{"id":39901,"date":"2023-07-09T17:20:03","date_gmt":"2023-07-09T20:20:03","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogdomassinha.com.br\/v1\/?p=39901"},"modified":"2023-07-09T17:20:03","modified_gmt":"2023-07-09T20:20:03","slug":"eterna-e-querida-escola-normal-aonde-esta-voce","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogdomassinha.com.br\/v1\/2023\/07\/09\/eterna-e-querida-escola-normal-aonde-esta-voce\/","title":{"rendered":"Eterna e querida Escola Normal, aonde est\u00e1 voc\u00ea?"},"content":{"rendered":"<p class=\"p1\"><img loading=\"lazy\" class=\"size-medium wp-image-39902 alignleft\" src=\"https:\/\/www.blogdomassinha.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/IMG_1573-300x168.jpeg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"168\" srcset=\"https:\/\/www.blogdomassinha.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/IMG_1573-300x168.jpeg 300w, https:\/\/www.blogdomassinha.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/IMG_1573.jpeg 600w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\">Era uma escola sem muros. O cheiro de mato circulava entre os tr\u00eas blocos de salas de aula, penetrava no audit\u00f3rio, no galp\u00e3o das aulas de educa\u00e7\u00e3o f\u00edsica, na sala de ci\u00eancia, no sal\u00e3o do gr\u00eamio. A cantina oferecia o melhor refresco de maracuj\u00e1 e a mais deliciosa banana-real. O sino, alto e irritante, anunciava o in\u00edcio ou fim das aulas. A escola funcionava em tr\u00eas turnos: pela manh\u00e3 havia o curso Pedag\u00f3gico, aulas de educa\u00e7\u00e3o f\u00edsica e uma pequenina turma de jardim de inf\u00e2ncia, \u00e0 tarde o curso Cient\u00edfico, \u00e0 noite o curso T\u00e9cnico de Contabilidade e o curso Ginasial em todos os turnos.<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\">Seu Juca, o zelador, no alto dos seus setenta anos, circulava pelos corredores com acompanhado do barulho das dezenas de chaves que carregava. Sua simpatia, seus passos curtos e seu chap\u00e9u surrado e sua voz baixa e carinhosa, tal e qual S\u00e3o Pedro, nunca ser\u00e3o esquecidos. As \u201csessoras\u201d, ou inspetoras, enxergavam tudo: o sapato marrom, a meia colorida, a falta do escudo com as iniciais da institui\u00e7\u00e3o, a saia curta, o excesso de maquiagem ou os afagos dos namorados nas extremidades dos blocos. A pior de todas era a Nice, implicante, severa, amea\u00e7adora, talvez por \u00a0ser uma balzaqueana. Mas a D. In\u00eas era mais compreensiva entre as demais.<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\">Mas bom mesmo era o caminhar na \u00a0Rua Siqueira Campos, tanto na ida como na volta para a escola. As garotas, ao sa\u00edrem de casa dobravam o c\u00f3s da saia deixando-a bem curta e pernas \u00e0 mostra para o deleite dos garotos. Todos andavam sorridentes, falantes, trocando confid\u00eancias e olhares furtivos. Rua de puro encantamento. Muitos namoros nasciam e morriam naquelas cal\u00e7adas. A rua parecia longa, ancha, intermin\u00e1vel, com o doce cheiro da juventude. O engra\u00e7ado que a prefer\u00eancia era a cal\u00e7ada \u00e0 esquerda em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 escola. Mais ou menos no meio da rua havia uma tendinha bem simples onde se vendia biscoitos, balas, bananas. Manoel, Ivo e eu sempre perturb\u00e1vamos a dona perguntando se \u201ctem picol\u00e9 de cacha\u00e7a\u201d, \u201ccaf\u00e9 branco\u201d ou \u201cquanto \u00e9 uma banana de cinco cruzeiros\u201d. A dona se irritava e os moleques corriam sorrindo. Certo dia a senhora esperou e quando viu os garotos se aproximando, correu \u00a0e jogou a borra de caf\u00e9, mas eles se desviaram e quatro \u00a0garotas que \u00a0estavam no caminho receberam nas camisas, impecavelmente brancas, um banho de borra de caf\u00e9. Choro, gritos, pedidos de desculpas, brigas e risadas dos moleques correndo pela rua. Nos bra\u00e7os, as meninas carregavam cadernos cujas capas estavam estampadas fotos dos gal\u00e3s de cinema: Rock Hudson, Charlton Heston, Tony Curtis, Alain Delon, Giuliano Gemma entre outros. Algumas exibiam livro de Psicologia ou de Pedagogia para se mostrarem intelectualizadas. E alguns meninos do Cient\u00edfico, exibiam garbosos, livros de Qu\u00edmica Org\u00e2nica ou de F\u00edsica. A rua tinha cara de felicidade, de horm\u00f4nios em ebuli\u00e7\u00e3o, de cheiro de alegria. Uma figura que sempre estava no caminho dos estudantes era Lilita, com seus dedos cheios de an\u00e9is, suas pulseiras e com o corpo escondido em v\u00e1rias