{"id":15819,"date":"2019-01-17T13:11:23","date_gmt":"2019-01-17T16:11:23","guid":{"rendered":"http:\/\/www.blogdomassinha.com.br\/v1\/?p=15819"},"modified":"2019-01-17T13:11:23","modified_gmt":"2019-01-17T16:11:23","slug":"partiu-gildasio-leite-cineasta-e-ativista-cultural","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogdomassinha.com.br\/v1\/2019\/01\/17\/partiu-gildasio-leite-cineasta-e-ativista-cultural\/","title":{"rendered":"Partiu Gild\u00e1sio Leite: cineasta e ativista cultural"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/www.blogdomassinha.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/09302B62-8446-44A0-B1A4-FC299918B57E.jpeg\" class=\"gallery_colorbox\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter wp-image-15820\" src=\"http:\/\/www.blogdomassinha.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/09302B62-8446-44A0-B1A4-FC299918B57E.jpeg\"  alt=\"\" width=\"400\" height=\"351\" srcset=\"https:\/\/www.blogdomassinha.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/09302B62-8446-44A0-B1A4-FC299918B57E.jpeg 547w, https:\/\/www.blogdomassinha.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/09302B62-8446-44A0-B1A4-FC299918B57E-300x263.jpeg 300w\" sizes=\"(max-width: 400px) 100vw, 400px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Li no Blog do F\u00e1bio Sena que mais um nome da nossa cultura nos deixou. Trata-se de Gild\u00e1sio Leite, um homem cheio de sonhos e que realizou muitos deles. Gild\u00e1sio foi um amante das artes, seu foco principal foi o cinema, foi vanguardista nessa \u00e1rea, deixou sua marca nas produ\u00e7\u00f5es e tamb\u00e9m deixou a sua imagem nas telas do cinema.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">F\u00e1bio Sena, fustigador das boas not\u00edcias, conseguiu uma \u00f3tima entrevista com Gild\u00e1sio, e tomamos a liberdade de transmiti-la tamb\u00e9m no nosso blog para prestar uma \u00faltima homenagem ao ilustre conquistense que nos deixou. Acompanhe aqui tudo o que o Blog do F\u00e1bio Sena registrou:<!--more--><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cFilho de Janoca, neto de Tecla, filho de Z\u00e9 Gon\u00e7alves, neto de Inoc\u00eancio, pai de Pauline, Paulo Tiago, Gabriele e Jo\u00e3o Gabriel, garoto precoce e dono de uma extraordin\u00e1ria intelig\u00eancia, Gild\u00e1sio Leite integra aquele grupo seleto e raro de intelectuais que conseguiram dar o salto nas gera\u00e7\u00f5es, que teve a habilidade para reinterpretar os movimentos sociais, pol\u00edticos e culturais, incluir-se nesses movimentos pela porta da frente, e que, especialmente, n\u00e3o perdeu o brilho nem a mais sofisticada arma do ser humano contra as opress\u00f5es cotidianas: a capacidade de sonhar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em uma delicios\u00edssima entrevista ao Blog do F\u00e1bio Sena \u2013 \u00e0 qual deram aux\u00edlio luxuoso com suas intelig\u00eancias os jornalistas Paulo Nunes e Luis Fernandes, Gild\u00e1sio Leite d\u00e1 uma aula de otimismo, de humanidade, de eleg\u00e2ncia com as palavras, mas principalmente, faz emergir conte\u00fados reveladores, conte\u00fados somente poss\u00edveis na cabe\u00e7a de quem mergulhou fundo na hist\u00f3ria de sua \u00e9poca \u2013 e, no caso de Gild\u00e1sio Leite, a \u00e9poca \u00e9 esta contempor\u00e2nea tamb\u00e9m \u2013, da qual ele n\u00e3o se aparta. Dono de uma prodigiosa mem\u00f3ria e singular inspira\u00e7\u00e3o para tratar dos temas mais delicados de forma sempre simp\u00e1tica, Gild\u00e1sio Leite assegura, entre outras coisas, que seu legado para Vit\u00f3ria da Conquista foi a sua inteira devo\u00e7\u00e3o ao teatro como instrumento libertador.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Foi em clima descontra\u00eddo e saboreando uma daquelas cervejas somente encontr\u00e1veis no Bar de Paulinho que Gild\u00e1sio Leite conversou conosco. Trata-se de parte de uma mem\u00f3ria cuja leitura vai agradar a gregos e troianos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Segue:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Gild\u00e1sio Leite\u2026 cineasta, n\u00e9?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 \u00c9\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Cineasta!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 \u00c9\u2026 na verdade, eu sou ator e documentarista.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Pronto: cineasta, ator e documentarista.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Cineasta \u00e9 um nome que\u2026 eu n\u00e3o assino. Embora tenha escrito v\u00e1rios roteiros de longa metragem, n\u00e3o realizei nenhum longa- metragem como diretor. S\u00f3 tenho realizado curtas metragens, ent\u00e3o eu n\u00e3o sou cineasta, eu sou ator teatral e cinematogr\u00e1fico. Eu n\u00e3o posso ser cineasta por eu ser ator de cinema.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Ok. Voc\u00ea venceu. Quer come\u00e7ar falando pra gente sobre Z\u00e9 Ningu\u00e9m?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 O Z\u00e9 Ningu\u00e9m?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Sim. De Reich.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 De Reich? Hummm\u2026 (faz cara de espantado\u2026)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Por qu\u00ea? Voc\u00ea n\u00e3o acredita mais em Z\u00e9 Ningu\u00e9m?