{"id":42823,"date":"2024-01-06T02:09:39","date_gmt":"2024-01-06T05:09:39","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogdomassinha.com.br\/v1\/?p=42823"},"modified":"2024-01-06T02:09:39","modified_gmt":"2024-01-06T05:09:39","slug":"vida-e-morte-descobertas-cultura-di-fato","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogdomassinha.com.br\/v1\/2024\/01\/06\/vida-e-morte-descobertas-cultura-di-fato\/","title":{"rendered":"Vida e Morte Descobertas &#8211; Cultura di Fato"},"content":{"rendered":"<p class=\"p1\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignright size-medium wp-image-42824\" src=\"https:\/\/www.blogdomassinha.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/IMG_6068-300x300.jpeg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/www.blogdomassinha.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/IMG_6068-300x300.jpeg 300w, https:\/\/www.blogdomassinha.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/IMG_6068-150x150.jpeg 150w, https:\/\/www.blogdomassinha.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/IMG_6068.jpeg 500w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p class=\"p1\"><strong><span class=\"s1\">Por Marco Jardim<\/span><\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s2\">Debru\u00e7ado sobre a escrivaninha da antessala do meu quarto, no apartamento que fica aos fundos do p\u00e1tio da minha casa, na rua Joana Ang\u00e9lica, interior da Bahia, senti um frio percorrer a espinha, como um sopro.<br \/>\nLarguei os utens\u00edlios necess\u00e1rios para a escritura, as penas e a tinta, despertei o cora\u00e7\u00e3o cansado e escutei os passos.<br \/>\nPassos sobre as telhas de barro.<br \/>\nNo terreiro ao lado da casa, os og\u00e3s, com o ib\u00ea e o il\u00fa salientes, puxavam a voz de uma velha senhora que, em l\u00edngua afro-cubana, cantava aos mortos.<br \/>\n<\/span><span class=\"s3\">&#8220;La muerte esta con nosotros&#8221;<\/span><span class=\"s2\">, celebrava a mulher com autoridade.<br \/>\nSenti outra vez a fri\u00fara no corpo tremido e fiquei profundamente impressionado.<br \/>\nSa\u00ed ao \u00e1trio, havia um vento farfalhando nas folhas da pitangueira mi\u00fada \u00e0 qual fui recentemente presenteado e tratei de auscultar, na \u00e2nsia de reconhecer os rumores.<br \/>\nSobre o banco de ladrilhos, meu gato branco olhava para mim, como que espantado.<br \/>\nEsquadrinhavam-me tamb\u00e9m o livro de capa amarela, a fotografia em preto e branco feita por meu pai h\u00e1 quase trinta anos, a face de uma Madonna com sombra azulada sobre os olhos e as pequenas estatuetas budistas de bronze, estas viradas de costas para a porta de madeira gasta.<br \/>\nN\u00e3o sei bem o que em mim querem lembrar. Por que me miravam?<br \/>\n<\/span><span class=\"s3\">&#8220;Que opinas desta foto? Como me veo?&#8221;<\/span><span class=\"s2\">, sussurrou uma alma quase aos meus ouvidos.<br \/>\nA pergunta inestim\u00e1vel, feita em espanhol, sem que eu me recordasse de \u00e1timo o contexto, deveria ser fruto dos meus pensamentos.<br \/>\nMas, ali, naquela noite quente de fim de ano, parte do mundo &#8211; o que me cerca, mas n\u00e3o me insula &#8211; induzia, pelo olhar, a que eu opinasse sobre tudo e todos \u00e0 volta, como se formasse ju\u00edzo de vida e de morte.