{"id":56857,"date":"2026-05-29T10:35:00","date_gmt":"2026-05-29T13:35:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogdomassinha.com.br\/v1\/?p=56857"},"modified":"2026-05-29T10:35:00","modified_gmt":"2026-05-29T13:35:00","slug":"a-supressao-da-mentira-e-a-lucidez-de-um-heroi-absurdo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogdomassinha.com.br\/v1\/2026\/05\/29\/a-supressao-da-mentira-e-a-lucidez-de-um-heroi-absurdo\/","title":{"rendered":"A Supress\u00e3o da Mentira e a Lucidez de um Her\u00f3i Absurdo"},"content":{"rendered":"<p class=\"p1\"><strong><span class=\"s1\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignright size-medium wp-image-56870\" src=\"https:\/\/www.blogdomassinha.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/IMG_7718-300x200.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"200\" srcset=\"https:\/\/www.blogdomassinha.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/IMG_7718-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.blogdomassinha.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/IMG_7718.jpg 320w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><br \/>\nPor Luiz Cl\u00e1udio Guimar\u00e3es<\/span><\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\"><em><span class=\"s1\">Dedicado a Benjamin Batista, o criador de academias.<\/span><\/em><\/p>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\">H\u00e1 poucos dias, pelas m\u00e3os do amigo enxadrista e empres\u00e1rio Gilvan Quadros, chegou-me \u00e0s m\u00e3os um objeto de densidade rara nestes tempos de superficialidade virtual: um exemplar autografado de Um Homem Contra o Sol, livro de estreia do professor de matem\u00e1tica aposentado Eron Sardinha Oliveira de Cana\u00e3, publicado pela Cogito Editora. Ao abrir a p\u00e1gina da ep\u00edgrafe, deparo-me com a caligrafia do autor e uma dedicat\u00f3ria que funciona como b\u00fassola existencial: &#8220;A grande coisa da vida \u00e9 viver!&#8221;. Na p\u00e1gina seguinte, consta a profecia de Gilvan, que com o faro agu\u00e7ado de quem antecipa os movimentos no tabuleiro e nos neg\u00f3cios, lan\u00e7ou: &#8220;Este livro vai bombar!&#8221;. Ambos est\u00e3o cobertos de raz\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\">Asseguro-lhes que a obra possui uma singularidade cortante. Nada tem de comum com as c\u00f3pias p\u00e1lidas, as transcri\u00e7\u00f5es de ideias alheias que pululam no mundo digital e que s\u00e3o facilmente abduzidas pelos algoritmos dos &#8220;expertos&#8221; de ocasi\u00e3o. Se eu pudesse resumir em poucas palavras a aud\u00e1cia de Eron, diria que ele esgrima de forma magistral o Sapere aude de Immanuel Kant: ouse saber, ouse pensar por conta pr\u00f3pria. O seu m\u00e9todo \u00e9 o da desconstru\u00e7\u00e3o gradual das mentiras culturais que nos tomam como ref\u00e9ns desde a inf\u00e2ncia, bem ao esp\u00edrito da exorta\u00e7\u00e3o de Tessalonicenses trazida logo na Abertura do livro: &#8220;Examinai tudo e ficai com o que \u00e9 bom&#8221;.<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\">Essa abordagem imediatamente me transportou no tempo, resgatando um dos maiores monumentos j\u00e1 escritos no \u00e2mbito da psican\u00e1lise e do pensamento baiano: o livro O Homem &#8211; Sua Explica\u00e7\u00e3o (Vol. 2): Noiatria ou Pr\u00e1tica Supressiva do Irreal, de Auto Jos\u00e9 de Castro. Recordo-me com precis\u00e3o de quando recebi o exemplar dessa obra, um presente generoso de Chico da Presscolor, dileto amigo de Jos\u00e9 Augusto Berbert de Castro, do decano Em\u00edlton Rosa e de Aur\u00e9lio Pires \u2014 sendo os dois Jos\u00e9s (Auto e Augusto) e Aur\u00e9lio, hoje, de mem\u00f3ria saudosa. \u00c9 gratificante registrar que, gra\u00e7as a esses v\u00ednculos solidificados no conv\u00edvio fraterno dentro da ALAS (Academia de Letras e Artes de Salvador) e pelo meu grande amor pela cultura, consigo acessar essas p\u00e9rolas liter\u00e1rias e filos\u00f3ficas.<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\">Lembrei-me, tamb\u00e9m com precis\u00e3o afetiva e intelectual, do artigo publicado no jornal A Tarde por ocasi\u00e3o do falecimento de Auto, escrito pelo meu saudoso professor Washington Trindade \u2014 um dos juristas e intelectuais mais probos e brilhantes que a Bahia j\u00e1 deu ao mundo. Para Trindade, Auto de Castro era um &#8220;g\u00eanio sublime&#8221;. Foi preciso correr \u00e0quela obra para compreender que a cl\u00ednica de Auto estava centrada justamente naquilo que ele chamava de supress\u00e3o gradual da mentira.