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Eu acredito. Inclusive eu adaptei at\u00e9 pro teatro o Z\u00e9 Ningu\u00e9m, pra ser encenado aqui em Conquista, e foi um projeto que n\u00e3o foi adiante porque eu tive dificuldade de elenco, de ator pra fazer o personagem, mas isso eu admiro, acho interessante. Tem um filme, um longa- metragem, que \u00e9 \u201cQuando Nada Acontece\u201d, que \u00e9 exatamente dentro do arqu\u00e9tipo do Z\u00e9 Ningu\u00e9m, um cara que luta a vida inteira para atingir o \u00e1pice, que a sociedade gosta de ver o eleito, vitorioso, e ele n\u00e3o consegue, ele n\u00e3o \u00e9 nada. O filme chama \u201cQuando Nada Acontece\u201d. E por isso o pessoal da Salvador, onde eu tenho mais acesso, muito acesso, n\u00e9, eu convivi muito tempo em Salvador fazendo teatro, fazendo cinema, eles acham que o filme \u00e9 uma autobiografia minha, e n\u00e3o \u00e9 (risos\u2026), mas \u00e9 interessante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Voc\u00ea ficou surpreso com essa de perguntar sobre o Z\u00e9 Ningu\u00e9m, n\u00e3o \u00e9?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Fiquei, fiquei bastante surpreso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Me diz uma coisa: voc\u00ea consegue se adequar a essas novas gera\u00e7\u00f5es? Voc\u00ea consegue\u2026 digamos\u2026 voc\u00ea acha que ficou no tempo e no espa\u00e7o ou que conseguiu se adaptar a essa realidade nova, \u00e0 contemporaneidade?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Olha, no momento, na atualidade, a \u00fanica dificuldade que eu tenho \u00e9 de abordar uma lingu\u00edstica que a juventude articula hoje, atrav\u00e9s do facebook, da internet, porque eu n\u00e3o tenho o h\u00e1bito de manipular, e eu n\u00e3o manipulo essa linguagem, mas eu entendo\/compreendo. Agora, linguisticamente, dentro do contexto atual, eu n\u00e3o me distancio da molecada, da juventude. Meus filhos s\u00e3o todos jovens, eles desenvolvem uma pr\u00e1tica de percep\u00e7\u00e3o do contexto em que vivem, e eu compreendo com facilidade, e tenho feito muito teatro voltado para a juventude, n\u00e3o s\u00f3 nos anos sessenta como hoje, toda a minha pr\u00e1tica de teatro tem sido voltada para a educa\u00e7\u00e3o dos jovens, e n\u00e3o eu n\u00e3o tenho dificuldade de entend\u00ea-los e compreend\u00ea-los, at\u00e9 dentro das possibilidades\u2026 porque tem coisas que\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Voc\u00ea consegue enxergar de qualquer forma uma diferen\u00e7a entre a sua juventude, entre o pensamento de sua juventude, entre a a\u00e7\u00e3o da juventude do seu tempo e a juventude de hoje? Que tipo de compara\u00e7\u00e3o voc\u00ea faria?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Ah, sim, \u00e9 muito dif\u00edcil hoje compreender esse comportamento da juventude, porque n\u00f3s vivemos no terceiro mil\u00eanio, em que todas as conquistas desejadas nos anos sessenta, na minha adolesc\u00eancia, foram alcan\u00e7adas. Mas \u00e9 muito dif\u00edcil hoje a juventude desenvolver um discurso dial\u00e9tico, anal\u00edtico, dentro do contexto, porque eles n\u00e3o t\u00eam o referencial que n\u00f3s tivemos. O nosso referencial nessa \u00e9poca era Sartre, Bertold (Brecht), o socialista, a gente\u2026 n\u00f3s l\u00edamos, eu li Marx com 17 anos\u2026 e hoje o pessoal n\u00e3o tem\u2026 n\u00e3o sei se eles desenvolvem esse discurso nos cursos que fazem na universidade, no terceiro grau.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Nessa \u00e9poca quem era marxista tinha lido Marx mesmo, n\u00e9?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Tinha lido Marx\u2026 \u00e9\u2026 Chegamos a Marx, Hegel, ent\u00e3o a gente trabalhava com a filosofia, n\u00e9\u2026 de alcance, perceptivo; anal\u00edtico; cr\u00edtico. E \u00e9 o que domina at\u00e9 hoje. Quem escreve hoje, quem faz jornalismo hoje, se n\u00e3o tiver esse referencial ele n\u00e3o sabe o que t\u00e1 dizendo. N\u00e3o sabe o que diz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Bom, Gild\u00e1sio, j\u00e1 que estamos falando de juventude, de mudan\u00e7a de tempo, de per\u00edodos hist\u00f3ricos, voc\u00ea que viveu um per\u00edodo intenso da pol\u00edtica partid\u00e1ria no Brasil, voc\u00ea acha que hoje \u00e9 poss\u00edvel definir o que \u00e9 esquerda e o que \u00e9 direita?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Rapaz\u2026 eu fui militante pol\u00edtico na Bahia, fui aqui em Conquista como adolescente, quando se criou a UBES aqui eu era moleque, adolescente, era mais novo do que esse Oswaldo a\u00ed que foi o primeiro presidente \u2013 Oswaldinho Ribeiro, estava com ele agora. Eu era moleque, menino, mas j\u00e1 t\u00ednhamos a preocupa\u00e7\u00e3o de sabermos o que que era o contexto pol\u00edtico, social da \u00e9poca. Agora, em Salvador, quando eu fui pra Salvador pra fazer universidade, ent\u00e3o eu fui militante l\u00e1 em Salvador e acompanhei os anos amargos da ditadura, as brigas da ditadura, 67, 68, 69, n\u00e3o s\u00f3 na Bahia como no mundo, porque a gente se articulava com a problem\u00e1tica toda n\u00e3o s\u00f3 na Am\u00e9rica como na Europa, e no sul do pa\u00eds, Rio e S\u00e3o Paulo. Ent\u00e3o toda, essa milit\u00e2ncia eu conheci, eu convivi com \u201celes\u201d, e hoje eu me decepciono quando eu vejo o l\u00edder do PT no Congresso, que chama Carregosa, defender a base aliada do governo como ele defende, defender o (Carlos) Lupi!