{"id":27747,"date":"2021-05-17T00:06:15","date_gmt":"2021-05-17T03:06:15","guid":{"rendered":"http:\/\/www.blogdomassinha.com.br\/v1\/?p=27747"},"modified":"2021-05-16T22:37:31","modified_gmt":"2021-05-17T01:37:31","slug":"um-coracao-do-sertao-e-das-lavras-90-anos-do-assassinato-do-coronel-horacio-de-matos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogdomassinha.com.br\/v1\/2021\/05\/17\/um-coracao-do-sertao-e-das-lavras-90-anos-do-assassinato-do-coronel-horacio-de-matos\/","title":{"rendered":"Um cora\u00e7\u00e3o do sert\u00e3o e das lavras &#8211; 90 anos do assassinato do Coronel Hor\u00e1cio de Matos"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/www.blogdomassinha.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/WhatsApp-Image-2021-05-16-at-11.44.30.jpeg\" class=\"gallery_colorbox\"><img loading=\"lazy\" class=\"size-medium wp-image-27748 alignright\" src=\"http:\/\/www.blogdomassinha.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/WhatsApp-Image-2021-05-16-at-11.44.30-300x207.jpeg\"  alt=\"WhatsApp Image 2021-05-16 at 11.44.30\" width=\"300\" height=\"207\" srcset=\"https:\/\/www.blogdomassinha.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/WhatsApp-Image-2021-05-16-at-11.44.30-300x207.jpeg 300w, https:\/\/www.blogdomassinha.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/WhatsApp-Image-2021-05-16-at-11.44.30.jpeg 720w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u201cA verdadeira paz n\u00e3o \u00e9 apenas a aus\u00eancia de guerra, \u00e9 a presen\u00e7a da justi\u00e7a\u201d.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Jane Addams<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Maio \u00e9 m\u00eas de festa, \u00e9 m\u00eas de regozijo pela esta\u00e7\u00e3o da fartura, e segundo consta, o seu nome \u00e9 derivado da deusa romana Bona Dea, que \u00e9 a Deusa da fertilidade, logo, isso nos remete a fertilidade das terras do Sert\u00e3o, dos campos das Lavras, onde gostosamente pode se sentir j\u00e1 em maio, o frescor da brisa fria que beija a face do sertanejo, por\u00e9m quis o destino, cruel e ingrato, que tamb\u00e9m em maio, no seu d\u00e9cimo quinto dia, o Sert\u00e3o e as Lavras recebessem uma das piores not\u00edcias de todos os tempos, a tr\u00e1gica morte do seu filho mais ilustre, do seu aguerrido e incans\u00e1vel defensor, cobrindo de luto todo uma vasto territ\u00f3rio e arrancando l\u00e1grimas de gritos de desespero em toda extens\u00e3o da Chapada Diamantina at\u00e9 as Barrancas do S\u00e3o Francisco, cortando o sert\u00e3o com um agudo e ensurdecedor ai, estava morto o Coronel Hor\u00e1cio de Queir\u00f3s Matos!<!--more--><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Desde seu nascimento 49 anos antes, nos confins das serras de Chapada Velha, trouxe uma estrela de fascinante excel\u00eancia, que o fez al\u00e7ar voos aquilinos, de propor\u00e7\u00f5es inimagin\u00e1veis para um descendente de mineradores.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Crescido e forjado na quentura do sangue de sua genes materna, acrescido com o polimento t\u00edpico dos Matos, Hor\u00e1cio de tornou o homem ideal para enfrentar toda e qualquer situa\u00e7\u00e3o e assim o fez, foi guerreiro, foi diplomata, foi pac\u00edfico e beligerante, era um camale\u00e3o, se moldava tal qual a ocasi\u00e3o pedisse, por\u00e9m sem nunca se olvidar do que dizia uma voz renitente que soprava em seu ouvido diuturnamente; \u201cN\u00e3o provocar, nem agredir, mas se for ofendido, colocar a honra acima de tudo e reagir, porque de nada adianta viver sem a dignidade.