{"id":21793,"date":"2020-04-19T16:34:32","date_gmt":"2020-04-19T19:34:32","guid":{"rendered":"http:\/\/www.blogdomassinha.com.br\/v1\/?p=21793"},"modified":"2020-04-19T16:34:32","modified_gmt":"2020-04-19T19:34:32","slug":"ciprestes-para-ronaldo-pinto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogdomassinha.com.br\/v1\/2020\/04\/19\/ciprestes-para-ronaldo-pinto\/","title":{"rendered":"CIPRESTES (PARA RONALDO PINTO)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/www.blogdomassinha.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/SAVE_20200418_094726.jpg\" class=\"gallery_colorbox\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-medium wp-image-21744\" src=\"http:\/\/www.blogdomassinha.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/SAVE_20200418_094726-225x300.jpg\"  alt=\"SAVE_20200418_094726\" width=\"225\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/www.blogdomassinha.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/SAVE_20200418_094726-225x300.jpg 225w, https:\/\/www.blogdomassinha.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/SAVE_20200418_094726-768x1024.jpg 768w, https:\/\/www.blogdomassinha.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/SAVE_20200418_094726.jpg 774w\" sizes=\"(max-width: 225px) 100vw, 225px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Por Valdir Barbosa<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando o filho de Seu Zoroastro descia, logo cedo, em r\u00e1pidas passadas, a Rua Coronel Gug\u00e9, para abrir a loja herdada do pai e fundada h\u00e1 mais de oitenta anos, antes que acessasse o famoso Beco da Tesoura era poss\u00edvel ver bigode farto que escondia um sorriso enigm\u00e1tico, pr\u00f3prio dele mesmo. Em verdade, durante muito tempo, a Casa Cipreste foi local onde se comprava eletrodom\u00e9sticos e realizava conserto de ferros el\u00e9tricos, \u00e9poca na qual, n\u00e3o eram praticamente descart\u00e1veis tais utens\u00edlios.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sua rotina di\u00e1ria, de segunda a sexta e nos s\u00e1bados, pela manh\u00e3, consistia na aten\u00e7\u00e3o aos clientes, muitos deles fidel\u00edssimos, aos quais, durante d\u00e9cadas serviu com distinta educa\u00e7\u00e3o, tra\u00e7o da sua polidez admir\u00e1vel. \u00c0s vezes, nos hiatos da atividade laboral era poss\u00edvel v\u00ea-lo sentado num banco, costumeiramente postado quase em frente ao seu estabelecimento, em longas conversas triviais, com velhos amigos frequentadores do lugar.<!--more--><br \/>\nOs assuntos, via de regra caminhavam na esteira das novidades do dia a dia interiorano, da pol\u00edtica local, estadual e nacional, do esporte preferido pelos brasileiros, o futebol, n\u00e3o sendo exce\u00e7\u00e3o tal favoritismo nas plagas conquistenses, afora, em tempos das vit\u00f3rias memor\u00e1veis dos irm\u00e3os Nogueira, Minotauro e Minotouro, \u00edcones mundiais do MMA.<br \/>\nNa \u00e9poca de Naldo e Piolho, \u00e9poca em que o time da cidade brilhou nos gramados de toda Bahia, a euforia era contagiante na cidade serrana, portanto, a confraria do Beco da Tesoura tamb\u00e9m embarcava na energia do entusiasmo, frente as vit\u00f3rias do Conquista, mas, se diga de passagem, nem mesmo no apogeu dos filhos de Ninha Brito, os g\u00eameos Z\u00f3 e Kel, sobrinhos da figura de quem trato nestas saudosas linhas, futebolistas que brilharam nas canchas, dentro e fora do estado, as manifesta\u00e7\u00f5es efusivas daquele homem extrapolaram limites.