\u2026 P\u00f4, n\u00e3o tem sentido; ent\u00e3o n\u00e3o d\u00e1 pra entender, pra eu compreender o que \u00e9 isso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Voc\u00ea teve uma vida marcada pela arte, pela produ\u00e7\u00e3o art\u00edstica, pela produ\u00e7\u00e3o cultural. Como voc\u00ea se situa nessa hist\u00f3ria cultural de Vit\u00f3ria da Conquista, qual \u00e9 a contribui\u00e7\u00e3o que Gild\u00e1sio Leite deu \u00e0 Vit\u00f3ria da Conquista?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Trabalhando com jovens, s\u00f3. Os grandes espet\u00e1culos que eu idealizei, que eu quis fazer em Conquista n\u00e3o foi poss\u00edvel fazer porque n\u00e3o tem incentivo, n\u00e3o tem como realizar. Eu realizei alguns em Salvador, n\u00e3o todos, n\u00e9, mas em Conquista eu realizei pouco. Mas trabalhei muito com jovem, com moleque, com adolescente e para o adolescente. Ent\u00e3o, essa \u00e9 a grande contribui\u00e7\u00e3o. Tem amigos meus aqui formados em Engenharia, em Medicina, em Direito que viram teatro na sua adolesc\u00eancia me assistindo, e eu representando. Ent\u00e3o isso \u00e9 uma coisa que me deixa muito envaidecido, porque eu n\u00e3o sabia que isso ia acontecer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 (Luis Fernandes) Gild\u00e1sio Leite \u00e9 mais teatro ou mais cinema?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Hoje eu sou audioartevisual! Hoje eu sou visual, artevisual, eu congrego nas tr\u00eas linguagens, n\u00e9, mas a minha pr\u00e1tica \u00e9 teatral. Eu comecei aqui fazendo teatro porque idealizava, sonhava em fazer cinema! N\u00f3s, moleques, aqui, adolescentes, a gente idealizava fazer cinema porque a gente assistia muito os filmes aqui no Cine Gl\u00f3ria, no Cine Conquista, no Cine Poeira, e a gente sa\u00eda da sala imitando os personagens, querendo ser Durango Kid, entende?, desenvolvendo o discurso do personagem. Eu nem sabia qual era o arqu\u00e9tipo de um personagem, mas a gente saia imitando os personagens dos bang-bang, dos filmes cl\u00e1ssicos que a gente assistia. E a pr\u00e1tica para se chegar a isso, pra se chegar ao cinema tinha que ser a representa\u00e7\u00e3o, o teatro. Saber o que que \u00e9 representar um personagem. Ent\u00e3o eu fui procurar uma escola de teatro. Eu fiz teatro aqui, na adolesc\u00eancia, e depois eu fui me formar. Eu me formei, eu sou ator e sou diretor teatral graduado pela UFBA, certo. N\u00e3o tenho orgulho disso, n\u00e3o, mas eu fiz isso (ir\u00f4nico\u2026). Mas consegui entrar, fazer o cinema, que eu queria. Logo que chego em Salvador eu fiz meu primeiro filme. O primeiro filme que eu fiz foi um filme italiano, da Fama Filmes, sobre o canga\u00e7o, um filme com Thom\u00e1s Milliam. Esse filme passou aqui em Conquista, eles anunciavam, que Raimundo exibia no Cine Gl\u00f3ria \u201ccom artista conquistense\u201d (rsrsrsrs). Era um Bang Bang Nordestry, com Tomas Milian, era a Rebeli\u00e3o dos Brutos*, n\u00e3o p\u00f4de ser registrado no Brasil como \u201cO Cangaceiro\u201d ent\u00e3o ficou o t\u00edtulo \u201cRebeli\u00e3o dos Brutos\u201d. E \u00e9 um filme extraordin\u00e1rio de interessante. E eu tenho a c\u00f3pia em italiano, n\u00e3o tenho ela dublada \u2013 dublada n\u00e3o foi, foi telecinada com legenda. Eu n\u00e3o tenho essa c\u00f3pia, t\u00e1 no Museu de Imagens de S\u00e3o Paulo. Mas em italiano eu tenho a c\u00f3pia, \u00e9 interessante, \u00e9 o primeiro filme que eu fiz. E fiz outros filmes na Bahia, filmes baianos e filmes do Rio e S\u00e3o Paulo. Ent\u00e3o eu consegui realizar alguns filmes como ator, entendeu, na minha verve deve ter 15 ou 16\u2026 16! 16 filmes longa metragem. E curta metragem eu fiz uma s\u00e9rie, dirigi alguns e trabalhei com outros como participa\u00e7\u00e3o de equipe, mais de trinta! \u00c9\u2026 \u2018t\u00e1 tudo arquivado e guardado esse material, entendeu?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 (Luis Fernandes) Voc\u00ea pretende, quem sabe\u2026 lan\u00e7ar um livro contando a hist\u00f3ria do teatro de Conquista, sua vida em teatro, sua vida em cinema, o cinema em Conquista?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Eu comecei at\u00e9 a escrever como foi que surgiu o teatro na nossa gera\u00e7\u00e3o, mas me perdi, era uma revista, Mas \u00e9 interessante contar a arte em Conquista, n\u00e3o s\u00f3 dessa \u00e9poca, desse per\u00edodo da minha adolesc\u00eancia, que \u00e9 1960, como a de hoje. Hoje se desenvolve uma arte mais concreta, mais objetiva, mais racional. Nosso tempo tamb\u00e9m era uma arte muito subjetiva, mas a gente sabia o que queria, \u00e9 uma arte mais limitada, mas hoje com o dom\u00ednio dos \u201cacessos\u201d da comunica\u00e7\u00e3o, ent\u00e3o\u2026 o teatro de Conquista n\u00e3o t\u00e1 mal, agora falta incentivo pra que ele possa produzir um bom resultado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Gild\u00e1sio, voc\u00ea consegue fazer uma an\u00e1lise tamb\u00e9m subjetiva do que foi que lhe conduziu \u00e0 arte, ao teatro, ao cinema. Voc\u00ea tem alguma reminisc\u00eancia de quando foi que voc\u00ea deu o estalo pra isso?