O Cristo de Mário Cravo: a obra que assustou, dividiu opiniões e hoje é símbolo de Vitória da Conquista

Meu caro Fábio Sena, fico sempre muito feliz quando você me aborda para conversarmos sobre o Cristo de Mário Cravo, edificado na Serra do Piripiri por iniciativa de um dos maiores líderes da nossa história, José Pedral Sampaio, que hoje é homenageado com as celebrações do seu centenário de nascimento.
Pedral foi um líder inconteste, apaixonado por Vitória da Conquista. Sempre quis ver a cidade no alto, projetada, respeitada. Para isso, contou também com a sensibilidade e a boa vontade do então prefeito Raul Ferraz, seu companheiro de política, de amizade e de juventude. Dois homens que pensaram Conquista de forma generosa, ampla e visionária.
Pedral carregava essa ideia há muito tempo. Raul, como prefeito, acolheu o projeto. E assim foi erguido o Cristo. Mas o impacto foi imediato e, para muitos, assustador. A imagem não correspondia ao Cristo “tradicional” ao qual as pessoas estavam acostumadas: cabelos longos, traços suaves, olhos serenos. O Cristo de Mário Cravo trazia sofrimento explícito, traços fortes, expressão dura. Para muitos, causava medo. Para outros, verdadeiro pavor.
Pedral morava ali perto, na Praça Sá Barreto, na esquina da antiga Rua do Cruzeiro, uma via marcada pela religiosidade popular. No alto da serra havia uma cruz, destino de penitência dos moradores, que subiam em sacrifício para pedir a clemência dos céus, especialmente a chuva para o sertão. Foi dessa vivência que nasceu o sonho de erguer o Cristo do outro lado da serra.
Quando a obra foi instalada, a reação foi intensa. As pessoas subiam para ver aquela figura que lhes parecia estranha. Houve rejeição, temor e até episódios de apedrejamento da imagem. Missas no local eram impensáveis. Católicos fervorosos não aceitavam a ideia. Muitos não compreendiam o simbolismo profundo daquela obra, que representava não apenas a fé cristã, mas também o sofrimento do povo nordestino.
Com o tempo, Pedral explicava, insistia, defendia. O Cristo não era apenas religioso, era cultural, artístico, identitário. Segundo informações da época, tratava-se do maior Cristo crucificado do mundo. Mesmo assim, levou anos até ser aceito.
Quando fui vereador e líder de Pedral na Câmara, propus algo que poderia ajudar a cidade a compreender melhor o espaço: a criação de uma área de convivência no entorno do Cristo. Um local para contemplação, encontro e permanência. Sugeri a instalação de um restaurante panorâmico, todo em vidro, que permitiria à população frequentar o local e se apropriar daquele símbolo.
Pedral aceitou a ideia. O empresário Walmir, da Brahma e da Disvab, demonstrou interesse. Chegamos a conversar sobre uma concessão com isenção de impostos por vinte anos. Tudo estava encaminhado. Walmir tinha estrutura, era um dos maiores distribuidores da região, e o projeto avançava.
Até que um dia Pedral me chamou e pediu para suspender tudo. A notícia havia vazado, e começaram os pedidos para barracas, comércio informal, feira livre. Pedral temeu que o espaço se descaracterizasse e decidiu interromper o projeto.
E assim, ficamos sem o restaurante no alto do Cristo. Até hoje, muitos lamentam. Talvez ali tivesse se formado um grande polo de convivência e turismo.
Fica esse registro histórico e curioso. Um Cristo que fez muita gente chorar. Uns choravam pedindo perdão. Outros choravam porque ele estava ali. Durante muito tempo, foi chamado de “o Cristo mais feio do mundo” pelos conquistenses. Hoje, é um dos maiores símbolos da cidade, um cartão-postal respeitado, visitado e finalmente compreendido.
O tempo, como sempre, colocou tudo no seu devido lugar.













