O Brasil vive uma crise sem precedentes na história do Supremo. Não podemos subestimar o que está acontecendo

Algumas coisas que jamais imaginávamos presenciar estão, perigosamente, começando a parecer normais para todos nós. E isso me preocupa.
Venho pensando muito sobre o que temos vivido nos últimos anos. A pandemia, por exemplo, foi um acontecimento que me deixou profundamente inquieto. Jamais imaginei que viveria um momento tão difícil. Olhar para os filhos, para a esposa, para os amigos e perceber que todos nós estávamos, de alguma maneira, reféns de um vírus que ninguém conseguia enxergar. O mundo parou.
Aqui mesmo, em Vitória da Conquista, vimos pessoas amigas e conhecidas partirem. Famílias sofreram. Histórias foram interrompidas. Não quero entrar aqui no mérito de tudo o que aconteceu naquele período. Faço apenas um registro histórico de uma experiência que marcou profundamente a nossa geração.
Passamos pela pandemia e agora assistimos a guerras pipocando pelo mundo. E nós vamos olhando, acompanhando, muitas vezes como se tudo isso estivesse se incorporando naturalmente ao nosso cotidiano.
Vivemos em um mundo cada vez mais complexo. E uma das coisas que mais me preocupam é olhar para os jovens e perceber em muitos deles a dificuldade de enxergar um horizonte seguro à frente. Há uma descrença nas instituições, na política e até no próprio futuro.
No Brasil, sucessivos escândalos e denúncias envolvendo a vida pública contribuem ainda mais para esse ambiente de desconfiança. A classe política, justamente aquela escolhida para nos representar, enfrenta um enorme descrédito perante parcela significativa da população.
Mas existe algo que, neste momento, merece uma reflexão ainda mais profunda: o que está acontecendo em torno do Supremo Tribunal Federal. Não podemos tratar isso como algo normal.
As divergências, os questionamentos e as críticas envolvendo a mais alta Corte do país ganharam uma dimensão que não pode ser simplesmente ignorada. E quando essas divergências alcançam também o ambiente interno das próprias instituições, o sinal de alerta precisa ser ainda maior.
Ao mesmo tempo, o Brasil está profundamente polarizado. De um lado, pessoas convencidas de que determinados ministros estão certos. Do outro, aqueles que entendem exatamente o contrário. E, no meio dessa disputa, muitas vezes desaparece aquilo que deveria ser o mais importante: a preservação das instituições, da Constituição e do equilíbrio entre os Poderes.
Não podemos transformar o Supremo em torcida organizada. Nem a favor, nem contra.
O Supremo Tribunal Federal é uma instituição fundamental da República. Seus ministros podem e devem ter suas decisões analisadas, debatidas e criticadas dentro dos limites democráticos. Da mesma maneira, a independência do Judiciário precisa ser respeitada.
O que não podemos é aceitar como normal uma situação em que a sociedade passe a enxergar as instituições apenas pelas lentes da polarização político-partidária. Não é possível assistir a tudo isso de braços cruzados.
É preciso que juristas, professores, analistas políticos, parlamentares, jornalistas e, sobretudo, a própria sociedade brasileira discutam com serenidade e responsabilidade o momento que estamos atravessando.
Democracia não significa silêncio. Pelo contrário. Democracia pressupõe questionamento, fiscalização, liberdade de expressão, respeito às divergências e, principalmente, respeito às regras.
Não podemos subestimar o que está acontecendo. Porque instituições fortes não são aquelas que estão acima das críticas. São aquelas que conseguem conviver com elas, responder institucionalmente e continuar merecendo a confiança da sociedade.
O Brasil já atravessou momentos muito difíceis e conseguiu seguir em frente. Somos uma nação gigantesca, rica e plural. Mas exatamente por isso não podemos permitir que a indiferença tome conta de nós.
O silêncio diante de uma crise institucional nunca pode parecer normal. E talvez o maior perigo seja justamente este: começarmos a achar normal aquilo que deveria nos preocupar.