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Olha, eu sempre fui um menino precoce. Eu fui criado por meus av\u00f3s. Quando nasci, a minha m\u00e3e n\u00e3o p\u00f4de me alimentar porque meu parto foi muito complicado, foi aqui na fazenda Volta Grande, do meu av\u00f4, a tr\u00eas km de Conquista. A\u00ed, a minha tia me levou pra casa do meu av\u00f4, para poder me amparar. Ent\u00e3o, da\u00ed eu n\u00e3o voltei mais pra casa de minha m\u00e3e, eu fiquei, fui criado por minha tia e meus tios e meus av\u00f3s. Eu conheci meu av\u00f4, minha av\u00f3. Eu convivi com meu av\u00f4 e minha av\u00f3 e eu fui muito precoce, eu fui muito criado solto mas compreendendo as limita\u00e7\u00f5es que estabeleciam pra gente, meu av\u00f4, minha av\u00f3, meus tios. Mas era isto precoce, e a\u00ed eles me puseram o apelido de \u201cCalango da V\u00e9a Galdina\u201d, porque eu era um cara c\u00f4mico, era, era um dos c\u00f4micos que facilitava a alegria na casa, nos eventos, acontecimentos, acharam eu parecido com um cara que era quase um palha\u00e7o e isso n\u00e3o me saiu da mem\u00f3ria, n\u00e9, e a minha av\u00f3 sempre me codenominava de \u201cCalango da V\u00e9a Galdina\u201d, e logo depois eu conheci o circo, aqui em Conquista, o meu tio me levava pro circo e eu assistia todos os espet\u00e1culos do Circo Nerino e os dramas, eu moleque, 3 anos, 4 anos, eu descia com meus tios pra vir aqui fazer o cabelo na banca de Estelina, aqui no Beco da Tesoura, Valdemar nesse tempo j\u00e1 era cabeleleiro. Veja s\u00f3! J\u00e1 t\u00e1 de cabelo branco, bicho (riso), j\u00e1 deve ter uns oitenta (mais risos\u2026); ent\u00e3o eu assisti muito. Eu fiz muito espet\u00e1culo, eu vi muito espet\u00e1culo no Circo Nerino*, grandes dramas da representa\u00e7\u00e3o, e o palha\u00e7o Picolino, ent\u00e3o isso foi bacana pra minha compreens\u00e3o, e logo depois eu entro para a Cruzada, no Sal\u00e3o Paroquial, que j\u00e1 vinha do teatro do sal\u00e3o paroquial, j\u00e1 existia o grupo de teatro sal\u00e3o paroquial; como eu era menino eu, na cruzada, dona Geraldina desenvolvia uma pr\u00e1tica de encena\u00e7\u00e3o de pe\u00e7as teatrais. Ent\u00e3o, eu comecei praticamente moleque no sal\u00e3o paroquial. Depois passamos a encenar pequenos textos e, logo ent\u00e3o, passamos a encenar textos\u2026 Sa\u00edmos do teatro catequ\u00e9tico, o teatro do sal\u00e3o paroquial era muito catequ\u00e9tico, mostrando as contradi\u00e7\u00f5es dos efeitos da religi\u00e3o do pecado, do bem e do mal, ent\u00e3o n\u00f3s passamos a fazer um teatro para discutir o contexto social da realidade, e isso j\u00e1 no sal\u00e3o paroquial. Isso com muita influ\u00eancia do Padre Benedito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 \u00c9 muita precocidade mesmo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 \u00c9. A gente j\u00e1 tinha essa preocupa\u00e7\u00e3o social, n\u00e3o \u00e9, e ao mesmo tempo, na escola, a gente desenvolveu a milit\u00e2ncia pol\u00edtica, o surgimento do PCz\u00e3o aqui, do PC, das lideran\u00e7as pol\u00edticas, essa influ\u00eancia toda no in\u00edcio dos anos sessenta, no final dos anos cinquenta pra sessenta, ent\u00e3o houve muito essa influ\u00eancia e a gente participava. Ent\u00e3o, o que \u00e9 que \u00edamos: discutir a realidade brasileira. Ent\u00e3o, passamos a ter essa preocupa\u00e7\u00e3o de fazer um teatro voltado\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Voc\u00ea j\u00e1 era ator?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Sim, eu j\u00e1 era ator, j\u00e1 tava trabalhando, mas quando eu decidi mesmo ser ator, n\u00e3o fazer outra carreira acad\u00eamica, ent\u00e3o eu j\u00e1 tava querendo decidir pra que caminho eu deveria seguir. Eu j\u00e1 tava com 14 anos, eu j\u00e1 tinha ultrapassado a adolesc\u00eancia. Eu j\u00e1 tinha sa\u00eddo da idade do perigo, porque eu j\u00e1 era, n\u00e9, 16 anos, com 17 anos eu j\u00e1 tava em Salvador, 18 anos eu j\u00e1 tava em Salvador, tentando vestibular, j\u00e1 tinha escolhido teatro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 E o cinema? O Gild\u00e1sio do cinema? Dos longas que voc\u00ea acabou citando a\u00ed, dos curtas, tem algum filme que voc\u00ea fez que o deixou bastante realizado?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Tem\u2026 n\u00e3o\u2026 no come\u00e7o, esses filmes foram interessantes pra mim\u2026 esses foram muito interessantes, esse primeiro que eu fiz com 22 anos de idade, voc\u00ea n\u00e3o me conhece no filme, voc\u00ea v\u00ea o filme e voc\u00ea n\u00e3o me conhece, mas \u2018c\u00ea sabe que sou eu, n\u00e9, esse filme eu tava com 22 anos de idade. Logo depois eu passei a\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Voc\u00ea fez que papel nesse filme?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Eu fiz um bandido que se torna cangaceiro; \u00e9 interessante esse filme at\u00e9, \u00e9 interessante esse filme. E \u00e9 a narrativa \u2013 inclusive, o roteiro \u00e9 de Agnaldo Silva, ele praticamente come\u00e7ou a trabalhar com dramaturgia na It\u00e1lia, ele come\u00e7ou l\u00e1. E eles vieram filmar aqui no Brasil um roteiro dele, que tem uma adapta\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m dos italianos, do pessoal que fazia bang-bang italiano, da Fama Filmes. Ent\u00e3o, logo em seguida eu fiz um filme com Nelson Pereira, que \u00e9 da obra de Jorge Amado, Tenda dos Milagres, que \u00e9 um filme interessante, e que\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Ainda na condi\u00e7\u00e3o de ator\u2026?