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Durante quase duas d\u00e9cadas viveu intensamente, dentro de pelejas e no meio de hienas, se misturando com lobos e saltando sobre serpentes das mais diversas fac\u00e7\u00f5es partid\u00e1rias, tendo sempre \u00e0 sua frente a \u00e9gide da f\u00e9 e da esperan\u00e7a, mas nunca pode gozar de dias perenes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Brasil de Vargas era um Brasil novo, algo desconhecido, um rem\u00e9dio nunca provado e amargo, dif\u00edcil de aplicar num pa\u00eds t\u00e3o diversificado como o nosso, onde costumes, cren\u00e7as e opini\u00f5es se misturam e ao mesmo tempo se distinguem do Oiapoque ao Chu\u00ed. Nesse novo cen\u00e1rio, uma figura era dispens\u00e1vel, o coronelismo estava fadado ao exterm\u00ednio, e alguns desses t\u00edtulos, precisavam levar consigo o portador. Hor\u00e1cio era pedra escolhida para tombar!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Coronel Hor\u00e1cio de Matos, mesmo tendo ficado do lado da legalidade, sendo solid\u00e1rio ao Presidente\u00a0 Washington\u00a0 Lu\u00eds, t\u00e3o logo tomou conhecimento do intento do novo governo em desarmar o Sert\u00e3o, e sendo esse um antigo desejo seu, viu ent\u00e3o a oportunidade de por em pr\u00e1tica, e recebe em Len\u00e7\u00f3is, com confetes e aplausos, a comiss\u00e3o do Desarmamento do Sert\u00e3o, composta pelos militares;\u00a0 Cel. Jurandir Toscano de Brito e\u00a0 Cap. Dourivaldo\u00a0 Ferreira e dos civis; o Dentista Dr. Arlindo Sena, O M\u00e9dico Dr. Herman Lima e do Engenheiro Agr\u00f4nomo Dr. Piero Gato, tendo essa comiss\u00e3o no Coronel Hor\u00e1cio o principal guia e porta voz, que sob o protestos de muitos amigos e parentes ia arrecadando cada arma sabida em toda sua \u00e1rea, at\u00e9 que n\u00e3o sobrou quase nada, exceto as dos renitentes. Quando por fim estava completa a primeira miss\u00e3o, veio a hora da segunda, levar preso para Salvador o caudilho que acabara de auxili\u00e1-los com tanta boa vontade e esperan\u00e7a. Assim, em 30 de dezembro de 1930, o Tenente Hamilton Pompa, com pompas no nome e na pose, desce para a capital levando, numa viagem cheia de interesses escusos, o chefe sertanejo, e enfia-o num verdadeiro ninho de cobras, \u00e1vidas por dar-lhe o bote.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Recolhido na chefatura de pol\u00edcia na Pra\u00e7a da Piedade, come\u00e7a ent\u00e3o uma maratona pela sua soltura. Interior e capital se unem, os homens probos, comerciantes, magistrados, o clero, pessoas comuns, e at\u00e9 mesmo vilas inteiras, como foi o caso de Bela Vista de Utinga, rementem documentos, abaixo assinados, requerimentos, notas \u00e0 imprensa, abonando a conduta, elevando a j\u00e1 ilibada moral, e solicitando que seja posto em liberdade o seu protetor, o s\u00edmbolo vivo das Lavras Diamantinas, o Coronel Hor\u00e1cio de Matos, fato que se verifica coincidentemente a 13 de maio de 1931, mas condicionado a sua perman\u00eancia na capital, e ent\u00e3o vem a \u00faltima etapa da miss\u00e3o, t\u00e3o indignamente partida de oficiais do alto escal\u00e3o da seguran\u00e7a na Bahia, daqueles que deviam zelar pela sua integridade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma vez meio livre, fica hospedado na casa do amigo Dr. Arlindo Sena n\u00ba 17 e l\u00e1 recebe a todo momento uma avalanche de visitas e protestos de solidariedade, mas seu esp\u00edrito irrequieto e sua sina marcada, ferrada e escrita, sem rasuras, t\u00e3o firme que at\u00e9 parece ter sido assinalada com as pontas dos carbonatos e diamantes que enfeitaram sua estadia na terra, Hor\u00e1cio n\u00e3o se contenta, n\u00e3o se conforma, n\u00e3o admite ser vigiado, ser acuado, tornando debalde todos os rogativos do Dr. Arlindo Senna e da fam\u00edlia, e sai de casa, passeia, faz neg\u00f3cios, agrada com prosa e sua presen\u00e7a toda vizinhan\u00e7a, agradece ao gesto de cada em defer\u00eancia \u00e0 ele, n\u00e3o se d\u00e1 por vencido, quer se sentir vivo, livre! Ele dissera dias antes, ao perceber que um guarda civil rondava a casa; \u201cSe for pra eu estar vigiado, prefiro voltar pra cadeia!