WebtivaHOSTING // webtiva.com . Webdesign da Bahia
cmvc pmvc cicatriclin vittasaude HSVP hospital sao vicente santa casa


outubro 2019
D S T Q Q S S
 12345
6789101112
13141516171819
20212223242526
2728293031  
blog do marcelo

labo

Jumentos na terra do Jurupari

Oscar Barreto

*Por Oscar Barreto

“Vamos dar valor a quem trabalha

Vamos dar valor a quem da duro

O burro é quem merece a medalha

O Burro é quem trabalha, o Burro é quem dá Duro”.

Certa feita em uma manhã muito fria no interior da Bahia, eu com meus seis ou sete anos de vida, ouvi essa letra em uma cantiga, e a composição nunca mais abandonou a minha memória. Talvez por ela ter motivado por um instante na cidade de Maracás a parar e olhar para um animal estancado na calçada, sendo preparado com um arreio para mais uma jornada de carga e entender que ali não estava um objeto e sim um ser vivo.

Aquele mesmo animal, um jumento, dias antes nos levou para um passeio, eu, meus dois irmãos e mais quatro primos que nos atulhavam montados todos juntos ao dorso sem cela para passearmos pela estrada de barro em altas algazarras.

Ali diante ao animal quedado, a música teve um efeito introspectivo, despertando valores prematuros que o preparo da lógica inocente até então era desprovida de objeções. Como na letra daquela cantilena sertaneja, aquele animal dava duro e trabalhava para nosso ilimitado prazer. Mas pensei, a nossa diversão não era trabalho e se fosse trabalho todos têm direito a descansar e se é trabalho, o que aquele animal recebia em troca por aqueles dias de labutas ininterruptas?

E quando o animal retrucou em sair dali depois de um tranco nas rédeas dado por um sisudo vaqueiro que trabalhava para meu tio, imediatamente o repreendeu com uma voz virilmente repressora e mais conclusões iam sendo processadas e concluir que aquele era um bicho que parecia não ter direito a exercer a sua autonomia.

Onde estará a família dele que eu não vi nos vinte dias de férias? Ele não deve ter casa, não deve ter irmãos para brincar, não deve ter uma mãe para consola-lo… Recordo-me do meu atrevimento imaculado de ter perguntado ao vaqueiro, que tragava um cigarro de palha, antes de este montar no animal “Senhor, ele sente dor?”, o matuto, sem olhar para mim e só veio um riso curto, mas não deu a mínima para o menino e seguiu o seu destino.

Tempos depois já adulto em uma visita a trabalho a cidade de Sento Sé, outra cena fez que outra canção retornasse a minha mente, na estrofe final da composição de Luiz Gonzaga, “Em nome do sertão, acompanhe o seu vigário, nessa eterna gratidão, Receba nossa homenagem ao jumento nosso irmão”.

Vendo rapidamente aquela drástica cena, eu solicitei parar o Jeep, pois tinha uma jumenta esmarrida, deitada embaixo de uma árvore, possivelmente há quase dois dias, segundo a informação convicta do motorista, o que me deixou ainda mais perplexo!

Desci do carro e decidir pedi ajuda, era muito cedo e com muito pouco apoio em volta, andei ate um casebre próximo e um homem de expressão envelhecida, com chapéu de palha, sandália de couro e segurando uma caneca de ferro desbotada me atendeu. Conversamos e o convenci a ajudar aquela jumenta. Evidente que paguei a ele para resgata-la e cuidando-a até a nossa volta da visita para conhecer área da intervenção, quando tentaria ajuda-la.

No retorno a vila já no final de tarde, vi que a Jumenta ainda estava ainda lá, agora com o corpo morto, que segundo o morador contatado, não houve o que fazer e ela faleceu ali mesmo e o homem de chapéu de palha completou contando o que precedeu a aquela situação. Segundo a narrativa, ela foi morta por um ataque de onça, pois os jumentos foram abandonados ao tempo, após a proibição de serem animais de carga, atraindo os felinos para se aproximaram de muitos vilarejos.

Mas havia algo ainda mais assustador que não tinha percebido até então, que era a presença de um filhote ao lado da fenecida mãe. Possivelmente ela tenha sido golpeada de morte para proteger a cria e morrer dias depois decorrentes dos ferimentos e só restou a adoção daquele filhote, a qual encaminho remessas para custeio do pobre órfão.

Contudo diante da frustrada assistência eu me perguntei que forma de agradecer a esse animal símbolo do sertão, o jumento nosso irmão!

Em 2013, um senso esclarece que noventa por cento dos jumentos são Nordestinos e existem cerca de novecentos mil Jumentos vagando pelo nordeste, trocados agora por veículos motorizados.

Uma notícia que deveria ser considerada excelente para o fim da exploração do animal, mas o que se viu não foi bem isso.