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Sempre como ator. Sempre como ator. E mais outros filmes baianos, que foram at\u00e9 laureados, premiados, nos festivais nacionais, e eu tive oportunidade de ir pro festival de Bras\u00edlia, no Festival do Rio Grande do Sul, Gramado, t\u00e1 entendendo, participando, eu j\u00e1 andei um pouco, n\u00e9, j\u00e1 andei, e da\u00ed dos document\u00e1rios eu fiz muito document\u00e1rio em Salvador sobre a problem\u00e1tica cultural, fazia uma abordagem sobre a cultura baiana, as festas populares, que \u00e9 interessant\u00edssimo, todo o per\u00edodo de festas populares da Bahia, e o interior da Bahia, eu conhe\u00e7o muito aquele reduto ali de Salvador, o Baixo Sul, Cachoeira, Nazar\u00e9, essa regi\u00e3o toda ali pr\u00f3xima a Salvador at\u00e9 Sergipe, documentando o costume do povo nordestino. Eu, como assistente, como c\u00e2mera, at\u00e9 como eletricista, puxando cabo de fio, microfone, eu fazia isso, eu participava. Eu fazia de tudo, eu sei fazer de tudo no cinema, sei exercer toda essa pr\u00e1tica. E depois passei a dirigir aqui, fiz alguns curtas, fiz um filme aqui que \u00e9 muito interessante que \u00e9 sobre uma cr\u00f4nica da cidade, que o personagem \u00e9 Gaguinho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Eu lembro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Viu? Esse filme \u00e9 interessante. Foi mostrado em muitos lugares e estou finalizando outro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Tem projeto engavetado a\u00ed?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Tem. Eu \u2018tou finalizando um agora, que eu comecei a gravar em 85, quando estava fazendo a barragem de Anag\u00e9. Eu j\u00e1 fiz esse filme, j\u00e1 foi editado\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Que interessante\u2026 voc\u00ea tem imagens daquele per\u00edodo?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Tenho. E a\u00ed eu estou reeditando, eu \u2018tou fazendo um retratamento de todo esse document\u00e1rio que \u00e9 \u201cOs pobres do campo\u201d, que \u00e9 o surgimento da luta dos posseiros, dos sem terra. \u00c9 o come\u00e7o da luta dos posseiros, ent\u00e3o eu \u2018tou dando um tratamento nesse material, que \u00e9 \u201cOs pobres do campo\u201d. Inclusive, eu digo pra voc\u00eas, tenho depoimento de Everardo (P\u00fablio de Castro), entendeu, de todos esses pol\u00edticos, \u00e9 interessante essa abordagem\u2026 e \u2018t\u00e1 perfeito, foi gravado em \u201cU-Matic\u201d, que era a linguagem que dominava na \u00e9poca, e VHS, Super V. N\u00f3s n\u00e3o t\u00ednhamos de hoje o recurso digital, mas o que foi feito era U-Matic, eram c\u00e2meras profissionais e que tinham um bom recurso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Voc\u00ea est\u00e1 em que fase desse document\u00e1rio?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Eu \u2018tou retratando, dando um tratamento no \u00e1udio, e as imagens j\u00e1 est\u00e3o recuperadas, j\u00e1 \u2018tou querendo reeditar elas, j\u00e1 finalizar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Quem \u00e9 o grande cineasta brasileiro na sua vis\u00e3o e por qu\u00ea que \u00e9 este?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Olha, dizem que citar Glauber \u00e9 chav\u00e3o, mas \u00e9 um grande cineasta, n\u00e9, o Glauber \u00e9 um grande cineasta, eu ainda conheci Glauber, eu conheci Glauber ele j\u00e1 cineasta, ele com 22 anos fazendo Deus e o Diabo (na Terra do Sol), e, de vez em quando, ele vinha aqui em Conquista e andava muito com uma b\u00edblia preta debaixo do bra\u00e7o, que era o livro de Eisenstein, que \u00e9 um dos maiores cineastas russos\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Sergei Mikhailovitch Eisenstein<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 \u00c9, Sergei Eisenstein. Ele andava muito com o Eisenstein. E muito tempo depois eu conheci Glauber assim, de bater papo, igual n\u00f3s estamos aqui. Quando ele fez o \u00faltimo filme dele, n\u00f3s fomos l\u00e1 no set, que era na Vila Romana, em Salvador, na Barra, eu ia fazer com ele\u2026 duas vezes tentei trabalhar com ele mas n\u00e3o deu certo\u2026 Ele fez o \u201cDrag\u00e3o da Maldade contra o santo guerreiro\u201d, que \u00e9 um dos primeiros roteiros cinematogr\u00e1ficos dele, que ele faz uma abordagem sobre Conquista, o discurso dele todo \u00e9 conquistense. O Drag\u00e3o, o personagem dele, Ant\u00f4nio das Mortes, \u00e9 um arqu\u00e9tipo conquistense, de um pistoleiro que matou Esmeraldino, que era casado com uma parenta da m\u00e3e dele; Esmeraldino era casado com a irm\u00e3 ou a tia de dona L\u00facia (Rocha) e foi um crime que arrasou a fam\u00edlia, um crime que causou p\u00e2nico, discuss\u00f5es, e Glauber era menino, tinha 4 anos de idade, ent\u00e3o Ant\u00f4nio das Mortes \u00e9 o arqu\u00e9tipo desse pistoleiro, \u00e9 um pistoleiro que era exatamente como o Ant\u00f4nio das Mortes se vestia. ent\u00e3o o Glauber era um cara que\u2026 e depois, os filmes de Glauber s\u00e3o filmes que fazem uma abordagem do contexto brasileiro, da realidade brasileira, e s\u00e3o filmes inteligent\u00edssimos, porque ele faz um discurso n\u00e3o-manique\u00edsta , com in\u00edcio, meio e fim, Glauber faz um discurso que se voc\u00ea n\u00e3o tiver uma boa percep\u00e7\u00e3o voc\u00ea n\u00e3o entende, n\u00e3o sabe o que \u00e9 que ele t\u00e1 dizendo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Se cansa logo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 \u00c9\u2026 cansa logo e sai fora, entendeu? E ele, como muitos outros cineastas desse per\u00edodo, contribuiu muito para o cinema brasileiro. Voc\u00ea n\u00e3o pode deixar de citar o Nelson Pereira, n\u00e9, e at\u00e9 o Cac\u00e1 Diegues, entendeu? \u00c9\u2026 o Jabor\u2026 tem muitos cineastas que eu gosto, s\u00e3o meus amigos, e eu acho interessante. Como tem cineastas agora recente novos, moleques, que fazem um bom cinema. O cinema brasileiro n\u00e3o est\u00e1 mal, est\u00e1 muito bem, n\u00e9. S\u00f3 que \u00e9 um outro discurso, \u00e9 um outro contexto. Mas \u00e9 isso a\u00ed.