\u201d Esse guarda foi depois reconhecido por um verdureiro e pela esposa do Coronel Jos\u00e9 Pedreira Lapa como sendo o Guarda Civil n\u00ba 97.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na noite de 15 de maio, ap\u00f3s tomar um copo de leite, e rebelde aos rogativos dos anfitri\u00f5es, que temem por sua vida, receiam vingan\u00e7a, j\u00e1 que o Tenente Hamilton Pompa n\u00e3o aceitando sua soltura vai tirar satisfa\u00e7\u00f5es no Pal\u00e1cio do Rio Branco e \u00e9 morto pelos guardas do local, deixando Salvador em polvorosa, afetando os nervos de oficiais da ativa e da reserva, criando um clima perfeito pra uma cilada. Hor\u00e1cio sai de casa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Coronel parece que prev\u00ea seu destino e vai \u00e0 rigor; Veste palet\u00f3 e cal\u00e7a de casimira marrom escura, com listras azuis, sobre uma camisa de tricolina listrada de azul e rosa, com tons leves para uma noite escura. Se envolve com um cintur\u00e3o de couro e prende nele a capa do rev\u00f3lver Schimdt carregado com seis balas, talvez como lembran\u00e7a, a \u00faltima lembran\u00e7a que sente dos cercos de Campestre, do Barulho do Pega, de Barra do Mendes, ao afivelar a indument\u00e1ria, recorda quem sabe, dos \u00e1ureos momentos da Rea\u00e7\u00e3o Sertaneja, quando Rui Barbosa o aclamava no Senado Federal, quando o Presidente da Rep\u00fablica, Dr. Epit\u00e1cio Pessoa baixou a guarda pra ele e for\u00e7adamente faz a interven\u00e7\u00e3o a Bahia; Ajeitando a lapela do palet\u00f3 podemos imaginar aquele baixinho de pouco mais de metro e meio de altura, moreno, cabelos castanhos claros, testa larga, cabe\u00e7a bem conformada, centralizando um nariz pequeno sobre bigodes cuidadosamente aparados, e num suspiro tem relances do Batalh\u00e3o Patri\u00f3tico Lavras Diamantinas, que comandou a pedido do Presidente da Rep\u00fablica, mais um que recorreu a ele, o Dr. Artur Bernardes, para p\u00f4r fim aos movimentos revolucion\u00e1rios da Coluna Miguel Costas-Prestes, quatro anos passados. Ternamente lan\u00e7a um olhar partido dos olhos castanhos esverdeados, t\u00edpicos dos \u201cgatos\u201d de sua parte nos Queir\u00f3s da Pituba (no Assuru\u00e1, n\u00e3o de Salvador), e com um sorriso faceiro, mostrando os dentes bem implantados e capsulados a ouro, assenta sobre a cabe\u00e7a o chap\u00e9u de feltro preto, toma a insepar\u00e1vel bengala encastoada, pega na m\u00e3o da filha Horacina e sai.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A rua est\u00e1 movimentada, \u00e9 outono e est\u00e1 quente por ali. Conversa com um e com outro, visita a sua cunhada que estava doente, Dona Arlinda Medrado, a socorre com uma quantia de dinheiro e desce o largo, aproveitando a noite. Pobre Hor\u00e1cio! Mal sabia que perto dali, na Rua do Cabe\u00e7a n\u00ba 17, os Machados Motas Coelhos sentem j\u00e1 o gosto da vingan\u00e7a, que Salvador \u00e9 naquele momento um fojo armado, prestes a pegar a presa. Na Gra\u00e7a, no Rio Vermelho, na Avenida Sete, na Rua do Sodr\u00e9, no Areal de Baixo, e mais outros pontos est\u00e3o com os sentidos agu\u00e7ados, esperando s\u00f3 a not\u00edcia. Manoel Jos\u00e9 Machado, tio do malfadado Major