{"id":19305,"date":"2019-10-01T10:02:45","date_gmt":"2019-10-01T13:02:45","guid":{"rendered":"http:\/\/www.blogdomassinha.com.br\/v1\/?p=19305"},"modified":"2019-10-01T10:02:45","modified_gmt":"2019-10-01T13:02:45","slug":"jumentos-na-terra-do-jurupari","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogdomassinha.com.br\/v1\/2019\/10\/01\/jumentos-na-terra-do-jurupari\/","title":{"rendered":"Jumentos na terra do Jurupari"},"content":{"rendered":"<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/www.blogdomassinha.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/0110F390-106A-49E9-9480-D7682AC7FDF8.jpeg\" class=\"gallery_colorbox\"><img loading=\"lazy\" class=\"wp-image-19193 aligncenter\" src=\"http:\/\/www.blogdomassinha.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/0110F390-106A-49E9-9480-D7682AC7FDF8.jpeg\"  alt=\"Oscar Barreto\" width=\"412\" height=\"400\" \/><\/a><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong><span class=\"s1\">*Por Oscar Barreto<\/span><\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s1\">\u201cVamos dar valor a quem trabalha <\/span><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s1\">Vamos dar valor a quem da duro<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s1\">O burro \u00e9 quem merece a medalha <\/span><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s1\">O Burro \u00e9 quem trabalha, o Burro \u00e9 quem d\u00e1 Duro\u201d.<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s1\">Certa feita em uma manh\u00e3 muito fria no interior da Bahia, eu com meus seis ou sete anos de vida, ouvi essa letra em uma cantiga, e a composi\u00e7\u00e3o nunca mais abandonou a minha mem\u00f3ria. Talvez por ela ter motivado por um instante na cidade de Marac\u00e1s a parar e olhar para um animal estancado na cal\u00e7ada, sendo preparado com um arreio para mais uma jornada de carga e entender que ali n\u00e3o estava um objeto e sim um ser vivo.<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s1\">Aquele mesmo animal, um jumento, dias antes nos levou para um passeio, eu, meus dois irm\u00e3os e mais quatro primos que nos atulhavam montados todos juntos ao dorso sem cela para passearmos pela estrada de barro em altas algazarras. <\/span><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s1\">Ali diante ao animal quedado, a m\u00fasica teve um efeito introspectivo, despertando valores prematuros que o preparo da l\u00f3gica inocente at\u00e9 ent\u00e3o era desprovida de obje\u00e7\u00f5es. Como na letra daquela cantilena sertaneja, aquele animal dava duro e trabalhava para nosso ilimitado prazer. Mas pensei, a nossa divers\u00e3o n\u00e3o era trabalho e se fosse trabalho todos t\u00eam direito a descansar e se \u00e9 trabalho, o que aquele animal recebia em troca por aqueles dias de labutas ininterruptas? <\/span><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s1\">E quando o animal retrucou em sair dali depois de um tranco nas r\u00e9deas dado por um sisudo vaqueiro que trabalhava para meu tio, imediatamente o repreendeu com uma voz virilmente repressora e mais conclus\u00f5es iam sendo processadas e concluir que aquele era um bicho que parecia n\u00e3o ter direito a exercer a sua autonomia.<\/span><!--more--><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s1\">Onde estar\u00e1 a fam\u00edlia dele que eu n\u00e3o vi nos vinte dias de f\u00e9rias? Ele n\u00e3o deve ter casa, n\u00e3o deve ter irm\u00e3os para brincar, n\u00e3o deve ter uma m\u00e3e para consola-lo&#8230; Recordo-me do meu atrevimento imaculado de ter perguntado ao vaqueiro, que tragava um cigarro de palha, antes de este montar no animal \u201cSenhor, ele sente dor?&#8221;, o matuto, sem olhar para mim e s\u00f3 veio um riso curto, mas n\u00e3o deu a m\u00ednima para o menino e seguiu o seu destino.<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s1\">Tempos depois j\u00e1 adulto em uma visita a trabalho a cidade de Sento S\u00e9, outra cena fez que outra can\u00e7\u00e3o retornasse a minha mente, na estrofe final da composi\u00e7\u00e3o de Luiz Gonzaga, \u201cEm nome do sert\u00e3o, acompanhe o seu vig\u00e1rio, nessa eterna gratid\u00e3o, Receba nossa homenagem ao jumento nosso irm\u00e3o\u201d.<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s1\">Vendo rapidamente aquela dr\u00e1stica cena, eu solicitei parar o Jeep, pois tinha uma jumenta esmarrida, deitada embaixo de uma \u00e1rvore, possivelmente h\u00e1 quase dois dias, segundo a informa\u00e7\u00e3o convicta do motorista, o que me deixou ainda mais perplexo!