Herzem

“Ninguém vira anjo com a morte. Nem há anjos sob à Terra. Não é esta a questão. Herzem Gusmão era parte indissolúvel da vida da cidade. Nos acostumamos por muito tempo ligar o rádio ao meio-dia na Resenha Geral e ouvir na abertura do programa, como vinheta, uma declaração de amor pela cidade.  A sua voz era a voz da cidade. E ele era capaz de descer aos detalhes. Herzem foi, por exemplo,  o grande incentivador do Clube Conquistense de Xadrez. Na década de 90 quando o Clube funcionava nas dependências do Centro de Cultura, eu presenciei algo inédito no Brasil, protagonizado por Herzem: A primeira transmissão ao vivo de um Torneio de …. Xadrez! Ele sempre foi um entusiasta do Xadrez nas Escolas. Notem que eu citei uma atividade digamos desimportante e que foi objeto da preocupação dele e de conversas que ele já teve comigo sobre este tema absolutamente transversal. O seu amor pela cidade era visível. E ele lutou muito para conseguir se tornar prefeito. E quando o conseguiu imprimiu a sua marca na cidade. Esta se tornou geograficamente mais bela. Ganhou jardins e contornos de cidade com qualidade de vida admirável em termos de país. Ele asfaltou bairros inteiros como o Miro Cairo ignorado por todos os prefeitos que lhes antecederam. Foi objeto de críticas como seria qualquer um que administrasse um município do tamanho de Conquista. Mas segundo algumas percepções de pessoas ligadas à Herzem, ele faria neste seu segundo mandato uma administração voltada para as pessoas socialmente mais vulneráveis. Neste momento solene, de luto, pois perdemos literalmente a alma da cidade representada na sua pessoa, cabe a suspensão dos sentimentos mesquinhos e cínicos. A cidade está triste. Perdeu talvez o seu maior defensor. A sensação que eu tenho é que a cidade, além das pessoas, fisicamente chora através desta perda. Talvez o rictus do sofrimento da estátua de Mário Cravo represente melhor esta perda. A cidade de certa forma ficou órfã.