver a vida de todos e carregando problemas que, muitas vezes, nem deveriam mais estar sobre os seus ombros.

Mas eu gostaria que, nesta fase da vida, você conseguisse enxergar também os bons resultados de tudo o que plantou.

Porque há muita coisa boa ao seu redor. Há muito mais motivo para orgulho e satisfação do que talvez você consiga perceber no dia a dia.

Você merece acordar e dormir sabendo que fez a sua parte. E fez muito bem feita. Merece ser feliz e aproveitar aquilo que construiu, mesmo que continuem existindo problemas ao redor.

Aliás, durante toda a nossa infância você dizia que cada um deveria construir a própria vida, porque o patrimônio que você estava construindo seria para você e mainha viajarem pelo mundo quando envelhecessem.

No final, vocês fizeram quase o contrário.

Continuaram cuidando dos filhos, dos netos, resolvendo problemas e até se desfazendo de parte daquilo que construíram para ajudar a família.

E talvez uma das coisas que eu ainda gostaria muito de ver seja justamente aquela promessa antiga se realizar um pouco: ver você e mainha aproveitando mais a vida, viajando, conhecendo lugares e usando também para vocês aquilo que passaram uma vida inteira construindo. Vocês merecem isso.

Hoje eu percebo, inclusive, o tamanho da vitória que você alcançou como pai porque existe uma preocupação que ocupa muito a minha cabeça: conseguir proporcionar aos meus filhos as mesmas condições de educação e as mesmas oportunidades que você proporcionou a nós.

Não sei quais caminhos eles escolherão. Isso será decisão deles. Mas quero poder chegar à sua idade sabendo que fiz a minha parte e que coloquei à disposição deles todas as ferramentas para que pudessem vencer na vida.

E nisso, painho, você pode bater no peito e dizer: eu consegui.

Você fez a sua parte.

Seus filhos tiveram oportunidades. Estudaram. Formaram-se. Tiveram condições de construir suas vidas. E aquilo que você nos ensinou chegou à geração seguinte, porque hoje uma das minhas maiores preocupações como pai é justamente conseguir fazer pelos meus filhos aquilo que você fez por nós.

Isso, para mim, diz muito sobre o tamanho da sua vitória.

E quero que saiba também que não precisa resolver tudo sozinho. Sei que tenho minha vida, meu trabalho, meus filhos e moro longe, mas nunca deixe de dividir alguma coisa comigo por achar que vai me ocupar ou me dar trabalho. Estarei sempre disponível para pensar junto com você, ajudá-lo nas decisões e tentar tirar um pouco do peso que vocês carregaram por todos estes anos.

Talvez essa seja também uma maneira de o filho começar a cuidar daqueles que passaram a vida inteira cuidando de todos.

Durante muitos anos, acredito que você teve dificuldade para dizer “eu te amo”, abraçar ou beijar. Hoje faz isso muito mais — meus filhos que o digam. Mas eu entendi que você passou a vida inteira dizendo que nos amava, apenas dizia de outra forma.

Dizia trabalhando.

Dizia ensinando.

Dizia estando presente.

Dizia pagando um livro.

Dizia dando uma oportunidade.

Dizia socorrendo um filho.

Dizia cuidando de um neto.

Dizia se preocupando com o nosso amanhã.

A sua forma de amar sempre foi cuidar.

Hoje, aos 84 anos, você continua escrevendo, pensando, cuidando e tentando organizar o futuro de todo mundo.

Mas espero que também consiga parar um pouco, olhar para tudo o que construiu e enxergar os bons frutos da sua própria história.

Eu certamente enxergo.

Tenho orgulho do professor, do escritor, do homem correto, do pai, do avô e da história que você construiu.

E, se hoje sou professor, pai, profissional e o homem que me tornei, há muito de você em mim.

Tenho muito orgulho de ser seu filho.

Obrigado por tudo, painho.

Eu te amo.

Feliz Dia dos Pais!”