<br \/>\nOlhavam para mim &#8211; o gato, o livro, a fotografia, a sombra &#8211; e talvez quisessem descobrir, como no rel\u00f3gio sobre a mesa, alguma busca ou um impulso.<br \/>\n&#8220;Quem sou? Para onde vou?&#8221;, murmurou a voz desconhecida outra vez.<br \/>\nN\u00e3o teria feito a menor diferen\u00e7a se fosse uma passagem pela Baker Street ou uma viagem de trem ao redor do mundo.<br \/>\nFosse um bar \u00e0 beira-mar ou um caf\u00e9 na Serra, em Minas.<br \/>\nQualquer lugar que eu estivesse &#8211; e calhou de ser o p\u00e1tio onde vejo as estrelas enquanto, sozinho, fumo um cigarro de palha -, eu estaria s\u00f3, intoxicado em meu pr\u00f3prio medo.<br \/>\nEntre bilh\u00f5es de humanos, eu estava ali, visto por algu\u00e9m que n\u00e3o entrevia.<br \/>\nFoi quando notei, sobressaltado, na escurid\u00e3o diligente da noite, um homem.<br \/>\nUm homem descorado como um c\u00e9u branco escorrendo dos olhos.<br \/>\nMeu Deus, autor do mundo, diga-me: estava eu a sonhar?<br \/>\nEntre o plano f\u00edsico e o que de imaterial h\u00e1, n\u00e3o deveria aquilo ser real.<br \/>\nMas trago \u00e0 mem\u00f3ria &#8211; e pasmo estou &#8211; um fato: este homem me olhou, ali, perto do caqueiro de cimento, coberto de brumas.<br \/>\nDe onde veio? De que norte?<br \/>\nNada seria ainda mais assombroso, no entanto o estranho homem que jazia falou.<br \/>\n&#8220;Pare de tanto andar, pensar e pretender mover o mundo&#8221;, disse ele, em tom imperioso.<br \/>\nDisse, ainda, que preciso reorganizar as minhas for\u00e7as armadas, abra\u00e7ar causas at\u00e9 onde meus bra\u00e7os alcancem, e n\u00e3o al\u00e9m.<br \/>\nContou que um dia terei um s\u00edtio, um lugar r\u00fastico, com uma pequena horta e um pomar.<br \/>\nE, dos l\u00e1bios que mais pareciam feitos da borracha do dia, disse-me que, ultimamente, deixei de existir.<br \/>\nDurante a conversa\u00e7\u00e3o, cessaram os atabaques da vizinhan\u00e7a.<br \/>\nO som, agora, era quase et\u00e9reo, como se precipitasse o amanhecer.<br \/>\nO homem, alheio de si, ainda afirmou que, um dia, criaremos, juntos, obras de real imagina\u00e7\u00e3o.<br \/>\nAh, aquele homem era estrangeiro, que nem eu.<br \/>\nDeixava ali as velhas vestes de seu destino para adotar uma nova humanidade.<br \/>\nUm homem que, de t\u00e3o morto, quase dormia aparentemente em v\u00e3o.<br \/>\nParecia ter, perto do termo, uma consci\u00eancia sobre si e sobre o que faria depois, servindo de inspira\u00e7\u00e3o.<br \/>\n&#8220;Viver \u00e9 agora e, logo mais, pode n\u00e3o ser&#8221;, ainda teve tempo de dizer, antes de morrer.<br \/>\n<\/span><span class=\"s3\">&#8220;Muerto, muerto esta. Ni muerto acaba su penar&#8221;<\/span><span class=\"s2\">, voltou a rezar a velha senhora do terreiro ao lado.<br \/>\nEntre o espanto provocado pelo di\u00e1logo austero, os olhares e os sons dos tambores, vi cada gesto, em cada segundo seu, que parecia me dizer que aquele homem era eu.<br \/>\nFarei, ent\u00e3o, se preciso for, exatamente assim: morrerei este homem em mim.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Marco Jardim Debru\u00e7ado sobre a escrivaninha da antessala do meu quarto, no apartamento que fica aos fundos do p\u00e1tio da minha casa, na rua Joana Ang\u00e9lica, interior da Bahia, senti um frio percorrer a espinha, como um sopro. 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