{"id":21954,"date":"2020-05-03T16:43:30","date_gmt":"2020-05-03T19:43:30","guid":{"rendered":"http:\/\/www.blogdomassinha.com.br\/v1\/?p=21954"},"modified":"2020-05-03T16:43:30","modified_gmt":"2020-05-03T19:43:30","slug":"leitor-oculto-nos-envia-um-texto-para-reflexao-leia-e-posicione-se","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogdomassinha.com.br\/v1\/2020\/05\/03\/leitor-oculto-nos-envia-um-texto-para-reflexao-leia-e-posicione-se\/","title":{"rendered":"Leitor oculto nos envia um texto para reflex\u00e3o. Leia e posicione-se!"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/www.blogdomassinha.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/SAVE_20200503_164502_compress84.jpg\" class=\"gallery_colorbox\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-medium wp-image-21955\" src=\"http:\/\/www.blogdomassinha.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/SAVE_20200503_164502_compress84-300x226.jpg\"  alt=\"SAVE_20200503_164502_compress84\" width=\"300\" height=\"226\" srcset=\"https:\/\/www.blogdomassinha.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/SAVE_20200503_164502_compress84-300x226.jpg 300w, https:\/\/www.blogdomassinha.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/SAVE_20200503_164502_compress84.jpg 1024w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Hoje fui \u00e0 Pracinha do Gil passear com a filhinha ca\u00e7ula e tamb\u00e9m com a netinha mais nova. Fomos em busca de raios solares e tamb\u00e9m apreciar um pouco daquele espa\u00e7o que tantas alegrias vivemos ali durante as nossas micaretas. Motivado por uma possibilidade de conhecer o nosso Leitor Oculto que me garantira que l\u00e1 estaria para conhecermos um ao outro e quebrar de vez esse mist\u00e9rio, apressei-me em colocar a m\u00e1scara, fazer o mesmo com as pequenas, e segui para a buc\u00f3lica pra\u00e7a que \u00e9 a cara da alegria do conquistense.<!--more--><br \/>\nAo abrir o celular deparei com a seguinte mensagem do meu interlocutor mandrake: \u201cinfelizmente n\u00e3o chegarei a tempo, estou parado \u00e0s margens do Rio Verruga, pr\u00f3ximo ao s\u00edtio do professor Matheus Silveira ouvindo o correr das \u00e1guas. Que coisa linda, mesmo sujas como est\u00e3o, n\u00e3o me contive, fechei os olhos e abri os ouvidos, deixemos para a pr\u00f3xima.<br \/>\nSegue o que me disse o meu Leitor Invis\u00edvel:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n&#8220;Este \u00e9 um Governo Extraordin\u00e1rio. Come\u00e7ou com um forte combate \u00e0 imoralidade e agora se alia a esc\u00f3ria da pol\u00edtica brasileira, o CENTR\u00c3O.<br \/>\nBom dia, Companheiro Massinha!<br \/>\nNestes momentos dif\u00edceis da vida pol\u00edtica, econ\u00f4mica, social e de crise no sistema de sa\u00fade do nosso pa\u00eds provocado pelo Coronav\u00edrus, encaminho para voc\u00ea este apropriado texto de autoria de THIAGO DIAS DA SILVA, doutor em Filosofia pela USP, para voc\u00ea ler e publicar em seu Blog, dirigindo-o principalmente para os que ele chama de \u201cNe\u00f3fitos na Pol\u00edtica\u201c que as vezes ocupam os espa\u00e7os do seu Blog e da R\u00e1dio Transamerica, programa Agito Geral, em apologia do Bolsonarismo, e democraticamente cedido por voc\u00ea!<br \/>\nUm forte abra\u00e7o!