{"id":21751,"date":"2020-04-18T10:20:42","date_gmt":"2020-04-18T13:20:42","guid":{"rendered":"http:\/\/www.blogdomassinha.com.br\/v1\/?p=21751"},"modified":"2020-04-18T10:20:42","modified_gmt":"2020-04-18T13:20:42","slug":"luto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogdomassinha.com.br\/v1\/2020\/04\/18\/luto\/","title":{"rendered":"Luto"},"content":{"rendered":"<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/www.blogdomassinha.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/111346087_gettyimages-1094626640.jpg\" class=\"gallery_colorbox\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-medium wp-image-21752\" src=\"http:\/\/www.blogdomassinha.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/111346087_gettyimages-1094626640-300x168.jpg\"  alt=\"_111346087_gettyimages-1094626640\" width=\"300\" height=\"168\" srcset=\"https:\/\/www.blogdomassinha.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/111346087_gettyimages-1094626640-300x168.jpg 300w, https:\/\/www.blogdomassinha.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/111346087_gettyimages-1094626640.jpg 410w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Por Val\u00e9ria Figueira *<\/strong><\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\">Quando aconteceu o primeiro \u00f3bito em Conquista em decorr\u00eancia da covid-19, muitos sentimentos passaram por n\u00f3s. Percebemos que a morte est\u00e1 mais pr\u00f3xima e precisaremos ressignific\u00e1-la. Certamente essa \u00e9 a mais dura li\u00e7\u00e3o desta pandemia.<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\">Al\u00e9m da quantidade, da forma in\u00e9dita em que a morte est\u00e1 se manifestando, precisamos lidar com a grande dor de n\u00e3o participarmos do sepultamento dos nossos entes queridos, como est\u00e1vamos habituados. &#8220;Parece frio e desumano, n\u00e3o poder abra\u00e7ar, \u00e9 um sentimento de muita tristeza n\u00e3o poder prestar nenhuma homenagem na \u00faltima despedida&#8221;- relatou uma amiga.<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\">Sabemos que o luto \u00e9 um importante rito de passagem, e que os ritos fazem parte da natureza humana. Eles s\u00e3o culturais, v\u00eam de nossos ancestrais e est\u00e3o t\u00e3o arraigados, que raramente paramos pra pensar se eles fazem sentido.<!--more--> Mas \u00e9 sabido que, de alguma forma, cumprir esses ritos \u00e9 indispens\u00e1vel para elabora\u00e7\u00e3o ps\u00edquica e para a ressignifica\u00e7\u00e3o da dor.<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\">Ao citar Freud (1917) em Luto e melancolia, Christian Dunker (2016) diz que \u00e9 preciso que seja feito um trabalho do luto para superar uma perda. Passar por um conjunto de a\u00e7\u00f5es ps\u00edquicas que terminam por integrar, ou seja, introjetar simbolicamente no enlutado aquele que foi perdido.<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\">A cultura ocidental n\u00e3o est\u00e1 preparada para lidar com a perda. Freud (1917) disse que h\u00e1 algo no limite da morte que \u00e9 inaceit\u00e1vel. Para os que resistem a nossa condi\u00e7\u00e3o humana de imperman\u00eancia e vulnerabilidade, pode vir \u00e0 tona sentimentos de medo com bastante sofrimento ps\u00edquico.<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\">Nega\u00e7\u00e3o &#8211; raiva &#8211; negocia\u00e7\u00e3o &#8211; depress\u00e3o &#8211; aceita\u00e7\u00e3o. Esse \u00e9 o ciclo, considerado pela psicologia, necess\u00e1rio para a elabora\u00e7\u00e3o de um luto. Em tempos extraordin\u00e1rios de coronav\u00edrus, em que h\u00e1 pressa e nem sempre \u00e9 poss\u00edvel presenciar o sepultamento, fica mais dif\u00edcil elaborar uma despedida adequada. De fato, o covid-19 nos inflige esse desafio, convoca-nos a reaprender uma nova forma de experienciar a morte.<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\">J\u00e1 que pular este momento agrava a dor e traz efeitos ps\u00edquicos indesej\u00e1veis, \u00e9 preciso ent\u00e3o mudar o ritual simb\u00f3lico. Faz-se necess\u00e1rio, de acordo com a cren\u00e7a de cada um, encontrar outras maneiras de realizar rituais, de se fazer presente e de demonstrar os nossos sentimentos, como gratid\u00e3o e solidariedade. Se colocarmos essa despedida final do corpo diante de uma hist\u00f3ria de momentos incr\u00edveis vivenciados juntos, isso talvez possa nos ajudar a redimensionar a import\u00e2ncia da nossa presen\u00e7a no funeral.<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\">Para conseguirmos ressignificar os rituais f\u00fanebres, \u00e9 preciso repensar o papel da morte em n\u00f3s. Sofremos porque somos seres apegados. O mestre budista Rinpoche (2013) afirma que precisamos nos aproximar da morte, e descobrir o seu significado real. Compreender a morte, ele adverte, s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel atrav\u00e9s do conhecimento que adv\u00e9m da espiritualidade.