<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s1\">Desci do carro e decidir pedi ajuda, era muito cedo e com muito pouco apoio em volta, andei ate um casebre pr\u00f3ximo e um homem de express\u00e3o envelhecida, com chap\u00e9u de palha, sand\u00e1lia de couro e segurando uma caneca de ferro desbotada me atendeu. Conversamos e o convenci a ajudar aquela jumenta. Evidente que paguei a ele para resgata-la e cuidando-a at\u00e9 a nossa volta da visita para conhecer \u00e1rea da interven\u00e7\u00e3o, quando tentaria ajuda-la. <\/span><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s1\">No retorno a vila j\u00e1 no final de tarde, vi que a Jumenta ainda estava ainda l\u00e1, agora com o corpo morto, que segundo o morador contatado, n\u00e3o houve o que fazer e ela faleceu ali mesmo e o homem de chap\u00e9u de palha completou contando o que precedeu a aquela situa\u00e7\u00e3o. Segundo a narrativa, ela foi morta por um ataque de on\u00e7a, pois os jumentos foram abandonados ao tempo, ap\u00f3s a proibi\u00e7\u00e3o de serem animais de carga, atraindo os felinos para se aproximaram de muitos vilarejos.<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s1\">Mas havia algo ainda mais assustador que n\u00e3o tinha percebido at\u00e9 ent\u00e3o, que era a presen\u00e7a de um filhote ao lado da fenecida m\u00e3e. Possivelmente ela tenha sido golpeada de morte para proteger a cria e morrer dias depois decorrentes dos ferimentos e s\u00f3 restou a ado\u00e7\u00e3o daquele filhote, a qual encaminho remessas para custeio do pobre \u00f3rf\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s1\">Contudo diante da frustrada assist\u00eancia eu me perguntei que forma de agradecer a esse animal s\u00edmbolo do sert\u00e3o, o jumento nosso irm\u00e3o!<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s1\">Em 2013, um senso esclarece que noventa por cento dos jumentos s\u00e3o Nordestinos e existem cerca de novecentos mil Jumentos vagando pelo nordeste, trocados agora por ve\u00edculos motorizados.<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s1\">Uma not\u00edcia que deveria ser considerada excelente para o fim da explora\u00e7\u00e3o do animal, mas o que se viu n\u00e3o foi bem isso. <\/span><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s1\">No ano de 2016, o Governo do Estado da Bahia recolheu e abateu 300 animais que estavam circulando pelas ruas a procura de alimentos.<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s1\">A grave falta de assist\u00eancia e um plano de manejo, levaram o animal ao abandono e trouxe a presen\u00e7a<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span>gananciosa de frigor\u00edficos que come\u00e7aram a assolar o animal e se agravou quando a falta de no\u00e7\u00e3o de vida do governador baiano, focou nas cifras Chinesas e decidiu-se leva-los empilhados em cargueiros para o oriente como objetos qualquer, al\u00e9m das desastrosas mortes noticiadas, quando os jumentos<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span>desnutridos, irresponsavelmente transportados para os abatedouros, sem a m\u00ednima infraestrutura e principalmente sem ter o que comer, causando a morte de centenas de jumentos em Itapetinga e de duzentos jumentos na lend\u00e1ria Canudos.<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s1\">A vida que a sociedade julga que n\u00e3o vale nada a n\u00e3o ser ter n\u00fameros econ\u00f4micos vai perder a batalha da sua sobreviv\u00eancia mais uma vez, pois agora depois de comemorar a justa vit\u00f3ria da vida, na incoerente peleja da &#8220;justi\u00e7a&#8221; com a liminar concedida para a proibi\u00e7\u00e3o do abate solicitada pela Uni\u00e3o Defensora dos Animais Bicho Feliz, o F\u00f3rum Nacional de Prote\u00e7\u00e3o e Defesa Animal, a SOS Animais de Rua, a Rede de Mobiliza\u00e7\u00e3o pela Causa Animal e a Frente Nacional de Defesa dos Jumentos, foi revogada<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span>pelo TRF, que alega que a liminar fere a economia publica, que impossibilitava a comercializa\u00e7\u00e3o de vidas.