&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><strong>A fil\u00f3sofa Hannah Arendt na d\u00e9cada de 1960 <\/strong><\/em><br \/>\n<em><strong>\u00a0<\/strong><\/em><br \/>\n<em>Tem sido comum o recurso ao pensamento de Hannah Arendt para compreender o fen\u00f4meno Bolsonaro e, de modo mais amplo, o sucesso de certo tipo de direita ao redor do mundo. O recurso \u00e9 valioso e deve ser estimulado, mas enfrenta uma dificuldade espec\u00edfica, pois as brilhantes an\u00e1lises da autora levam a compara\u00e7\u00f5es f\u00e1ceis demais com os anos 1930 e \u00e0 tenta\u00e7\u00e3o de denunciar como \u201ctotalit\u00e1rio\u201d qualquer movimento autorit\u00e1rio. Este equ\u00edvoco impede a observa\u00e7\u00e3o precisa do que est\u00e1 acontecendo hoje e, diante deste risco, \u00e9 necess\u00e1rio afirmar de sa\u00edda: se tomarmos Arendt como refer\u00eancia, o movimento que levou Bolsonaro ao poder n\u00e3o \u00e9 um movimento totalit\u00e1rio, e seu governo n\u00e3o parece ter muitas condi\u00e7\u00f5es de se converter em um governo totalit\u00e1rio. Isto n\u00e3o quer dizer que est\u00e1 tudo bem, evidentemente, pois h\u00e1 ind\u00edcios de que o atual governo pode se tornar especialmente autorit\u00e1rio ou mesmo desembocar em uma ditadura. O ponto \u00e9 que falta ao bolsonarismo uma s\u00e9rie de elementos que permitiriam caracteriza-lo como totalit\u00e1rio, a come\u00e7ar pela aus\u00eancia de um l\u00edder apto e de uma ideologia totalizante, pretensamente capaz de explicar o curso da hist\u00f3ria humana desde o in\u00edcio dos tempos at\u00e9 a grande supera\u00e7\u00e3o final.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>A fragilidade do l\u00edder, notada por alguns j\u00e1 \u00e0 \u00e9poca da prepara\u00e7\u00e3o da candidatura, \u00e9 hoje patente. Sua autoridade \u00e9 abertamente disputada por um vice mais preparado, por filhos ambiciosos, pela autoridade t\u00e9cnica do ministro da Economia, pela (suspeita) autoridade moral do ministro da Justi\u00e7a e pela autoridade m\u00edstica e intelectual de um guru. Esta disputa no governo expressa ainda a not\u00e1vel falta de unidade ideol\u00f3gica do bolsonarismo, pois \u00e9 sustentado por ao menos quatro fra\u00e7\u00f5es muito distintas entre si: liberais, militares, um baixo clero da pol\u00edtica institucional e uma fra\u00e7\u00e3o meio amalucada formada por seguidores do tal guru.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>O \u00fanico elemento comum aos membros deste confuso balaio de gatos \u00e9 a nega\u00e7\u00e3o de tudo aquilo que o PT, justa ou injustamente, passou a simbolizar na cena p\u00fablica: esquerda, sistema, corrup\u00e7\u00e3o, democracia, Estado, crise econ\u00f4mica, direitos humanos, comunismo globalista. Ou seja, mesmo a \u201csolidariedade negativa\u201d que cimenta o bolsonarismo \u00e9 insustentavelmente heterog\u00eanea e, portanto, inteiramente incapaz de formar os conte\u00fados positivos de uma ideologia coesa \u2014 quanto menos totalizante! \u2014 capaz de conferir um rumo determinado ao movimento e ao governo.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Isto n\u00e3o significa, evidentemente, que a an\u00e1lise dos acontecimentos dos anos 1930 contida em As origens do totalitarismo seja in\u00fatil para a compreens\u00e3o do presente. O ponto \u00e9 que o livro n\u00e3o oferece padr\u00f5es de repeti\u00e7\u00e3o pol\u00edtica ou hist\u00f3rica, mas a identifica\u00e7\u00e3o e a descri\u00e7\u00e3o de elementos que cristalizaram em dois governos totalit\u00e1rios, o de Hitler e o de St\u00e1lin. Alguns destes elementos sobreviveram ao fim destes dois governos e, se observados de perspectiva adequada, ganham sentido para n\u00f3s porque ainda est\u00e3o entre n\u00f3s e provavelmente permanecer\u00e3o a\u00ed por longo tempo. Faz-se necess\u00e1rio, portanto, identificar com clareza estes elementos e revelar-lhes o sentido.