Jo\u00e3o da Mota Coelho, tombado em combate com Hor\u00e1cio em 1925, que jantando com a sobrinha Elvira e a vi\u00fava de Mota, Am\u00e9rica, pensa que valeu a pena os 500 mil r\u00e9is que deu a um sujeito, para que comprasse uma arma. Folgando, o Coronel Ter\u00eancio dos Santos Dourado, sem um m\u00ednimo gesto de remorso por ser Hor\u00e1cio seu conterr\u00e2neo, uma vez que era de Irec\u00ea, j\u00e1 antev\u00ea a vit\u00f3ria do intento junto com o Capit\u00e3o Jo\u00e3o Bernardino de Mac\u00eado, outro que espreita vingan\u00e7a. Mas isso n\u00e3o era nada tendo em vista a dissimula\u00e7\u00e3o do Oficial da For\u00e7a P\u00fablica da Bahia, o Capit\u00e3o Artur de Oliveira C\u00f4rtes, talvez o principal interessado, em se comparando ao Tenente Jo\u00e3o Ant\u00f4nio, tamb\u00e9m vingador do Major Mota.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Hor\u00e1cio se encontra com Dona Esmeralda, paga um dinheiro, agradecendo pela vezes que levou comida pra ele na deten\u00e7\u00e3o, e segue em dire\u00e7\u00e3o a esquina que d\u00e1 para a entrada da Rua do Areal de Baixo, ent\u00e3o, uma sombra o aguarda passar e ao se aproximar recebe covardemente tr\u00eas tiros disparados com seguran\u00e7a, para n\u00e3o errar nem o alvo nem o intento. Era pra matar! O Coronel tomba sem vida, n\u00e3o houve nenhuma chance! Caiu trai\u00e7oeiramente assassinado, o homem que enfrentara com galhardia tantos chefes poderosos, senhores de jagun\u00e7os, tropas inteiras da pol\u00edcia baiana e dos revoltosos de Santo \u00c2ngelo e S\u00e3o Paulo, deitado no ch\u00e3o da Rua do Aciolly, no Largo Dois de Julho, no Distrito de S\u00e3o Pedro, o conquistador baixinho que derrotou gigantes, que de frente e sem medo fez sair de seu reduto o imponente Coronel Milit\u00e3o Coelho; Que destronou fazendo-o agachar em outro lugar, o inteligente Manoel Fabr\u00edcio de Oliveira; Que obrigou o valente Ant\u00f4nio Cust\u00f3dio recuar no Pega em 1916; Os rel\u00f3gios das testemunhas marcavam 19:30h em S\u00e3o Salvador quando morria o amarelo sarar\u00e1 que fez cair por terra o imp\u00e9rio dos S\u00e1s na inexpugn\u00e1vel Len\u00e7\u00f3is, sendo recebido com vivas e bandeirolas pela popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sua morte foi instant\u00e2nea, tendo um dos proj\u00e9teis atingido a car\u00f3tida e outro transfixado o hemot\u00f3rax esquerdo e atravessado o cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Constatado o ocorrido, populares e um outro guarda civil, o de n\u00ba 27, se puseram a correr atr\u00e1s do meliante, alcan\u00e7ando-o na Ladeira de Santa Tereza, e subjugando para entregar \u00e0s autoridades. O assassino estava ent\u00e3o identificado, se tratava nada mais na menos que o Guarda Civil n\u00ba 97, Vicente Dias dos Santos, que coincidentemente era amigo \u00edntimo da fam\u00edlia e frequentador ass\u00edduo da casa dos Machados Mota Coelho, e que havia integrado o corpo do destacamento comandando pelo Major Jo\u00e3o da Mota Coelho em 1925, para invadir Len\u00e7\u00f3is e dar cabo em Hor\u00e1cio de Matos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A not\u00edcia se espalhou por toda Salvador e mesmo a noite, o ajuntamento era enorme, vinha gente de toda parte para ver ou saber do fato, pessoas na Piedade, S\u00e3o Pedro, Avenida Sete, Garcia, enfim, tomavam bondes e se dirigiam ao local do crime.