{"id":24357,"date":"2020-10-17T11:44:25","date_gmt":"2020-10-17T14:44:25","guid":{"rendered":"http:\/\/www.blogdomassinha.com.br\/v1\/?p=24357"},"modified":"2020-10-17T11:44:25","modified_gmt":"2020-10-17T14:44:25","slug":"pilera","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogdomassinha.com.br\/v1\/2020\/10\/17\/pilera\/","title":{"rendered":"\u201cPil\u00e9ra\u201d"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/www.blogdomassinha.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/nando-da-costa-lima.jpg\" class=\"gallery_colorbox\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-medium wp-image-2596\" src=\"http:\/\/www.blogdomassinha.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/nando-da-costa-lima-300x253.jpg\"  alt=\"nando da costa lima\" width=\"300\" height=\"253\" srcset=\"https:\/\/www.blogdomassinha.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/nando-da-costa-lima-300x253.jpg 300w, https:\/\/www.blogdomassinha.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/nando-da-costa-lima.jpg 540w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Por Nando da Costa Lima<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Apesar da idade avan\u00e7ada, Dona Epistolina era l\u00facida e podia se locomover com facilidade. S\u00f3 n\u00e3o podia beber bebida quente. A \u00fanica bebida que ela ainda podia degustar era a Jurubeba Le\u00e3o do Norte, ela at\u00e9 relacionava sua vitalidade com o melhor vinho composto do mundo. Mas quando tomava cacha\u00e7a, ficava insuport\u00e1vel, ficava t\u00e3o escrachada que foi o jeito parar. Tinha mais de quarenta anos que n\u00e3o bebia. Mas n\u00e3o \u00e9 todo dia que se faz 90 anos, e essa data tinha que ser comemorada na fazenda preferida da matriarca, a \u201cTr\u00eas Cancelas\u201d. Ela tinha mais energia que muita mulher jovem, n\u00e3o parava num canto! N\u00e3o precisava de ajuda pra nada, s\u00f3 n\u00e3o gostava de dirigir. Mas isto n\u00e3o era problema: como era muito rica, sempre tinha uma cambada de netos e afilhados pra lhe acompanhar. Ficava viajando de uma fazenda pra outra, tinha v\u00e1rias! Mas a preferida era a Tr\u00eas Cancelas, ali foi o palco de grandes festas: S\u00e3o Jo\u00e3o, batizados, casamentos, etc. Na fam\u00edlia tinha de tudo: cantor, ator, jogador de futebol, jogador de baralho, m\u00e9dico, pastor, pol\u00edtico, padre\u2026 Tinha at\u00e9 um artista pl\u00e1stico famoso que ia presentear a madrinha com um quadro de um nu art\u00edstico. E foi esse presente o respons\u00e1vel pelo mal entendido entre Dona Epistolina e suas filhas, netas, afilhados e convidados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A matriarca teve uma reca\u00edda e fundou na pinga, j\u00e1 tava empurrando o jipe. Falou o que devia e o que n\u00e3o devia, rasgou o verbo. Tudo come\u00e7ou quando o afilhado pintor tirou o pano que cobria a obra de arte. Dona Epistolina colocou a m\u00e3o na cabe\u00e7a e falou pro afilhado artista:<!--more--><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Meu filho, sua pintura me fez lembrar do jegue Pil\u00e9ra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os mais velhos tentaram evitar que Epistolina entrasse em mais detalhes da vida de Pil\u00e9ra, aquilo n\u00e3o pegava bem num almo\u00e7o festivo. Mas n\u00e3o teve jeito, ela j\u00e1 estava de p\u00e9 na cabeceira da mesa quilom\u00e9trica. Tinha que ser assim pra caber tanta gente. A velha aumentava o volume da voz quando bebia, parecia que tava com um megafone. Uma das filhas fez um sinal pra ela maneirar, foi a\u00ed que ela ficou retada. Mandou a filha \u201cse assuntar\u201d, sentar o rabo gordo na cadeira e ficar calada. Ela n\u00e3o queria ser interrompida enquanto falava, e amea\u00e7ou:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Se voc\u00eas n\u00e3o deixarem eu contar a hist\u00f3ria do Pil\u00e9ra, eu vou contar a hist\u00f3ria do Javan\u00eas que tinha um bar na Moranga &#8211; e deu um suspiro! (Essa era a hist\u00f3ria que a fam\u00edlia mais temia).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Depois da amea\u00e7a, ningu\u00e9m mais tentou interromper, e Dona Epistolina continuou a hist\u00f3ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 O jegue tem esse apelido porque uma vez um senhor de S\u00e3o Paulo, de passagem pela cidade, quando viu o jumento excitado correndo atr\u00e1s de uma \u00e9gua, n\u00e3o acreditou. Ficou abismado. Abriu os bra\u00e7os como se estivesse medindo e falou: \u201cDeve ser pilh\u00e9ria\u201d. A\u00ed o povo que tava em volta aproveitou e colocou esse nome no jegue \u201cPil\u00e9ra\u201d. \u201cPilh\u00e9ria\u201d \u00e9 coisa de paulista. Ele reinou absoluto nos mangueiros e ruas da cidade, ficou famoso por seu apetite sexual. E por ter um defeito na pata, n\u00e3o servia pro trabalho, mas todos sabiam de suas hist\u00f3rias. Nesse tempo, os jegues ainda eram usados pra transportar \u00e1gua pot\u00e1vel do Po\u00e7o Escuro, a \u00e1gua vinha em carotes. Tinham tamb\u00e9m os feirantes que se locomoviam e transportavam sua produ\u00e7\u00e3o em jegues, usavam cangalhas. E isso n\u00e3o tem muito tempo n\u00e3o &#8211; continuou Dona Epistolina da \u201cTr\u00eas Cancelas\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As filhas e netas ainda tentaram interromper mais uma vez:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 A\u00ed t\u00e1 bom, vov\u00f3. Para com esse neg\u00f3cio de jumento, conta outra hist\u00f3ria\u2026.