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 E que discurso \u00e9 esse, esse novo discurso?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Contempor\u00e2neo, discurso da contemporaneidade, que entra n\u00e3o s\u00f3 o problema existencial como o problema psicol\u00f3gico, psicanal\u00edtico, n\u00e9, porque hoje o que predomina \u00e9 a exist\u00eancia, \u00e9 o ser, o que voc\u00ea \u00e9, \u201cnesse momento voc\u00ea \u00e9 o que?\u201d, \u201cvoc\u00ea quer ser o que?\u201d, ent\u00e3o esse \u00e9 que \u00e9 o grande mote, e a maioria dos filmes, n\u00e3o s\u00f3 brasileiros como os filmes europeus e americanos, desenvolvem esse discurso, do sentido, da exist\u00eancia, n\u00e3o \u00e9?, do sentido da exist\u00eancia, que s\u00e3o essas crises existenciais que n\u00e3o s\u00f3 o homem tem como a mulher, de defini\u00e7\u00e3o. Agora, isso tudo, diz a hist\u00f3ria, que j\u00e1 existiu no passado, \u00e9 que n\u00f3s n\u00e3o conhecemos a hist\u00f3ria, n\u00f3s conhecemos a nossa realidade que \u00e9 agora, ent\u00e3o achamos que est\u00e1 acontecendo agora, mas tudo isso j\u00e1 foi discutido e j\u00e1 foi vivenciado no passado. Eu n\u00e3o sei bem definir mas \u00e9 uma repeti\u00e7\u00e3o, a vida \u00e9 din\u00e2mica, \u00e9 constante, n\u00e9.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Voc\u00ea falou a\u00ed numa safra nova. Voc\u00ea participou de Central do Brasil. Fala um pouco a\u00ed sobre essa participa\u00e7\u00e3o sua.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Foi a safra nov\u00edssima, porque o cinema tava morto. Quando o Collor entrou na sistem\u00e1tica da conjuntura ele destruiu com a Embrafilmes, ent\u00e3o tudo o que vinha at\u00e9 ent\u00e3o do Cinema Novo e o cinema da Embrafilmes que queria desenvolver e implantar a ind\u00fastria nacional, a\u00ed acabou. Ent\u00e3o o cinema ficou um per\u00edodo, morto. Uns sete anos, seis anos sem acontecer nada\u2026 e o Waltinho (Walter Sales), quando Waltinho surgiu como documentarista, e a\u00ed quando veio fazer o Central do Brasil ele trouxe um g\u00e1s novo, uma energia nova, n\u00e3o \u00e9? Ele foi um cara que queimou um fogareiro, fuma\u00e7ou e deu um bom resultado, ent\u00e3o foi a partir desse momento que o cinema revigorou-se, n\u00e9, para produ\u00e7\u00e3o nacional. Ent\u00e3o foi muito importante. E eu estava aqui de bobeira, conheci o pessoal que trabalhava com ele, o pessoal da produ\u00e7\u00e3o, e a\u00ed ele falou assim: \u201cP\u00f4, Gild\u00e1sio, eu j\u00e1 fiz tudo o que tinha que fazer com voc\u00ea, eu filmei em Milagres, em Salvador, e eu n\u00e3o tenho nada pra te oferecer, eu s\u00f3 tenho uma apari\u00e7\u00e3o de um personagem de uma figura num \u00f4nibus\u201d; e eu digo: \u201cmas n\u00e3o tem problema n\u00e3o, Walter, eu fa\u00e7o com o maior prazer\u201d. E a\u00ed n\u00f3s fomos l\u00e1, foram dois dias de filmagem, e a apari\u00e7\u00e3o desse personagem virou\u2026 ele falou \u201c\u00d3, Gild\u00e1sio, depois que voc\u00ea apareceu, virou personagem. Voc\u00ea \u00e9 um personagem no filme\u201d. E eu apare\u00e7o um minuto e meio, e \u00e9 marcante minha apari\u00e7\u00e3o. Eu recebi cart\u00f5es de amigo meu da Europa, da Am\u00e9rica, amigos da minha \u00e1rea, falando assim: \u2018porra, bicho, eu lhe vi hoje no Central do Brasil\u2019; e fazem algumas abordagens sobre a minha participa\u00e7\u00e3o, porque s\u00f3 houve um corte: eu estou lendo um jornal \u2013 eu me tornei um personagem que era um vendedor de rem\u00e9dio, que tava dentro do \u00f4nibus, viajando juntamente com a Dora e com o menino; o menino, ela ia em viagem ao norte em busca do pai do menino, e ela toma um gor\u00f3, fica b\u00eabada, o menino bebe a metade e come\u00e7a a peruar dentro do \u00f4nibus. Eu estou no \u00f4nibus lendo um jornal. Eu virei um personagem, um vendedor de rem\u00e9dio. Eu olho pra ela e digo: \u201cgostosa\u201d. Ela me chama de palha\u00e7o. S\u00f3 que o \u2018gostosa\u2019 eles cortaram. O Walter disse: \u201c\u00f3, eu tive que cortar porque foi uma tomada s\u00f3\u201d, e a\u00ed ele conservou e disse: \u201cvoc\u00ea virou personagem do filme\u201d. Ent\u00e3o foi bom a participa\u00e7\u00e3o, agora, eu acho o seguinte: \u00e9 um grande filme, \u00e9 um filme interessante. O Waltinho desenvolveu um discurso sobre a quest\u00e3o do menino, da inf\u00e2ncia, quando ele poderia tamb\u00e9m ter desenvolvido um discurso sobre a Dora, que \u00e9 uma mulher sexagen\u00e1ria, professora, pobre, miser\u00e1vel, sem marido, sem nada, e sofrendo, que \u00e9 a realidade hoje da mulher, ent\u00e3o ele n\u00e3o aprofundou nisso a\u00ed, ele disse que n\u00e3o tinha como, que n\u00e3o tinha limites pra poder aprofundar nesse discurso\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Ele escolheu o garoto\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 \u00c9\u2026 e o foco foi o garoto, mas o personagem de Dora \u00e9 interessant\u00edssimo, e voc\u00ea percebe, como eu percebi, fazendo essa leitura, por isso ela foi indicada pra disputar o Oscar, e foi a primeira vez que eu disputei o Oscar em Hollywood (risos).