camadas de cobertores. Certa tarde houve uma gritaria, correria, risos e gritos: era o maluquinho Cafezinho, sujo, barbudo, com um copo na m\u00e3o, que havia abaixado as cal\u00e7as para as estudantes. O maior movimento era antes e depois das aulas, mas nos dias em que os cinemas exibiam filmes de Elvis Presley, o movimento era antecipado para antes da matin\u00e9e. Quando os filmes dos Beatles, \u201cOs reis \u00a0do i\u00ea-i\u00ea-i\u00ea\u201d e \u201cHelp\u201d, \u00a0foram exibidos no Cine Conquista, a freq\u00fc\u00eancia nas aulas foi pequena, mas muito grande no cinema. E todos, ou quase todos, ap\u00f3s o trilharem a Rua Siqueira Campos seguiam para comer o acaraj\u00e9 da Concei\u00e7\u00e3o na Pra\u00e7a 9 de Novembro. Inesquec\u00edvel o acaraj\u00e9 e o sorriso da baiana.<\/span><!--more--><\/p>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\">O nome \u00e9 Instituto de Educa\u00e7\u00e3o Euclides Dantas, mas sempre foi conhecida com o apelido de Escola Normal. Era tempo da ditadura militar, mas n\u00e3o tinha a chatice da ditadura do \u201cpoliticamente correto\u201d de hoje e comumente alguns professores tinham inocentes apelidos, sem a inten\u00e7\u00e3o de constranger ou desrespeit\u00e1-los. Uma professora de Hist\u00f3ria usava muita maquiagem e era chamada de \u201cTecnicolor\u201d; uma professora de Portugu\u00eas era a \u201cFera da Penha\u201d, por se parecer com assassina de uma garotinha no Rio de Janeiro; um professor tentou suic\u00eddio ingerindo inseticida e ficou conhecido como \u201cDetefon\u201d; uma vice-diretora era a \u201cirm\u00e3 da noite\u201d; um professor de Matem\u00e1tica, gordinho, era o \u201cBarr\u00e3o\u201d; certo advogado, baixinho, que dava aula de franc\u00eas era \u201ctoco de amarrar jegue\u201d; uma linda professorinha de portugu\u00eas era \u201cMiss Brasil\u201d e uma rigorosa professora de Educa\u00e7\u00e3o F\u00edsica era a \u201cTot\u00f3\u201d.<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\">Mas tamb\u00e9m existiam alguns mestres que eram tratados com venera\u00e7\u00e3o, admira\u00e7\u00e3o, contempla\u00e7\u00e3o, respeito e carinho como a professora de franc\u00eas \u201cTia\u201d Nana, \u00a0D. Zefinha; \u00a0Dr. Uady Bulus, Dra. Lia Rocha, D. Ione, Clovis Flores, Antonio Nery, D. Nair (certa vez, do lado de fora da sala de aula, o capeta Luiz, que estava suspenso, gritou: \u201cD. Nair, velha b\u00eabada\u201d. A mestra, ao ouvir, chorou e falou \u00e0 classe: \u201cMentira, meus meninos, na minha casa n\u00e3o tem nem licor\u201d); e que falar do Professor Everardo P\u00fablio de Castro, educador em toda sua plenitude, que foi preso e proibido de lecionar para curso ginasial pelo governo militar, e outros momentaneamente esquecidos. Mas tamb\u00e9m alguns professores aterrorizavam os alunos, pelo rigor como a professora Lili (Matem\u00e1tica), Maria Eug\u00eania (Portugu\u00eas, bel\u00edssima), Iolando (Ingl\u00eas) e Zuleika (Franc\u00eas), sem falar no diretor Artur Seixas, com seu mau humor e sem nunca mostrar um sorriso. \u00a0Assim como alguns mestres eram umas \u201cfiguras\u201d como o Padre Fa\u00edla, natural da It\u00e1lia, professor de Latim, que quando ficava nervoso misturava \u00a0portugu\u00eas, italiano e latim. E quantas vezes o Dr. Orlando Leite pronunciava a palavra \u201cperceberam\u201d durante a aula? E Lindiomar, professora de Geografia, que jogava o limpador de quadro-negro na parede? E a professora de gin\u00e1stica, gostos\u00edssima, que ao sair do fusquinha fazia quest\u00e3o de deixar as pernas \u00e0 mostra para a loucura dos meninos que ficavam esperando aquele momento. E na aula de Geografia quando o Jorge Palmeira falava as primeiras s\u00edlabas da palavra e a turma, em un\u00edssimo e gritando, respondia a \u00faltima s\u00edlaba, que dizer?<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\">A prova de Ci\u00eancias estava marcada. Ningu\u00e9m estava preparado para a mesma. A turma toda resolveu \u201cdescer\u201d e desta forma n\u00e3o haveria a prova. Mas o mestre chegou \u00e0 sala, esperou, anotou aus\u00eancia na caderneta e nota zero para todos os alunos. A turma sifu. Tivemos que estudar em dobro para a uma segunda prova cuja nota seria dividida com a nota zero da prova n\u00e3o feita.