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Dentre os elementos decisivos para a compreens\u00e3o do presente, parece-me importante destacar o papel conferido por Arendt aos indiferentes, ou seja, \u00e0 enorme massa de pessoas para as quais a cena p\u00fablica normalmente n\u00e3o desperta interesse. A figura do indiferente se refere a um tipo marcado por uma postura moral, da qual n\u00e3o tratarei aqui, e por uma postura pol\u00edtica; ou melhor, uma postura n\u00e3o-pol\u00edtica. Presente em todas as classes, o indiferente \u00e9 aquele que, tendo passado a totalidade de sua exist\u00eancia fechado sobre si mesmo e sobre os seus, ocupando-se exclusivamente com a manuten\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria vida, permaneceu sempre distante do mundo e do que \u00e9 comum a todos, de modo que ele \u00e9 completamente ignorante a respeito do funcionamento do espa\u00e7o p\u00fablico e do tempo que o estrutura. Tendo garantida aquela liberdade de tipo negativa, que separa sua casa do restante do mundo, e tendo garantida a possibilidade de trabalhar para se manter e talvez prosperar, esta figura \u00e9 indiferente a tudo o que se passa \u201cl\u00e1 longe, no mundo\u201d.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Uma mudan\u00e7a nesta indiferen\u00e7a foi fundamental para os acontecimentos dos anos 1930, pois os movimentos nazista e comunista \u201crecrutaram seus membros nesta massa de pessoas aparentemente indiferentes e que haviam sido abandonadas pelos demais partidos por serem demasiado ap\u00e1ticas ou est\u00fapidas para merecer aten\u00e7\u00e3o. Resultou disto que a maioria dos membros era formada por pessoas que nunca antes haviam aparecido na cena pol\u00edtica\u201d, escreve Arendt em As origens do totalitarismo. Ou seja, os indiferentes se tornaram um problema porque repentinamente \u201cadquiriram apetite por organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica\u201d e apareceram na cena p\u00fablica, moveram-se de fora para dentro do espa\u00e7o p\u00fablico.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Mas, ao contr\u00e1rio do que pode parecer \u00e0 primeira vista, o problema n\u00e3o est\u00e1 na entrada destas pessoas em cena, e sim na reclus\u00e3o, t\u00edpica da modernidade, aos interesses e v\u00edcios privados, que at\u00e9 pode resultar em benef\u00edcios econ\u00f4micos para o conjunto da sociedade, mas traz consigo tamb\u00e9m a forma\u00e7\u00e3o deste enorme e indefinido contingente de pessoas que ignoram completamente o sentido da pol\u00edtica e o funcionamento do espa\u00e7o p\u00fablico. Ou seja, o problema est\u00e1 na forma\u00e7\u00e3o cont\u00ednua desta massa localizada bem ao lado da cena p\u00fablica e composta por milh\u00f5es de indiv\u00edduos que s\u00e3o, no sentido original do termo, perfeitamente idiotas \u2013 em grego, idios quer dizer \u201cpropriedade\u201d, em oposi\u00e7\u00e3o ao que \u00e9 comum, donde idi\u014dt\u0113s, que \u00e9 \u201cpropriet\u00e1rio\u201d e, em oposi\u00e7\u00e3o ao homem p\u00fablico, \u00e9 \u201cestranho aos of\u00edcios\u201d, portanto \u201cn\u00e3o versado\u201d, \u201cignorante\u201d, \u201cvulgar\u201d.