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Me diga uma coisa: quem \u00e9 Gild\u00e1sio Leite por Gild\u00e1sio Leite.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 (Pausa dram\u00e1tica e meditativa\u2026) Eu sou um conquistense, que passou a racionalizar e a visualizar a minha cidade, o meu pi\u00e3o, eu rodo em cima do meu pi\u00e3o, por isso eu estou aqui hoje sentado falando com voc\u00eas. E t\u00f4 sempre aqui em Conquista, rodando em cima do meu pi\u00e3o, e querendo entender o meu contexto, a minha realidade, porque foi da\u00ed que eu surgi, que eu passei a ser eu. Porque se n\u00e3o fosse isso, se eu n\u00e3o tivesse essa percep\u00e7\u00e3o, eu n\u00e3o seria Gild\u00e1sio Leite, eu n\u00e3o teria essa preocupa\u00e7\u00e3o com o momento atual, com a realidade brasileira, e nem esse contexto em que n\u00f3s vivemos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Me d\u00e1 um pouquinho da sua biografia pra mim, o dia que voc\u00ea nasceu, data, nome de pai, nome de m\u00e3e, nome dos av\u00f3s que te criaram\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Rapaz\u2026 o meu av\u00f4 era um coronel conquistense, Inoc\u00eancio Alves Botelho. Ele usava botina at\u00e9 o joelho, era muito amigo de dr. Cresc\u00eancio (Silveira), do seu Cazu, anterior \u00e0 gera\u00e7\u00e3o de Cresc\u00eancio Silveira, mas era contempor\u00e2neo de dr. R\u00e9gis seu Cazu. E ele veio pra Conquista como todos os conquistenses que fizeram essa cidade, n\u00e9, porque ningu\u00e9m nasceu do ovo, n\u00e9, veio pra c\u00e1 pra fazer essa cidade, e ele tamb\u00e9m veio nessa cidade. Meu av\u00f4 era tropeiro e a\u00ed e veio pra Volta Grande aqui, indo pra Barra do Cho\u00e7a\u2026 Essa gera\u00e7\u00e3o do Cho\u00e7a, desse lado de c\u00e1, tem uma cultura, o lado de baixo tem outra cultura, sabia? Aqui nos\u2026 descendo pro Rio, indo pra Itamb\u00e9, tem outra cultura, indo pra Anag\u00e9 tem outra cultura, \u00e9 um um feixe, s\u00e3o quatro raios, que pra voc\u00ea entender Conquista, entender a suas hist\u00f3ria, \u00e9 preciso entender isso a\u00ed: do Cho\u00e7a, essa regi\u00e3o aqui de Itamb\u00e9, n\u00e9, que \u00e9 dos Jiboeiros, a sa\u00edda aqui de Anag\u00e9.. \u00e9\u2026 essa regi\u00e3o, e dominava aqui nesse reduto aqui de do Cho\u00e7a, \u00e9 onde tinham muitos coron\u00e9is que dominavam, ent\u00e3o\u2026 a gera\u00e7\u00e3o foi muito grande, meus tios foram muito influentes aqui na cidade, influentes politicamente, foi atrav\u00e9s de meu tio, irm\u00e3o de minha m\u00e3e, (?) Botelho que eu conheci, eu comecei a fazer pol\u00edtica com Pedral.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Ok\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 A minha av\u00f3 era Tecla Amorim Botelho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Tecla?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Tecla. Tecla. \u00c9 dos Amorins do Cho\u00e7a e os Botelhos vieram pra c\u00e1 de origem portuguesa, tem muitos Botelhos em Anag\u00e9, aqui em Conquista e no Rio de Janeiro, em Salvador tem muitos Botelhos, que s\u00e3o da fam\u00edlia do meu av\u00f4, eram sete irm\u00e3os. \u00c9 interessante: eu andei pesquisando, porque eu n\u00e3o sabia, n\u00e3o conhecia a minha fam\u00edlia, n\u00e3o conhecia a minha \u00e1rvore, meu pai \u00e9 Leite, meu pai \u00e9 de Minas Gerais, de Monte Verde, veio via Brumado, Itua\u00e7u, pra Conquista\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Qual \u00e9 o nome dele?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Te\u00f3dolo de Oliveira Leite, \u201cseu Duzinho\u201d, pai de Br\u00e1ulio Leite, Arm\u00e9nio, Crem\u00edlda e Alt\u00edna, pois ele era vi\u00favo e j\u00e1 tinha esses quatro filhos que s\u00e3o meus irm\u00e3os. Depois campiando uma namorada conheceu minha m\u00e3e Dona Janoca, Joana Alves Botelho, filha de seu Inoc\u00eancio Alves Botelho, gerando mais tr\u00eas rebentos que somos n\u00f3s: Geovane, Grimaldo e eu Gild\u00e1sio leite. Eu fui criado nesse contexto a\u00ed, de fam\u00edlia, e ele n\u00e3o teve influ\u00eancia de mando, de mandonismo em Conquista. \u00c9 tanto que eu comecei logo garoto, com quatro, cinco anos, em 58, fazendo pol\u00edtica de Pedral! Meu tio era f\u00e3 e era partid\u00e1rio do grupo PSD em Conquista. E eu andava com eles, e a cartilha que eu lia era essa cartilha deles. Ent\u00e3o eu j\u00e1 tava no palanque, eu fiz muito discurso produzido por Everardo, e eu fazia muito discurso, \u00e9\u2026 eu gostava de representar e j\u00e1 discursava, nos palanques de esquerda, contestando a realidade. Eu tive essa influ\u00eancia. Mas logo depois eu fui embora e a coisa gerou por outros caminhos aqui e eu fiz outro caminho, de Salvador. Mas no come\u00e7o, eu tive essa participa\u00e7\u00e3o, 58, 62, quando Pedral