Em órbita
Por Marco Antonio Jardim
Planejo ir a Júpiter.
Ceder lugar ao que é autêntico e transcendente.
Olho pro céu e já estou em órbita, sem limite aparente.
Lavei o rosto, enxuguei com a barra do casaco amarelo e tirei já a barba pra sorrir meu rosto angular.
Pra viagem, deram-me uma caixa de palheiro, um cheiro de figo e o verbo amar.
Sei que as criaturas de lá são mais inteiras que as constelações.
Não são repetições interrompidas dos próprios nomes, ressoados nas más inclinações.
A vida em Júpiter segue por si mesma, suave.
Os abusos são coibidos, os direitos são assegurados.
Não há aplausos para instintos servis, nem rostos pálidos, olheiras profundas, cabelos desgrenhados.
Dizem que lá o dia avança saindo da noite, numa vida que estua além da imensidão.
É um orbe mágico, onde as leis beiram a perfeição.
Meus pertences estão já arrematados.
A pele com o perfume do futuro, o verso ereto, os pensamentos alinhados.
Sei que vou encontrar gente de bem, idealista.
E não esse longo descanso pouco realista do lado de cá.
Júpiter é um astro luminoso, abundante.
Não há títeres por lá, só o sol, protetor irradiante.
Estou pensando até em levar os discos de Gal.
Os abraços de longos minutos, a preparação para a imortalidade azul, espiritual.
Adeus Terra, não está legal viver aqui neste perecível inverno.
Estou indo a Júpiter ser rico de gás de sabor eterno.