No ano de 2016, o Governo do Estado da Bahia recolheu e abateu 300 animais que estavam circulando pelas ruas a procura de alimentos.

A grave falta de assistência e um plano de manejo, levaram o animal ao abandono e trouxe a presença  gananciosa de frigoríficos que começaram a assolar o animal e se agravou quando a falta de noção de vida do governador baiano, focou nas cifras Chinesas e decidiu-se leva-los empilhados em cargueiros para o oriente como objetos qualquer, além das desastrosas mortes noticiadas, quando os jumentos  desnutridos, irresponsavelmente transportados para os abatedouros, sem a mínima infraestrutura e principalmente sem ter o que comer, causando a morte de centenas de jumentos em Itapetinga e de duzentos jumentos na lendária Canudos.

A vida que a sociedade julga que não vale nada a não ser ter números econômicos vai perder a batalha da sua sobrevivência mais uma vez, pois agora depois de comemorar a justa vitória da vida, na incoerente peleja da “justiça” com a liminar concedida para a proibição do abate solicitada pela União Defensora dos Animais Bicho Feliz, o Fórum Nacional de Proteção e Defesa Animal, a SOS Animais de Rua, a Rede de Mobilização pela Causa Animal e a Frente Nacional de Defesa dos Jumentos, foi revogada  pelo TRF, que alega que a liminar fere a economia publica, que impossibilitava a comercialização de vidas.

O campo mais que impotente da justiça (Desculpe a redundância Nietzschiana) se arvora no debate do campo irrefutável do “direito” a vida e é fato que essa discrepância, faz que as pessoas e a sociedade não percebam onde reside a indiferença em relação a sua carência existencial.

Talvez seja até justa em tê-la, pois essas pessoas se alienam unicamente na sua egoísta individualidade ou no raio limitante da sua família e a vida do outro não lhe diz respeito, ainda mais vidas onde soberba social, não consegue enxergar.

Quando se tenta apelar, lutando pela vida de Jumentos inocentes, primeiro vem à resposta Antropocentrista e desconectada de perguntar quantos Brasileiros estão morrendo de fome (creio que entendem que o jumento não seja Brasileiro) e se insiste na súplica, a correlação da morte do outro se faz afinal presente, no caso desafortunado do boi no matadouro, ou da galinha na granja, no peixe agonizando na rede, por isso, acharam uma justificativa qualquer para o seu abúlico silêncio ou para atestar a exploração que há de advir.

Ainda na alçada das analogias, diferente do que ocorreu nos EUA após a o fim da Guerra da Secessão, com a vitória do Norte sobre o Sul que implicou na emancipação dos escravos, quando estes foram amparados por uma lei, que possibilitou assistência e formas de inserção do negro na sociedade, o negro no Brasil não teve a mesma sorte no desastroso Reinado do Dom Pedro II e penso na situação absurda dos escravos Brasileiros sem qualquer tipo de indenização por anos de trabalhos forçados, vítimas de todo tipo de preconceito, onde muitos ex-escravos tiveram de permanecer nas fazendas em que trabalhavam, vendendo seu trabalho em troca da sua sobrevivência. E aos negros que migraram para as cidades, só restaram os subempregos e muitas ex-escravas se tornaram sem opção, prostitutas, sendo ainda os novos alforriados pelo Reino, que até então não moravam nas ruas passaram a residi-las e quando muito, foram habitar em míseros cortiços.

Não estou confessando de forma alguma que a abolição da escravatura foi péssima para Negro, pelo contrário, o negro pela possibilidade da sua  controversa liberdade, teve a oportunidade de lutar por si mesmo e conquistar o seu espaço, apesar de infelizmente ter muito ainda que lutar,  mas o que ocorreu em 1888  foi desastroso e cruel da forma que sucedeu.

Aos Jumentos, que com todas as suas qualidades intrínseca na sua fisiologia específica da família Equídea e de seres Sencientes, não tem o grau da sapiência humana, que na baixeza kafkiana de sua fidúcia, decide seu destino de conceder a sua “liberdade” e transforma-la em morte.

Não é justo obviamente o retorno aos maus tratos a esses pobres animais, pelo abuso que eles foram tão duramente submetidos desde o século XVI, mas sentenciar o jumento qual será o seu destino, não é uma decisão que deveria ser matéria do palanque da Moral e sim no proscênio da Ética.

Deliberar pela volta da escravidão e exploração do animal ou pela liberdade que o leve a morte, gera uma pergunta: Quem foi Caim para Abel, Brutus para Cesar, Judas para Cristo?  E que são os Humanos para os Jumentos? A resposta é patente e nos outorgam com o lícito titulo dado na língua Tupi: “Jurupari*”.

1 resposta para “Jumentos na terra do Jurupari”

Deixe seu comentário

alessandro tibo


WebtivaHOSTING // webtiva.com . Webdesign da Bahia