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Delegado Tancredo Teixeira da Silva chega \u00e0 cena do homic\u00eddio e toma as primeiras provid\u00eancias, junto aos legistas Dr. Arthur Ramos de Ara\u00fajo Pereira e Dr. Egas Muniz Barreto de Arag\u00e3o J\u00fanior, retiram a arma do corpo, e recolhe a quantia de 5:020$200, que portava o inditoso caudilho. O corpo foi removido para o Instituto Nina Rodrigues afim de ser autopsiado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Dr. Arlindo Senna, disse em seu depoimento que estava no Cinema Gl\u00f3ria quando seu filho chegou lhe chamando para dar a not\u00edcia. Ora, de um filme qualquer, o Dr. Arlindo agora se via dentro de uma sess\u00e3o de horror, com o assassinato de seu amigo, compadre e h\u00f3spede, uma cena de um outro filme deve ter vindo \u00e0 sua mente, o desarmamento do Sert\u00e3o, caminh\u00f5es de armas descendo de Len\u00e7\u00f3is e ele l\u00e1, vendo aquele sertanejo convencer um a um de seu povo a depor, entregar arma por arma, n\u00e3o salvaguardando nem as de ca\u00e7a. Talvez nesse momento concordou com os chefes Manoel Quirino de Matos e Marcolino Forte, que se negando a entregar as armas alertava que aquilo era um suic\u00eddio. \u201cQuem sobe pelas armas n\u00e3o desce das armas\u201d disse um outro chefe.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No outro dia, todos os jornais da Capital j\u00e1 davam conta do ocorrido e cada um queria estampar em suas capas j\u00e1 o caso resolvido, veredicto e tudo, narrando de formas e outras toda a trag\u00e9dia do Largo Dois de Julho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Logo todos os jornais da Bahia e de outros Estados tamb\u00e9m fizeram nota sobre o crime, em sua grande maioria lamentando a morte do Coronel Hor\u00e1cio, chamando-o sempre de L\u00edder Sertanejo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Toda as Lavras chorava! Toda Chapada se cobriu de luto! O sert\u00e3o perdeu a alegria naqueles dias de maio. Salvador estava triste, maas, maaas, haviam exce\u00e7\u00f5es! A testemunha Ed\u00e9zio Francisco Belo disse que estando na Pastelaria Alameda, na Avenida Sete, viu e ouviu o Coronel Ter\u00eancio dos Santos Dourado \u00e0s gargalhadas dizer ao Capit\u00e3o Jo\u00e3o Bernardino de Mac\u00eado que a morte do Coronel Hor\u00e1cio de Matos era necess\u00e1ria, e que j\u00e1 devia ter acontecido h\u00e1 muito tempo e a resposta do Capit\u00e3o que ele, Jo\u00e3o Bernardino, odiava o Coronel Hor\u00e1cio de Matos de longa data. Esse mesmo Capit\u00e3o Mac\u00eado havia estado no bonde na noite anterior, segundo Arquias Oliveira C\u00f4rtes, tamb\u00e9m oficial da For\u00e7a P\u00fablica, e que sabia do acontecido, como todo o centro de Salvador, mas no outro dia, disse que soube lendo os jornais. Artur de Oliveira C\u00f4rtes, que depois se configurou como principal mandante, tamb\u00e9m se contradisse nos depoimentos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Testemunhas, v\u00e1rias delas, nas 1.034 p\u00e1ginas do processo criminal, deram conta que no assassinato do Coronel Hor\u00e1cio de Matos tomaram parte, direta e indiretamente:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Guarda Civil n\u00ba 97, Vicente Dias dos Santos (que mentiu descaradamente o tempo todo);<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O funcion\u00e1rio aposentado do Senado Estadual, Manoel Jos\u00e9 Machado, tio do Major Mota Coelho, que praticamente confessou a sua participa\u00e7\u00e3o;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A vi\u00fava e a irm\u00e3 do Major Mota Coelho, Dona Am\u00e9rica Coelho e Elvira Mota Coelho;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Capit\u00e3o Jo\u00e3o Bernardino de Mac\u00eado;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Coronel Ter\u00eancio dos Santos Dourado, conterr\u00e2neo de Hor\u00e1cio de Matos, nos