<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\">A maioria das pessoas vive toda sua exist\u00eancia sem nenhuma f\u00e9 aut\u00eantica numa vida futura, institu\u00edda de um significado supremo. Vivemos negando a morte ou aterrorizados por ela. At\u00e9 falar da morte \u00e9 considerado m\u00f3rbido, quando esta \u00e9 a \u00fanica certeza que temos. Talvez somente aqueles que compreendem como a vida \u00e9 fr\u00e1gil saibam o quanto ela \u00e9 preciosa.<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\">Certa vez, em um dos lutos que vivi, disseram-me que as pessoas que morrem, deixam de existir fora e passam a existir dentro de n\u00f3s. Dunker (2016) confirma essa considera\u00e7\u00e3o. Afirma que o final do processo do luto compreende novas possibilidades de amar, de se vincular e de caminhar na jornada. &#8220;Deix\u00e1-lo ir ou deix\u00e1-la ir&#8221;, como sugerem algumas correntes religiosas \u00e9, segundo Dunker, um ato de amor. Nas palavras dele: &#8220;Para que seja feito o luto, \u00e9 preciso deixar-se perder, \u00e9 preciso aprender a perder, fazer essa ren\u00fancia dentro de si, autorizar o outro a me deixar&#8221;.<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\">A m\u00e9dica Ana Claudia Arantes (2016), especialista em cuidados paliativos, diz que o medo n\u00e3o nos salva da morte, e a coragem tamb\u00e9m n\u00e3o. Mas o respeito pela morte traz equil\u00edbrio e harmonia nas escolhas. Possibilita a consci\u00eancia de uma vida que vale a pena ser vivida. Morremos a cada dia que vivemos, conscientes ou n\u00e3o de estarmos vivos, mas morremos mais depressa a cada dia que vivemos privados dessa consci\u00eancia.<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\">A mensagem do budismo e de v\u00e1rias correntes religiosas \u00e9 de que, se estivermos preparados, h\u00e1 uma enorme esperan\u00e7a, tanto na vida quanto na morte. Os seus ensinamentos revelam a possibilidades de uma ilimitada liberdade. Para quem se preparou, a morte n\u00e3o chega como uma derrota, mas como um triunfo, o coroamento da vida e o seu mais glorioso instante.<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\">\u00c9 imprescind\u00edvel lembrar da relev\u00e2ncia de um acompanhamento psicol\u00f3gico nos processos de luto. Nesse per\u00edodo, os psic\u00f3logos est\u00e3o realizando atendimentos online, e est\u00e3o dispon\u00edveis alguns servi\u00e7os gratuitos. Atrav\u00e9s de um atendimento qualificado, \u00e9 poss\u00edvel fazer um trabalho individualizado para elabora\u00e7\u00e3o de um luto e evitar que esse processo se torne patol\u00f3gico.<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\">A sabedoria milenar budista nos inspira a sermos mais serenos e resilientes neste desafio de nos aproximarmos \u00e0 uma compreens\u00e3o mais elevada da morte. Aprender a aceitar nossa finitude faz parte do aprendizado, principalmente o de tornar a vida mais valiosa e significativa.<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\"><strong>**<\/strong><strong>VAL\u00c9RIA FIGUEIRA.<\/strong> Bacharel em Artes C\u00eanicas e psicopedagoga. Graduanda em Psicologia e aluna do Mestrado Profissional em Psicologia e Sa\u00fade P\u00fablica, da Escola Bahiana de Medicina e Sa\u00fade P\u00fablica.<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\"><em>Refer\u00eancias:<\/em><\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\"><em>Arantes, Ana Claudia Quintana &#8211; A morte \u00e9 um dia que vale a pena viver &#8211; Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2016.<\/em><\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\"><em>Dunker, Christian. Como acontece o luto? &#8211; 2016. Dispon\u00edvel em:\u00a0 <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=0Kz7jsXo6B4\">https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=0Kz7jsXo6B4<\/a><\/em><\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\"><em>Freud, Sigmund. Luto e Melancolia (1917). S\u00e3o Paulo: Companhia das letras, 2010.<\/em><br \/>\n<em> Rinpoche, Sogyal. O livro tibetano do viver e do morrer. S\u00e3o Paulo: Palas Athena, 2013.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Val\u00e9ria Figueira * Quando aconteceu o primeiro \u00f3bito em Conquista em decorr\u00eancia da covid-19, muitos sentimentos passaram por n\u00f3s. Percebemos que a morte est\u00e1 mais pr\u00f3xima e precisaremos ressignific\u00e1-la. Certamente essa \u00e9 a mais dura li\u00e7\u00e3o desta pandemia. 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