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Projetando sobre o espa\u00e7o p\u00fablico o funcionamento do espa\u00e7o privado, os indiferentes gritam, aos montes, que os problemas da economia nacional se resolvem se todos acordarem mais cedo para trabalhar, que as quest\u00f5es sociais se sanam com castigos mais severos. Insens\u00edveis ao tempo da pol\u00edtica, acreditam que grandes mudan\u00e7as exigem apenas o tempo de demonstra\u00e7\u00e3o de suas verdades, creem no fim instant\u00e2neo da corrup\u00e7\u00e3o e nos efeitos imediatos de leis moralizantes. Sem a m\u00ednima no\u00e7\u00e3o do que \u00e9 poss\u00edvel realizar dentro do espa\u00e7o p\u00fablico, acreditam que um vereador pode acabar com a nudez das artes, que o jornalismo deve entregar bandidos e corruptos \u00e0 pol\u00edcia, que seus filhos se tornar\u00e3o bons alunos porque o presidente prometeu educa\u00e7\u00e3o r\u00edgida.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Todo este apetite por grandes mudan\u00e7as esbarra, evidentemente, na realidade do corpo pol\u00edtico, que, para a surpresa dos ne\u00f3fitos, n\u00e3o cede imediatamente a estes empurr\u00f5es. Diante da resili\u00eancia do real, os indiferentes, incapazes de distinguir o que veem, n\u00e3o sabem se os obst\u00e1culos v\u00eam do status quo, de advers\u00e1rios ou da simples impossibilidade do que querem, e terminam por ver, em cada dificuldade, a a\u00e7\u00e3o de um abstrato \u201csistema\u201d contra o qual \u00e9 necess\u00e1rio \u201cfazer alguma coisa\u201d, do que resulta uma luta confusa contra s\u00edmbolos de um sistema que n\u00e3o sabem exatamente o que \u00e9 e nem onde est\u00e1.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Arendt chama esta luta de ativismo, negando-lhe o conceito de \u201ca\u00e7\u00e3o\u201d, muito mais nobre em seu pensamento. Para a autora, a a\u00e7\u00e3o \u00e9 uma atividade necess\u00e1ria porque os humanos s\u00e3o todos diferentes entre si e precisam estabelecer consensos em v\u00e1rios n\u00edveis, o que faz dela a atividade pol\u00edtica por excel\u00eancia. Mas, para que a a\u00e7\u00e3o efetivamente ocorra, \u00e9 necess\u00e1rio haver um espa\u00e7o em que as diferen\u00e7as se tornem vis\u00edveis a quem o frequenta, um espa\u00e7o capaz de receber a pluralidade de atos e palavras de agentes identific\u00e1veis; enfim, \u00e9 necess\u00e1rio um espa\u00e7o p\u00fablico. Os agentes, para agir de modo eficaz, devem considerar a pluralidade essencial do p\u00fablico, escolher o tempo certo e os meios adequados \u00e0 a\u00e7\u00e3o, ou seja, a a\u00e7\u00e3o exige capacidade de se mover no espa\u00e7o p\u00fablico, senso de oportunidade, percep\u00e7\u00e3o das diferen\u00e7as, conhecimento dos meios, coragem e, sobretudo, disposi\u00e7\u00e3o para sair do espa\u00e7o privado em dire\u00e7\u00e3o ao p\u00fablico. Ela exige, portanto, tudo aquilo que falta a quem passa a exist\u00eancia indiferente ao mundo.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Os indiferentes de hoje s\u00e3o parecidos com os dos anos 1930, mas o surgimento das redes sociais alterou o espa\u00e7o em que realizam seu ativismo. Antes, a express\u00e3o de um mal-estar causado em um indiv\u00edduo por uma not\u00edcia lida no jornal \u00e0 mesa do caf\u00e9 alcan\u00e7ava os membros da fam\u00edlia ali presentes, chegava a alguns colegas de trabalho, talvez a alguns amigos, e s\u00f3 muito raramente cruzava a linha do espa\u00e7o privado ganhando apar\u00eancia p\u00fablica. Isto porque, para ir ao p\u00fablico, seria necess\u00e1rio sair do c\u00edrculo privado, formar alian\u00e7as com pessoas incomodadas e dispostas a se mexer, identificar o lugar e o momento certo de cada passo, esperar os resultados, enfrentar as resist\u00eancias. Ou seja, seria necess\u00e1rio agir, atividade que exige muito e nem sempre vale a pena. Com as redes sociais, no entanto, surgiu uma forma de ativismo que se d\u00e1 pelo consumo e compartilhamento de imagens, que tem efeitos imediatos, n\u00e3o exige rela\u00e7\u00e3o com as diferen\u00e7as e, embora se d\u00ea de dentro da esfera privada, garante alguma apar\u00eancia na cena p\u00fablica. Sem ser exatamente p\u00fablico nem privado, o espa\u00e7o das redes sociais permite que os indiferentes, sem perturbar sua liberdade negativa, exer\u00e7am forte press\u00e3o sobre a cena p\u00fablica, sobre o espa\u00e7o onde se faz a pol\u00edtica.