sert\u00f5es (Irec\u00ea);<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ot\u00e1vio Alves Passos, inimigo pol\u00edtico do Coronel Hor\u00e1cio de Matos;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tenente Jo\u00e3o Ant\u00f4nio de Mac\u00eado, companheiro de excurs\u00e3o do Major Mota Coelho;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E o Capit\u00e3o da For\u00e7a P\u00fablica Baiana, Arthur de Oliveira C\u00f4rtes, talvez o vingador do Tenente Hamilton Pompa;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Do Instituto Nina Rodrigues, ao meio dia do dia 16 de maio, o corpo de Hor\u00e1cio de Matos, fora levado de volta \u00e0 resid\u00eancia do Dr. Arlindo Sena, \u00e0 Rua do Acioli, 17, e de l\u00e1, sob grande acompanhamento, para o Cemit\u00e9rio do Campo Santo, onde foi sepultado na quadra 11, campa 804\u00aa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Arcebispo da Bahia e Primaz do Brasil, Dom Augusto \u00c1lvaro da Silva, depois Cardeal da Silva, celebrou as ex\u00e9quias na intens\u00e3o da alma do coronel, talvez suprindo assim a Missa que Hamilton Pompa n\u00e3o permitiu que ele assistisse em Len\u00e7\u00f3is no dia que trai\u00e7oeiramente fora preso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Deixava a vi\u00fava Dona Augusta Medrado Matos, os filhos: Horacina, T\u00e1cio, Judith, Hor\u00e1cio J\u00fanior e Juth Medrado Matos, al\u00e9m de outros filhos naturais, e uma infinidade de filhos por ado\u00e7\u00e3o, que constitu\u00eda todas as Lavras Diamantinas, carpindo a orfandade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Resumindo: O criminoso, praticante do ato encomendado, foi sentenciado no 1\u00ba J\u00fari a uma pena de 21 anos de pris\u00e3o celular. Dois anos depois, o Guarda 97 j\u00e1 era absolvido pelo 2\u00ba J\u00fari. Algum tempo Vicente Dias dos Santos, foi intoxicado paulatinamente pelo ars\u00eanio na \u00e1gua que bebia, sofrendo, confus\u00e3o mental, sendo internado no Hospital da Pol\u00edcia Militar, em Salvador, e l\u00e1 faleceu deixando pairar para sempre no ar a d\u00favida de como realmente tudo se deu, sem pena, sem culpados verdadeiros pagando, o caso virou em nada, se tornou mais uma das tantas injusti\u00e7as que o Coronel Hor\u00e1cio de Matos tanto combatia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Walfrido Moraes, em sua obra Jagun\u00e7os e Her\u00f3is, disse que \u00e0 beira t\u00famulo, quando o corpo de Hor\u00e1cio, descia \u00e0 sepultura, o jovem Alberto Morais, acad\u00eamico de direito, pronunciou, em prantos, entre outras, as seguintes palavras:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cCom o teu desaparecimento o sert\u00e3o est\u00e1 \u00f3rf\u00e3o. Quem nos poder\u00e1 guiar de agora por diante, para a paz ou para a guerra? &#8230; Quem ter\u00e1 condi\u00e7\u00e3o para substituir-te, e levar-nos, com a mesma bravura e com a mesma serenidade \u00e0 busca das nossas sagradas reivindica\u00e7\u00f5es de homens livres? &#8230; Quem, como tu, nos poder\u00e1 ensinar a corrigir as injusti\u00e7as sociais e gritar contra a indiferen\u00e7a dos Governos? &#8230;\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">J\u00e1 eu, 90 anos depois, me remeto a necropsia quando avaliaram um dos \u00f3rg\u00e3os mais importantes do corpo do Coronel e assim descreveu: Pesando 270 gramas, medindo 22 cent\u00edmetros de circunfer\u00eancia por 13 cent\u00edmetros de largura e 07 de espessura, o CORA\u00c7\u00c3O do Coronel Hor\u00e1cio de Matos, embora parecendo pequeno, nele cabia toda a Chapada Diamantina, todo seu povo, e era abrigo de sentimentos como lealdade, respeito, amor \u00e0 sua gente, e tamb\u00e9m de indigna\u00e7\u00e3o quando via o sofrimento, a opress\u00e3o dos sertanejos, como bem ressaltou Alberto Moraes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Hoje, continuam matando o Coronel Hor\u00e1cio de Matos, ele continua morrendo todos os dias, enquanto sua mem\u00f3ria for vilipendiada por escritores, jornalistas e cineastas etc.. e documentos elucid\u00e1rios sendo comidos por insetos em recantos escuros, escuros como a noite de 15 de maio de 1931.