<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\">Quando existia a elei\u00e7\u00e3o para presidente do Gr\u00eamio, a agita\u00e7\u00e3o era geral. Discuss\u00f5es, campanha, puxa-saquismo tomava conta de todos. Nem sempre ganhava o candidato com melhor plataforma. Ganhava sempre o candidato mais bonito! Ah, as meninas! Acontecia tamb\u00e9m a elei\u00e7\u00e3o da Rainha dos Calouros, quando era eleita a candidata mais metida, antip\u00e1tica, chata. A coroa\u00e7\u00e3o era de surpresa, vaias e uma coroa de mato na cabe\u00e7a. A diretoria n\u00e3o aprovava tal elei\u00e7\u00e3o e teve muita gente suspensa por causa deste movimento.<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\">O ensino era de qualidade. O ingresso na Escola Normal era atrav\u00e9s do Exame de Admiss\u00e3o. Dif\u00edcil, muito disputado, muitos alunos faziam mais de uma vez para passar naquele que era um \u201cvestibular\u201d. Aula de ingl\u00eas, franc\u00eas e latim. O que aprendi em franc\u00eas n\u00e3o me fez passar vergonha quando tive que contato com nativos da terra de Voltaire. At\u00e9 hoje sei cantar, em franc\u00eas, a m\u00fasica \u201cAline\u201d de Christophe, exig\u00eancia da professora Shirlei em prova oral. Sala de ci\u00eancia e biblioteca. Exame biom\u00e9dico. Havia aula de Canto Orfe\u00f4nico, mas tamb\u00e9m aula de Religi\u00e3o (somente a cat\u00f3lica, estranhamente, como se religi\u00e3o fosse apenas esta) e, pasmem, Economia Dom\u00e9stica apenas para as meninas. Os meninos gostavam porque ficavam livres para jogar bola naquela hora. Disciplina e respeito. Quem estudou na Escola Normal, pelo menos no tempo que procuro mostrar aqui, teve um ensino de qualidade e fez ali muitas amizades, traz consigo boas lembran\u00e7as. A escola me deu, como disse o poeta, r\u00e9gua e compasso. Contribuiu para eu ser um cidad\u00e3o do bem e ensinar aos meus filhos o valor das coisas simples, do estudo e do amor \u00e0 educa\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\">Arm\u00eanio, Manoel, Zuleide, Vital, Dulce, Denilva, Zoroastro, Zilka, Rui Carlos, Wellington, Viubaldino, Maria Vitoria, Gra\u00e7a, Ivonilda, Ubirajara, Vera, Marilena, Delma, Pedro \u00cdris, Fernando, Zuwilson, Wilson, Raquel \u00a0(primeira \u00a0Miss Conquista e uma das mulheres mais bonitas que conheci), Te\u00f3dolo, Teodoro, Maria do Carmo, Selia, Maria Elisdete, Terezinha, Eronildes, Zacarias, Valdemilson, Celeste, Simone, Vilson, Renato, Lucia, Gil, Ana, Gloria, Sandoval, Ademir, Ben\u00edcio, Zilmar, Jos\u00e9, Valfredo, Celso, Wanda, Giselda, Boaventura, Antonio, Humberto e tantos nomes guardados, adormecidos ou esquecidos naquele arquivo dentro da nossa saudade. Este \u00e9 um relato das lembran\u00e7as do per\u00edodo em que fiquei no IEED de 1964 a 1971.<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\">Viva a Escola Normal!<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\">\u00a0<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Era uma escola sem muros. O cheiro de mato circulava entre os tr\u00eas blocos de salas de aula, penetrava no audit\u00f3rio, no galp\u00e3o das aulas de educa\u00e7\u00e3o f\u00edsica, na sala de ci\u00eancia, no sal\u00e3o do gr\u00eamio. A cantina oferecia o melhor refresco de maracuj\u00e1 e a mais deliciosa banana-real. O sino, alto e irritante, anunciava [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":39902,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[821,7],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.blogdomassinha.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/39901"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.blogdomassinha.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.blogdomassinha.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogdomassinha.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogdomassinha.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=39901"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.blogdomassinha.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/39901\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":39903,"href":"https:\/\/www.blogdomassinha.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/39901\/revisions\/39903"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogdomassinha.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/media\/39902"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.blogdomassinha.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=39901"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogdomassinha.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=39901"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogdomassinha.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=39901"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}