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ent\u00e3o a velha fechou a cara, virou outra cacha\u00e7a e deu uma bronca conjunta em quem estava na festa:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Eu vou contar a hist\u00f3ria que eu quiser. Estou na minha casa, os incomodados que se retirem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A\u00ed ficou todo mundo quieto, escutando a hist\u00f3ria do famoso jumento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Pil\u00e9ra ficou famoso porque era muito bem dotado, pode at\u00e9 ser que aquele defeito na pata tenha ajudado na lenda, parecia que o bicho tinha cinco patas! Quando tinha feira ele aprontava, j\u00e1 derrubou muita barraca perseguindo as \u00e9guas usadas pelos feirantes. S\u00f3 parava quando alcan\u00e7ava seu objetivo. A prefeitura at\u00e9 tentou evitar esses incidentes prendendo Pil\u00e9ra no mangueirinho de Dona Zez\u00e9 quando era dia de feira. Mesmo assim, ele sempre dava um jeito de escapulir pra ir atr\u00e1s da tropa de feirantes. A meninada gostava de ver Pil\u00e9ra em a\u00e7\u00e3o, acho que era por isso que ele sempre fugia do mangueiro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A velha insistiu com a hist\u00f3ria do jegue e o povo que tava na mesa n\u00e3o podia falar nada. S\u00f3 um padre se levantou e saiu resmungando, j\u00e1 conhecia a hist\u00f3ria do jumento indecente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Tinha gente que falava que o jegue era encantado e que pertencia \u00e0 velha da Rua do Gancho. Teve dois amigos que viram Pil\u00e9ra voando com a velha na garupa. Nisso eu nunca acreditei. EU, Epistolina da Tr\u00eas Cancela, juro que nunca vi essa assombra\u00e7\u00e3o, \u00e9 inven\u00e7\u00e3o dos cachaceiros do Magassapo que mataram Pil\u00e9ra\u2026 Eles tiraram a vida do bicho por causa de uma aposta. Os biriteiros fizeram uma lista pra ver quem acertava o tamanho da ferramenta do famoso jumento. Muita gente da cidade arriscou um palpite, a bolada tava boa. E foi isso que empurrou o jegue pra morte: como ningu\u00e9m quis medir Pil\u00e9ra vivo, tiveram que abater o animal, coitadinho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Acabou de falar e caiu num choro profundo\u2026 A filha mais velha recriminou a m\u00e3e:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Como \u00e9 que a senhora tem coragem de chorar a morte de um jumento? Isto \u00e9 heresia!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 N\u00e3o \u00e9 por causa de Pil\u00e9ra n\u00e3o, minha filha. \u00c9 que eu me lembrei da minha juventude, e dos com\u00edcios e festas da vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 E qual foi a rela\u00e7\u00e3o da sua juventude com um jumento? T\u00e1 parecendo uma velha despudorada, que coisa feia!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 N\u00e3o fica enfezada comigo n\u00e3o, minha filha. Quando eu contei a hist\u00f3ria do jegue, os pensamentos da minha \u00e9poca de mo\u00e7a vieram todos de uma vez: festas, casamentos, Palmeira, com\u00edcios\u2026 Ui, minha nossa senhora.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 E quem \u00e9 esse Palmeira, m\u00e3e? Pelo que eu sei, o nome de papai era Astrogildo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Deixa essa conversa pra l\u00e1, Palmerinda, foi a cacha\u00e7a que misturou tudo nos meus pensamentos. Apareceram hist\u00f3rias que estavam escondidas no por\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quem estava presente notou que o semblante de Dona Epistolinda era o de uma menina de 20 anos. Viajou longe, foi no melhor lugar de sua vida ao se lembrar de uma simples hist\u00f3ria. \u00c9 claro que a cacha\u00e7a deu uma for\u00e7a. Ningu\u00e9m falou mais nada naquele dia, foram todos embora com Pil\u00e9ra na cabe\u00e7a. S\u00f3 ficaram sabendo que o ganhador da aposta morava na Rua do \u201cMot\u00f4\u201d. A filha n\u00e3o deixou a velha falar nem a metragem, nem quem mediu.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao meu amigo \u201cPirigoso\u201d<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Nando da Costa Lima Apesar da idade avan\u00e7ada, Dona Epistolina era l\u00facida e podia se locomover com facilidade. S\u00f3 n\u00e3o podia beber bebida quente. A \u00fanica bebida que ela ainda podia degustar era a Jurubeba Le\u00e3o do Norte, ela at\u00e9 relacionava sua vitalidade com o melhor vinho composto do mundo. 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