<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s1\">O campo mais que impotente da justi\u00e7a (Desculpe a redund\u00e2ncia Nietzschiana) se arvora no debate do campo irrefut\u00e1vel do &#8220;direito&#8221; a vida e \u00e9 fato que essa discrep\u00e2ncia, faz que as pessoas e a sociedade n\u00e3o percebam onde reside a indiferen\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o a sua car\u00eancia existencial. <\/span><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s1\">Talvez seja at\u00e9 justa em t\u00ea-la, pois essas pessoas se alienam unicamente na sua ego\u00edsta individualidade ou no raio limitante da sua fam\u00edlia e a vida do outro n\u00e3o lhe diz respeito, ainda mais vidas onde soberba social, n\u00e3o consegue enxergar.<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s1\">Quando se tenta apelar, lutando pela vida de Jumentos inocentes, primeiro vem \u00e0 resposta Antropocentrista e desconectada de perguntar quantos Brasileiros est\u00e3o morrendo de fome (creio que entendem que o jumento n\u00e3o seja Brasileiro) e se insiste na s\u00faplica, a correla\u00e7\u00e3o da morte do outro se faz afinal presente, no caso desafortunado do boi no matadouro, ou da galinha na granja, no peixe agonizando na rede, por isso, acharam uma justificativa qualquer para o seu ab\u00falico sil\u00eancio ou para atestar a explora\u00e7\u00e3o que h\u00e1 de advir. <\/span><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s1\">Ainda na al\u00e7ada das analogias, diferente do que ocorreu nos EUA ap\u00f3s a o fim da Guerra da Secess\u00e3o, com a vit\u00f3ria do Norte sobre o Sul que implicou na emancipa\u00e7\u00e3o dos escravos, quando estes foram amparados por uma lei, que possibilitou assist\u00eancia e formas de inser\u00e7\u00e3o do negro na sociedade, o negro no Brasil n\u00e3o teve a mesma sorte no desastroso Reinado do Dom Pedro II e penso na situa\u00e7\u00e3o absurda dos escravos Brasileiros sem qualquer tipo de indeniza\u00e7\u00e3o por anos de trabalhos for\u00e7ados, v\u00edtimas de todo tipo de preconceito, onde muitos ex-escravos tiveram de permanecer nas fazendas em que trabalhavam, vendendo seu trabalho em troca da sua sobreviv\u00eancia. E aos negros que migraram para as cidades, s\u00f3 restaram os subempregos e muitas ex-escravas se tornaram sem op\u00e7\u00e3o, prostitutas, sendo ainda os novos alforriados pelo Reino, que at\u00e9 ent\u00e3o n\u00e3o moravam nas ruas passaram a residi-las e quando muito, foram habitar em m\u00edseros corti\u00e7os. <\/span><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s1\">N\u00e3o estou confessando de forma alguma que a aboli\u00e7\u00e3o da escravatura foi p\u00e9ssima para Negro, pelo contr\u00e1rio, o negro pela possibilidade da sua<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span>controversa liberdade, teve a oportunidade de lutar por si mesmo e conquistar o seu espa\u00e7o, apesar de infelizmente ter muito ainda que lutar,<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span>mas o que ocorreu em 1888<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span>foi desastroso e cruel da forma que sucedeu.<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s1\">Aos Jumentos, que com todas as suas qualidades intr\u00ednseca na sua fisiologia espec\u00edfica da fam\u00edlia Equ\u00eddea e de seres Sencientes, n\u00e3o tem o grau da sapi\u00eancia humana, que na baixeza kafkiana de sua fid\u00facia, decide seu destino de conceder a sua \u201cliberdade\u201d e transforma-la em morte. <\/span><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s1\">N\u00e3o \u00e9 justo obviamente o retorno aos maus tratos a esses pobres animais, pelo abuso que eles foram t\u00e3o duramente submetidos desde o s\u00e9culo XVI, mas sentenciar o jumento qual ser\u00e1 o seu destino, n\u00e3o \u00e9 uma decis\u00e3o que deveria ser mat\u00e9ria do palanque da Moral e sim no prosc\u00eanio da \u00c9tica. <\/span><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s1\">Deliberar pela volta da escravid\u00e3o e explora\u00e7\u00e3o do animal ou pela liberdade que o leve a morte, gera uma pergunta: Quem foi Caim para Abel, Brutus para Cesar, Judas para Cristo?<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span>E que s\u00e3o os Humanos para os Jumentos? A resposta \u00e9 patente e nos outorgam com o l\u00edcito titulo dado na l\u00edngua Tupi: \u201cJurupari*\u201d.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>*Por Oscar Barreto \u201cVamos dar valor a quem trabalha Vamos dar valor a quem da duro O burro \u00e9 quem merece a medalha O Burro \u00e9 quem trabalha, o Burro \u00e9 quem d\u00e1 Duro\u201d. 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