{"id":22962,"date":"2020-07-20T12:30:49","date_gmt":"2020-07-20T15:30:49","guid":{"rendered":"http:\/\/www.blogdomassinha.com.br\/v1\/?p=22962"},"modified":"2020-07-20T12:30:49","modified_gmt":"2020-07-20T15:30:49","slug":"ja-nao-ouvimos-mais-os-acordes-dos-instrumentos-de-ronaldo-silva-ele-partiu","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogdomassinha.com.br\/v1\/2020\/07\/20\/ja-nao-ouvimos-mais-os-acordes-dos-instrumentos-de-ronaldo-silva-ele-partiu\/","title":{"rendered":"J\u00e1 n\u00e3o ouvimos mais os acordes dos instrumentos de Ronaldo Silva, ele partiu"},"content":{"rendered":"<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><em><span class=\"s1\"><a href=\"http:\/\/www.blogdomassinha.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/0988E193-E438-494F-9DD3-67097012D122.jpeg\" class=\"gallery_colorbox\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-medium wp-image-22964\" src=\"http:\/\/www.blogdomassinha.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/0988E193-E438-494F-9DD3-67097012D122-300x300.jpeg\"  alt=\"0988E193-E438-494F-9DD3-67097012D122\" width=\"300\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/www.blogdomassinha.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/0988E193-E438-494F-9DD3-67097012D122-300x300.jpeg 300w, https:\/\/www.blogdomassinha.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/0988E193-E438-494F-9DD3-67097012D122-150x150.jpeg 150w, https:\/\/www.blogdomassinha.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/0988E193-E438-494F-9DD3-67097012D122-1024x1024.jpeg 1024w, https:\/\/www.blogdomassinha.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/0988E193-E438-494F-9DD3-67097012D122.jpeg 1080w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><\/span><\/em><span class=\"s1\">O jornalista F\u00e1bio Sena relata com saudades o que significou a partida prematura do m\u00fasico Ronaldo Silva, v\u00edtima da Covid-19 aos 37 anos. Mais uma v\u00edtima desse inimigo mortal que muita gente ignora e subestima.<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s1\">O \u00fanico consolo \u00e9 que Fabinho testemunha que Ronaldo viveu intensamente:<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><em><span class=\"s1\">\u201cRonaldo do Sax, um amigo-irm\u00e3o que partiu<\/span><\/em><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><em><span class=\"s1\">Ronaldo Silva, ou Ronaldo do Sax \u2013 para n\u00f3s, amigos pr\u00f3ximos, apenas Ronaldinho \u2013 era uma interroga\u00e7\u00e3o ambulante. Era um sujeito que perguntava o tempo todo. Que buscava coer\u00eancia nas coisas. \u201cVenha c\u00e1, velho, esse cara \u00e9 doido, \u00e9?\u201d. Era a senha para iniciar uma sess\u00e3o filos\u00f3fica que, dependendo dele, vararia horas e at\u00e9 dias. Ele simplesmente n\u00e3o admitia a n\u00e3o-resposta, ou o sil\u00eancio como resposta. Mergulhava, ora na leitura, ora na solid\u00e3o, para interpretar a vida, para conhec\u00ea-la, sempre na esperan\u00e7a de t\u00ea-la entre os dedos, de domin\u00e1-la. <\/span><\/em><!--more--><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><em><span class=\"s1\">Intenso, ele irradiava vida. Como Belchior, tinha um cora\u00e7\u00e3o selvagem e uma terr\u00edvel pressa de viver. Com seu som e sua f\u00faria, Ronaldo sempre deixou de lado a certeza e arriscava-se em tudo de novo, com paix\u00e3o. \u00c0s vezes, ele simplesmente desaparecia. Quando \u00edamos saber, estava tocando com a orquestra de Fred Dantas, em Salvador. Ou estava em Pernambuco, ou no Maranh\u00e3o. Ou em S\u00e3o Paulo. Guiado sempre pela paix\u00e3o ao instrumento, pela m\u00fasica, \u00fanica raz\u00e3o de sua exist\u00eancia, sabemos todos n\u00f3s que o conhecemos.<\/span><\/em><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><em><span class=\"s1\">Pass\u00e1vamos tardes inteiras em sua casa, no bairro Patag\u00f4nia, ouvindo e discutindo m\u00fasica. Seu quarto era uma esp\u00e9cie de caverna ac\u00fastica, um esconderijo, lugar de fuga. Foi Ronaldinho quem me apresentou e me presenteou com Raw Magic, obra-prima do bluesman Magic Slim, vinil que depois circulou nas m\u00e3os de Maur\u00edcio, Alberto, Dernival, Ronaldo e que virou trilha sonora em centenas de nossas aventuras. Ex\u00edmio leitor de partitura e dono de um privilegiado ouvido, Ronaldinho gastava horas explicando os acordes, as entradas, as harmonias. Eu n\u00e3o entendia nada.<\/span><\/em><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><em><span class=\"s1\">Provavelmente em passaria a vida sabendo de Sinead O&#8217;Connor apenas de seus sucessos populares, como Nothing Compares 2 You. Ent\u00e3o, Ronaldinho me apresenta \u200eAm I Not Your Girl? e pergunta, com aquela gargalhada que lhe era t\u00edpica: \u201cDiz a\u00ed, sacana, quem t\u00e1 cantando nesse disco?