{"id":2723,"date":"2016-04-21T23:40:19","date_gmt":"2016-04-22T02:40:19","guid":{"rendered":"http:\/\/www.blogdomassinha.com.br\/v1\/?p=2723"},"modified":"2016-04-21T23:45:27","modified_gmt":"2016-04-22T02:45:27","slug":"a-bencao-e-as-algemas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogdomassinha.com.br\/v1\/2016\/04\/21\/a-bencao-e-as-algemas\/","title":{"rendered":"A B\u00ean\u00e7\u00e3o e as algemas"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/www.blogdomassinha.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/IMG-20160421-WA0004.jpg\" class=\"gallery_colorbox\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-2724\" src=\"http:\/\/www.blogdomassinha.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/IMG-20160421-WA0004.jpg\"  alt=\"IMG-20160421-WA0004\" width=\"500\" height=\"346\" srcset=\"https:\/\/www.blogdomassinha.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/IMG-20160421-WA0004.jpg 500w, https:\/\/www.blogdomassinha.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/IMG-20160421-WA0004-300x208.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><br \/>\n<strong>*Por Sandra Carla C. Marques Martins<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 muito tempo que pensava em escrever sobre uma cena que me chocou quando trabalhava como advogada na \u00e1rea criminal, mas a correria do dia a dia, trabalho, casa, filhos, acabaram retardando o presente relato que agora passo a faz\u00ea-lo.<br \/>\nPois bem, passados dois anos que havia me formado em Direito, diga-se de passagem, que sou fascinada pelo direito penal, encontrava-me no pres\u00eddio da cidade para mais um atendimento a um cliente, na ocasi\u00e3o, enquanto aguardava sentada em um banco na entrada do pres\u00eddio, observei logo em minha frente, uma senhora e um menino que devia ter em torno de 04 anos de idade.<br \/>\nLogo de cara, notei no olhar daquela mulher, um olhar de gente sofrida da labuta de uma vida voltada para o campo e para os filhos, n\u00e3o sei por que raz\u00e3o me veio isso na mente, era uma tristeza t\u00e3o grande que parecia n\u00e3o haver for\u00e7a sequer para olhar para cima, a cabe\u00e7a teimava em fixar os olhos para o ch\u00e3o. O menino, ah o menino\u2026 estava l\u00e1, junto dela e, de vez em quando, ia na porta, olhava para a rua, depois entrava, ajoelhava no ch\u00e3o como se estivesse brincando com um carrinho, olhava para a mulher e seguia em sil\u00eancio pra l\u00e1 e pra c\u00e1.<!--more--><br \/>\nComo estava demorando o atendimento naquele dia, resolvi puxar conversa com a senhora, perguntei logo o que fazia ali, antes que me respondesse, ousei emendar outra pergunta: \u2013 \u00e9 o filho da senhora que est\u00e1 preso? Com um olhar constrangido, ela levantou a cabe\u00e7a e respondeu: \u201c- \u00e9 minha filha, a m\u00e3e dele!\u201d, passando a m\u00e3o na cabe\u00e7a da crian\u00e7a, que me olhou como toda crian\u00e7a daquela idade que n\u00e3o entende o que \u00e9 um pres\u00eddio, salvo algumas exce\u00e7\u00f5es.<br \/>\nEm seguida, sem chamar a aten\u00e7\u00e3o do menino, perguntei o motivo, j\u00e1 imaginando que seria algum envolvimento com tr\u00e1fico, pois todos os dias milhares de mulheres se envolvem com esse tipo de crime, por conta de relacionamentos amorosos com homens ligados ao tr\u00e1fico, e acabam sendo presas, porque al\u00e9m de \u201ccompanheiras\u201d, elas se tornam traficantes tamb\u00e9m. Assim, como eu esperava, a resposta veio, baixinha e envergonhada\u2026 n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil para uma m\u00e3e conviver com uma situa\u00e7\u00e3o como esta.<br \/>\nAp\u00f3s alguns minutos de conversa e uma grande expectativa daquela mulher em aguardar o momento em que poderia ver sua filha, surge a agente penitenci\u00e1ria trazendo-a e, para minha surpresa, ela aparece com as m\u00e3os para tr\u00e1s com algemas do outro lado das grades que dividem a sala onde est\u00e1vamos.<br \/>\nAo ver a filha, a m\u00e3e se aproxima das grades para falar mais de perto, enquanto o menino colocava a m\u00e3o atrav\u00e9s delas para fazer um ato t\u00e3o comum a tantas pessoas, que \u00e9 o pedido da b\u00ean\u00e7\u00e3o. A sensa\u00e7\u00e3o que tive ao ver aquela cena era de indigna\u00e7\u00e3o misturada a uma ang\u00fastia profunda, o gesto do menino de tocar nos dedos da m\u00e3e e falar \u201cben\u00e7a m\u00e3e\u201d, me chocou! Me chocou tanto, porque aquela mulher teve que virar as costas para dar a prote\u00e7\u00e3o que o filho precisava, de uma forma desumana, pois por se encontrar j\u00e1 encarcerada, foi algemada como se pudesse de fato oferecer qualquer risco aos agentes que ali se encontravam.<br \/>\nNaquele momento, esqueci que era advogada, apenas me veio \u00e0 mente um sentimento materno de poder pegar aquela crian\u00e7a no colo, lev\u00e1-lo pra casa, olhar de frente pra ele e pegar na sua m\u00e3o e dizer: \u201cDeus te aben\u00e7oe meu filho!\u201d, com a consci\u00eancia da import\u00e2ncia da b\u00ean\u00e7\u00e3o dos pais na vida dos filhos.<br \/>\nAquela m\u00e3e, aquela av\u00f3, aquele menino, s\u00e3o v\u00edtimas de um pa\u00eds que n\u00e3o respeita a dignidade da pessoa humana, que viola frontalmente os direitos humanos, como a desnecessidade do uso de algemas naquele momento e local, e, principalmente, diante de uma crian\u00e7a que certamente crescer\u00e1 com uma imagem revoltante na mente, capaz de influenciar sua personalidade. Sempre que relembro este epis\u00f3dio, vem na mente um trecho da m\u00fasica de Chico Buarque chamada \u201cO Meu Guri\u201d, que fala o seguinte:<br \/>\n\u201c (\u2026) Olha a\u00ed! Olha a\u00ed!<br \/>\nOlha a\u00ed!<br \/>\nAi, o meu guri, olha a\u00ed!<br \/>\nOlha a\u00ed!<br \/>\n\u00c9 o meu guri e ele chega<br \/>\nChega suado e veloz do batente<br \/>\nTraz sempre um presente pra me encabular<br \/>\nTanta corrente de ouro, seu mo\u00e7o<br \/>\nQue haja pesco\u00e7o pra enfiar (\u2026)\u201d<\/p>\n<p>Que Deus aben\u00e7oe esta crian\u00e7a para que seu futuro n\u00e3o siga o ritmo desta m\u00fasica, tampouco se cumpra o que est\u00e1 escrito, que n\u00e3o carregue do mundo os piores tratos\u2026 em nome do Pai, do Filho e do Esp\u00edrito Santo, Am\u00e9m!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>*Por Sandra Carla C. 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