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Nos anos 1930, foi poss\u00edvel a alguns l\u00edderes convocar os novatos e formar aquelas massas cujas imagens nos impressionam ainda hoje. Atualmente, o marketing pol\u00edtico, servindo-se de certas ferramentas capazes de individualizar a oferta de produtos a consumidores, aperfei\u00e7oou suas t\u00e9cnicas, tornando-as capazes de controlar mais estritamente o que se v\u00ea ou deixa de ver nas redes, do que resulta um hist\u00e9rico ativismo fundado em imagens fabricadas para pequenos grupos e n\u00e3o naquilo que est\u00e1 no mundo e aparece para todos os que o frequentam. H\u00e1beis marqueteiros, de dentro de seus escrit\u00f3rios, t\u00eam obtido grande sucesso em excitar e acalmar grandes quantidades de indiv\u00edduos atomizados que, sem sair do espa\u00e7o privado, t\u00eam dado apar\u00eancia a todos os seus inc\u00f4modos e, evidentemente, formulado e exigido grandes mudan\u00e7as para solucionar seus problemas. A esta altura dos fatos, a press\u00e3o exercida por esta forma de ativismo sobre o espa\u00e7o p\u00fablico \u00e9 vis\u00edvel na radicaliza\u00e7\u00e3o, nas polariza\u00e7\u00f5es, na frequ\u00eancia das afirma\u00e7\u00f5es delirantes, e a eficiente manipula\u00e7\u00e3o de mensagens de WhatsApp na reta final da campanha de Bolsonaro (assim como o caso Cambridge Analytica) exemplifica o uso eleitoral desta forma de recrutamento.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Deste ponto de vista, a forma pol\u00edtica de parte do bolsonarismo parece mais perigosa do que o conte\u00fado conservador que o anima (um conte\u00fado que, lembremos, n\u00e3o \u00e9 exatamente uma novidade no Brasil), pois ela se caracteriza pela entrada na esfera p\u00fablica de milh\u00f5es de indiferentes excitados e convocados ao ativismo de redes sociais. Por ter como centro um indiv\u00edduo muito parecido com um indiferente, foi especialmente f\u00e1cil fabricar, a partir da estupidez de Jair, uma imagem de \u201cantissistema\u201d e, assim, atrair os indiferentes. Mas \u00e9 perfeitamente poss\u00edvel fabricar outras imagens (de esquerda, inclusive) capazes de exercer press\u00e3o perigosa sobre o espa\u00e7o onde fazemos pol\u00edtica. De um ponto de vista arendtiano, portanto, o bolsonarismo \u00e9 uma nova cristaliza\u00e7\u00e3o de certos elementos antipol\u00edticos do mundo moderno, pois tem, entre suas origens, a silenciosa massa de indiferentes e este recente ativismo digital que, ao que parece, tamb\u00e9m veio para ficar.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>THIAGO DIAS DA SILVA<\/strong> \u00e9 doutor em filosofia pela USP, membro do Centro de Estudos Hannah Arendt e pesquisador do Centro de Estudos Hannah Arendt da Faculdade de Direito USP<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Hoje fui \u00e0 Pracinha do Gil passear com a filhinha ca\u00e7ula e tamb\u00e9m com a netinha mais nova. Fomos em busca de raios solares e tamb\u00e9m apreciar um pouco daquele espa\u00e7o que tantas alegrias vivemos ali durante as nossas micaretas. 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