<br \/>\nSim, porque personalidade de educa\u00e7\u00e3o esmerada, fino trato, voz firme, mas comedida, jamais, desde quando pude conhec\u00ea-lo, no crep\u00fasculo dos anos setenta consegui testemunhar qualquer postura desregrada, atitude deselegante, desrespeitosa, agressiva, ou destemperada, por parte dele, mesmo nos momentos de lazer e festa, nas horas de folga, mormente, \u00e0s memor\u00e1veis tardes de s\u00e1bado, ou manh\u00e3s de domingo daqueles tempos idos.<br \/>\nArrisco dizer, desafiando a mem\u00f3ria desse quase septuagen\u00e1rio, t\u00ea-lo conhecido atrav\u00e9s do menestrel Chico Viola, Iris Silveira, rei da voz das alterosas baianas. Posso tamb\u00e9m ter sido apresentado a ele por Chico Preto, Chico das Joias, personagem a quem vi muitas vezes, na casa Cipreste, numa daquelas vezes que passei por ali, ainda muito jovem.<br \/>\nTenha sido levado conhec\u00ea-lo diante de qualquer um dos dois \u201cchicos\u201d, ou outra qualquer pessoa a quem olvido, a mem\u00f3ria destes citados, me remete a toda sensibilidade escondida naquela apar\u00eancia circunspecta de Ronaldo Pinto, circunstancia emergindo nos acordes da gaita que trazia escondida, entre os bolsos das cal\u00e7as largas que costumeiramente vestia.<br \/>\nNaquele tempo, n\u00e3o mais que de repente, enquanto a voz esplendida de Chico Viola reverberava no espa\u00e7o onde privilegiados se encontravam para ouvi-lo cantar, muitas vezes percebi, entre os presentes, Chico Preto aos prantos, na for\u00e7a da sublima\u00e7\u00e3o daqueles momentos, quando a ocasi\u00e3o ganhava contornos m\u00e1gicos, pelos tons mel\u00f3dicos do instrumento pequenino, se agigantando nos sopros e inspira\u00e7\u00f5es &#8211; de ar de alma &#8211; brotados da gaita tocada por Ronaldo.<br \/>\nOntem, pelas redes sociais e not\u00edcias vindas atrav\u00e9s de amigos comuns soube da passagem deste ente fraternal. Viajei nas lembran\u00e7as, at\u00e9 o Beco da Tesoura, ao restaurante de Dalva, ao Casar\u00e3o, de Jaime, ao antigo Pisa na Ful\u00f4, de Wilson &#8211; pai de Glauber, meu afilhado -, ao Taquara, \u00e0 Pousada da Conquista, ao Varand\u00e1, ao velho Aerobar, cantos, onde os encantos de nosso conv\u00edvio est\u00e3o presentes at\u00e9 hoje na minha mem\u00f3ria, sem desprezo de outros tantos n\u00e3o ditos e fui dominado pela for\u00e7a avassaladora da saudade.<br \/>\nPreso em Salvador, n\u00e3o pude lev\u00e1-lo a \u00faltima morada, nestes tempos de exce\u00e7\u00e3o, por conta da pandemia creio imponder\u00e1vel fosse poss\u00edvel faz\u00ea-lo, mesmo a\u00ed estivesse, por\u00e9m, nada me impediu e impedir\u00e1 de continuar a v\u00ea-lo sorrindo de forma leve e breve. Consigo ouvir nitidamente os acordes do instrumento que tocava com do\u00e7ura, na certeza de que aqueles \u201cfranciscos\u201d, outras e outros que lhe amam e o precederam no al\u00e9m, est\u00e3o pavimentando a estrada et\u00e9rea que agora lhe serve de esteira.<br \/>\nAmigo. Cipreste, cujo significado pode remeter a luto, tristeza habita em n\u00f3s, agora, na dor da aus\u00eancia f\u00edsica, por\u00e9m, confiando que a vida transcende, tenho por certo, aquelas \u00e1rvores que margeiam caminhos iluminados, onde agora cuidas de andar est\u00e3o vi\u00e7osas e verdejantes lhe servindo de baliza e companhia. Cipreste sempre foi e ser\u00e1 o seu destino.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Valdir Barbosa Quando o filho de Seu Zoroastro descia, logo cedo, em r\u00e1pidas passadas, a Rua Coronel Gug\u00e9, para abrir a loja herdada do pai e fundada h\u00e1 mais de oitenta anos, antes que acessasse o famoso Beco da Tesoura era poss\u00edvel ver bigode farto que escondia um sorriso enigm\u00e1tico, pr\u00f3prio dele mesmo. 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