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fonte de pesquisa:\u00a0 Arquivo P\u00fablico do Estado da Bahia-APEB<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00facleo: Tribunal de Justi\u00e7a\/ S\u00e9rie: A\u00e7\u00e3o de Homic\u00eddio\/ Se\u00e7\u00e3o: Jur\u00eddica<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Classifica\u00e7\u00e3o: 37\/1310\/01<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Per\u00edodo: 1931\/1934<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Liandro Antiques<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Historiador e Genealogista<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Simbolicamente, respeitadas as particularidades dos acontecimentos e a n\u00edvel de fen\u00f4meno social, dado ao destaque das trajet\u00f3rias, Hor\u00e1cio est\u00e1 para o Coronelismo, assim como Lampi\u00e3o esteve para o Canga\u00e7o. Com a observa\u00e7\u00e3o de que o l\u00edder Hor\u00e1cio, pela corre\u00e7\u00e3o e compromisso com a legalidade da Rep\u00fablica, passou para hist\u00f3ria como homem probo e \u00edntegro, ao tempo que a aus\u00eancia de Hor\u00e1cio provocou s\u00e9rio preju\u00edzo ao Sert\u00e3o e a Chapada Diamantina!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Att. Alexandre Aguiar.<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cA verdadeira paz n\u00e3o \u00e9 apenas a aus\u00eancia de guerra, \u00e9 a presen\u00e7a da justi\u00e7a\u201d. Jane Addams Maio \u00e9 m\u00eas de festa, \u00e9 m\u00eas de regozijo pela esta\u00e7\u00e3o da fartura, e segundo consta, o seu nome \u00e9 derivado da deusa romana Bona Dea, que \u00e9 a Deusa da fertilidade, logo, isso nos remete a fertilidade [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":27748,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[821,7],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.blogdomassinha.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/27747"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.blogdomassinha.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.blogdomassinha.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogdomassinha.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogdomassinha.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=27747"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.blogdomassinha.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/27747\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":27749,"href":"https:\/\/www.blogdomassinha.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/27747\/revisions\/27749"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogdomassinha.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/media\/27748"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.blogdomassinha.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=27747"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogdomassinha.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=27747"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogdomassinha.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=27747"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}