<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\">Aqui e l\u00e1, no div\u00e3 de Auto de Castro e na literatura de Eron, os dois autores intentam o processo de cura do indiv\u00edduo e da sociedade atrav\u00e9s da inocula\u00e7\u00e3o da verdade. No caso de Eron, esse processo se d\u00e1 sob o testemunho do Sol \u2014 um Sol que \u00e0s vezes tamb\u00e9m se mostra mentiroso enquanto personagem e objeto mitol\u00f3gico, como na passagem b\u00edblica em que Josu\u00e9 faz o astro parar de girar ao bel-prazer de uma conveni\u00eancia b\u00e9lica, como se os gigantes universais pudessem utiliz\u00e1-lo como um mero arremesso de peso.<\/span><!--more--><\/p>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\">A mente cir\u00fargica do Eron matem\u00e1tico rejeita o &#8220;2 + 2 = 5&#8221; do absurdo f\u00edsico e teol\u00f3gico. Ele herda o DNA do racionalismo do s\u00e9culo XVIII, um esp\u00edrito marcadamente voltairiano, em que a clareza geom\u00e9trica passou a desafiar o misticismo obscuro para destronar as contradi\u00e7\u00f5es dos textos sagrados. Nesse sentido, ao esgrimir a sua l\u00f3gica desconstrutiva no sentido derridiano, ele dispensou o ataque ao texto sagrado de fora; pois exp\u00f5e o ca\u00f3tico desenho e o desencontro das Escrituras. Entre as suas p\u00e1ginas, Eron capta com agudeza a contradi\u00e7\u00e3o frontal entre I Cor\u00edntios 15:5 e Mateus 28:16: afinal, quantos viram Jesus ressuscitado, doze ou onze ap\u00f3stolos? Afinal, Judas houvera sa\u00eddo para se enforcar \u2014 e eu daqui pergunto: de quanta corda precisa um Judas para se enforcar?<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\">A r\u00e9gua l\u00f3gica de Eron n\u00e3o poupa o Antigo Testamento. Como aceitar que, na cosmologia b\u00edblica, as plantas tenham sido criadas antes do pr\u00f3prio Sol? Ou o paradoxo de G\u00eanesis 4:14, onde Caim, ap\u00f3s assassinar Abel nos arredores do \u00c9den, tremeu de medo daqueles que poderiam mat\u00e1-lo na Terra \u2014 que outros humanos habitavam aquele vazio? E, logo adiante, o mesmo assassino errante torna-se, inexplicavelmente, um construtor de cidades. Por sustentar com tamanho rigor essas fraturas dogm\u00e1ticas, o autor terminou sendo sumariamente desligado da sua Igreja. No pr\u00f3ximo dia 29, na Academia de Cultura, teremos a oportunidade de expor esse esp\u00edrito de contesta\u00e7\u00e3o com o qual ele tanto trabalhou. <\/span><\/p>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\">\u00c9 claro que esse despertar incomoda. Diante da incapacidade de rebater a solidez desses argumentos, o dogmatismo e a mediocridade institucional poderiam at\u00e9 mesmo acionar a sua \u00faltima e mais covarde linha de defesa: o assassinato de reputa\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s do preconceito. &#8220;Voc\u00ea \u00e9 um doido!&#8221;, disparariam os ref\u00e9ns da ilus\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\">Michel Foucault, em sua Hist\u00f3ria da Loucura, j\u00e1 denunciava esse mecanismo pol\u00edtico de exclus\u00e3o: rotula-se como &#8220;louco&#8221; todo aquele que recusa o jogo das mentiras compartilhadas. A sociedade hip\u00f3crita opera uma invers\u00e3o perversa: chama de &#8220;normal&#8221; quem vive anestesiado pelo irreal e de &#8220;demente&#8221; quem busca a lucidez. O &#8220;doido&#8221;, na verdade, \u00e9 o indiv\u00edduo saud\u00e1vel que se recusa a adoecer junto com a coletividade. Chamar Eron de louco \u00e9 apenas a rea\u00e7\u00e3o imunol\u00f3gica de um tecido social doente contra a inocula\u00e7\u00e3o da verdade.<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\">Ao desmascarar o Sol mitol\u00f3gico das Escrituras e as contradi\u00e7\u00f5es clericais, Eron n\u00e3o nos joga no niilismo. Pelo contr\u00e1rio: ele opera a cura noi\u00e1trica de Auto de Castro para nos devolver ao Sol real e \u00e0 \u00fanica certeza palp\u00e1vel que possu\u00edmos. Como bem escreveu o autor na dedicat\u00f3ria que guardarei com zelo, a grande coisa da vida \u00e9 viver. Sim. Viver sem amarras, sem ref\u00e9ns, sob a luz da mais cortante e libertadora honestidade intelectual.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Luiz Cl\u00e1udio Guimar\u00e3es Dedicado a Benjamin Batista, o criador de academias. 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