\u201d. Demorou muito at\u00e9 que eu pudesse associar aquele jazz todo a Sinead O&#8217;Connor. Outra obra que passou a integrar em definitivo nossa trilha sonora. Seguramente, um dos melhores \u00e1lbuns de jazz da hist\u00f3ria da m\u00fasica. Devo isso a ele.<\/span><\/em><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><em><span class=\"s1\">Muitos tiveram o prazer de ouvir Ronaldo tocando saxofone. E ele era um craque. Mas poucos puderam curti-lo na intimidade da guitarra, para mim, seu instrumento predileto. Ronaldinho tinha a leveza dos melhores jazzistas. Pousava a m\u00e3o sobre as cordas da guitarra e deixava-se, livre, ver a m\u00fasica fluir. Solava e fazia acordes desconcertantes. Tratava-me sempre como se eu tivesse qualquer no\u00e7\u00e3o do que ele fazia ou falava. Eu apenas gostava de ouvir a m\u00fasica. N\u00e3o entendia nada. \u201c\u00d3, sacana, esse acorde aqui \u00e9 fogo pra fazer&#8230;\u201d e destinava seu tempo a falar sobre a composi\u00e7\u00e3o daquele acorde, o som&#8230;<\/span><\/em><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><em><span class=\"s1\">Tamb\u00e9m era ex\u00edmio violonista. Tinha seu pr\u00f3prio estilo. Demorava-se horas me ensinando algumas dissonantes. Ouvido privilegiado, tirava as can\u00e7\u00f5es de ouvido. \u00c0s revistinhas de m\u00fasica cifrada compradas nas bancas, ele tinha desprezo. \u201cIsso a\u00ed tudo errado, Fabinho. Onde \u00e9 que esse cara achou esse acorde aqui?\u201d. Junto com Maur\u00edcio, meu irm\u00e3o, fazia verdadeiras mis\u00e9rias musicais. Ambos ao viol\u00e3o. Ou com viol\u00e3o e baixo. Ou com baixo e guitarra. Musicalmente, se entendiam perfeitamente. Quando cansava, tirava um monumental cochilo na rede.<\/span><\/em><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><em><span class=\"s1\">Foram quase trinta anos de conv\u00edvio. E devo muito a Ronaldinho. Muito mesmo. Foi ele quem, de forma direta, me jogou no mundo do jornalismo. Em 1998, ele trabalhava como cabelereiro com Zenon (com quem \u2018inda hoje corto cabelo), no sal\u00e3o que, \u00e0 \u00e9poca, ficava ali em frente ao Mercado das Flores, na Laudiceia Gusm\u00e3o. E era costume almo\u00e7armos juntos em minha casa, para tocar viol\u00e3o e conversar sobre m\u00fasica. Minha fam\u00edlia tinha uma padaria e n\u00e3o havia, em meu horizonte, qualquer pensamento sobre trabalho naquela \u00e1rea.<\/span><\/em><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><em><span class=\"s1\">\u201c\u00d4, Fabinho, voc\u00ea que gosta a\u00ed desse neg\u00f3cio de cultura, de literatura, tem um cabra precisando de um rep\u00f3rter pro jornal dele. Ele corta cabelo comigo. Voc\u00ea n\u00e3o quer ver com ele, n\u00e3o?\u201d. Insistiu tanto que fui ao sal\u00e3o, onde encontrei Gild\u00e1sio Amorim Fernandes, editor do seman\u00e1rio O Munic\u00edpio, com quem marquei imediatamente uma conversa na reda\u00e7\u00e3o do jornal, iniciando assim meus escritos. Estar no mundo jornal\u00edstico, para mim uma esp\u00e9cie de miss\u00e3o existencial, \u00e9 d\u00edvida que jamais pagarei a Ronaldinho.<\/span><\/em><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><em><span class=\"s1\">Depois de um certo tempo, nos vimos cada vez menos. Mas sempre que ele vinha a Conquista nos encontr\u00e1vamos. Fui sempre algu\u00e9m com quem ele se abriu totalmente. Falava de sua vida sem nenhuma cerim\u00f4nia. Das alegrias e tristezas, das dificuldades financeiras, dos amores, das paix\u00f5es \u2013 e eram sempre paix\u00f5es intensas, inteiras, nunca pela metade. Hoje ele partiu e me parece n\u00e3o haver raz\u00e3o para entristecer-me. \u00c0 mem\u00f3ria me vem sempre a imagem de algu\u00e9m que se derramou inteiro na vida. No curto tempo que esteve por aqui, jamais tergiversou com a exist\u00eancia. Teve com a vida conversas francas e deu-se a ela de forma plena.<\/span><\/em><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><em><span class=\"s1\">Ronaldinho era um amigo-irm\u00e3o, uma luz. Um sujeito para quem a m\u00fasica era uma miss\u00e3o. Certamente, no outro plano, para o qual migrou, voltou a ser acorde, solfejo ou clave. Se voltou a ser m\u00fasica, certamente \u00e9 uma bel\u00edssima pe\u00e7a de jazz. Para celebrar sua partida, deixo aos amigos Take Five, de Dave Brubeck, que ele tanto admirava e que foi trilha de tantas conversas nossas.\u201d<\/span><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O jornalista F\u00e1bio Sena relata com saudades o que significou a partida prematura do m\u00fasico Ronaldo Silva, v\u00edtima da Covid-19 aos 37 anos. Mais uma v\u00edtima desse inimigo mortal que muita gente ignora e subestima. 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