foi cassado, n\u00f3s est\u00e1vamos no Jardim das Borboletas, assistimos tudo, a pris\u00e3o, a missa de A\u00e7\u00e3o de Gra\u00e7as na Catedral, n\u00e9, e os acontecimentos, que geravam em torno dos fatos pol\u00edticos nessa \u00e9poca. Mas quando eu fui pra Salvador j\u00e1 foi em 60\u2026 eu fui em 65, depois retornei, voltei, em 67 eu j\u00e1 tava na faculdade, tinha feito vestibular e em 67 j\u00e1 estava cursando universidade, ent\u00e3o eu sa\u00ed daqui e fiquei fora 20 anos. Mas sempre sabendo dos acontecimentos da cidade. Sempre vinha aqui. Eu morei no Rio, morei em S\u00e3o Paulo, mas n\u00e3o deixava de vir no Natal, vir no S\u00e3o Jo\u00e3o em Conquista, e por dentro de todo esse fervilhar pol\u00edtico daqui. Agora, em 80, de 80 pra c\u00e1, eu vim fazer um espet\u00e1culo e dei um tempo aqui em Conquista, fiquei por aqui\u2026 Antes da Abertura tava imposs\u00edvel viver na Bahia, porque a ditadura, a censura era ferrenha, foi o per\u00edodo que muitos contempor\u00e2neos meus sa\u00edram de Salvador e foram pra Chapada, pro Rio, desceram, foram pra Chapada, por exemplo: Pola, Edgar Navarro, muitos cineastas, sabe, sa\u00edram de Salvador e foram pra Chapada, e eu fui um dos que vim pra Conquista. Fui morar onde: dentro da fazenda. Eu tinha uma gleba de terra, fiz uma casinha e a\u00ed, fui morar na fazenda e foi onde gerei meus filhos, nasceram 4 filhos meus aqui, nessa \u00e9poca.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Quais os nomes deles, de seus filhos\u2026 ?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Pauline, Paulo Tiago, Gabriele e Jo\u00e3o Gabriel, todos da \u00e1rea de cinema ou de televis\u00e3o. Todos eles trabalham na \u00e1rea.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Voc\u00ea n\u00e3o falou o nome da sua m\u00e3e\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Minha m\u00e3e \u00e9 Janoca. Joana Botelho Leite.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Voc\u00ea est\u00e1 \u00e0 ca\u00e7a do filme \u201cO Tropeiro\u201d. Porque voc\u00ea quer tanto esse filme?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Porque, bicho, eu vivenciei esse per\u00edodo, entendeu, eu j\u00e1 conhecia A\u00e9cio, eu era muito curioso, eu conhecia Glauber como eu conhecia A\u00e9cio. A\u00e9cio \u00e9 primo de Glauber; A\u00e9cio (Andrade) saiu daqui moleque e foi pro Rio de Janeiro, estudou no Conservat\u00f3rio Nacional de Teatro. Quando eu sa\u00ed daqui pra fazer teatro, eu fui pro Rio, a\u00ed eu fui pro conservat\u00f3rio que era a \u00fanica escola de artes c\u00eanicas e artes do Brasil. L\u00e1, A\u00e9cio estudava cinema, depois disse: \u201cbicho, eu vou fazer um filme em Conquista\u201d, e a\u00ed ele veio em 61 fazer esse filme aqui, \u201cO Tropeiro\u201d, que \u00e9 um argumento em cima do Tamandu\u00e1, que \u00e9 o retorno pra vingar a morte dos dois irm\u00e3os. O tropeiro \u00e9 exatamente isso. E a\u00ed vem muita gente de Pernambuco, do Rio, de S\u00e3o Paulo, do Rio Grande do Sul\u2026 eu convivia com esse pessoal todo e acompanhei todo o processo de filmagem, do set, acompanhei algumas seq\u00fc\u00eancias de filmagem, com A\u00e9cio e com a equipe, n\u00e9, ent\u00e3o participei at\u00e9 de instantes; tem uma seq\u00fc\u00eancia de uma luta l\u00e1 no Igu\u00e1 que eu participei, eu estou atr\u00e1s de uma cerca, numa luta de fac\u00e3o, e \u00e9 o \u00fanico momento que eu estou no filme, nas primeiras vers\u00f5es do filme eu estava, agora a \u00faltima eu n\u00e3o sei. A\u00e9cio me disse que o filme estava telecinado pra fazer uma c\u00f3pia em DVD, e n\u00e3o foi feita at\u00e9 hoje, e eu fico brigando, catando A\u00e9cio em todo canto pra poder fazer, porque esse filme \u00e9 importante pra hist\u00f3ria de Conquista e do cinema baiano. Embora seja um filme que tenha, assim, uma certa apela\u00e7\u00e3o na linguagem, porque foi um filme que deu p\u00fablico, o pessoal ia pro cinema pra ver o tropeiro, n\u00e3o s\u00f3 pelo tropeiro em si, n\u00e9, pela hist\u00f3ria em si, como a explora\u00e7\u00e3o que existia no filme da chanchada, da pornochanchada, ele utilizou muito isso. As personagens andavam seminuas, entendeu? Tinha uma personagem que chamava \u201cIngrid L\u2019amour que era uma atriz francesa que n\u00e3o veio, mas ele trouxe uma atriz do Rio de Janeiro\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 \u00c9 uma francesa gen\u00e9rica\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 \u00c9, gen\u00e9rica (risos) com o nome \u201cL\u2019amour\u201d, que \u00e9 interessant\u00edssimo, e quem usufru\u00eda dela era o ator conquistense que fazia o personagem, que era filho de\u2026 irm\u00e3o de\u2026 um ator baiano que, quando participou do filme\u2026 o Osan\u00e1, Osan\u00e1 Rocha, que \u00e9 um ator\u2026 n\u00e3o era um ator, era um conquistense que\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Fez uma ponta\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 N\u00e3o, ele \u00e9 ator, porque ele contribuiu com a produ\u00e7\u00e3o do filme e virou ator. Era \u2018posudo\u2019 e virou ator. Mas esse filme \u00e9 interessante. Est\u00e3o brigando, t\u00e3o dizendo que o filme vai surgir a\u00ed e eu tou cobrando; agora no final do ano eu tava em Salvador com um amigo meu que tinha o endere\u00e7o de A\u00e9cio, n\u00f3s tentamos falar com A\u00e9cio mas n\u00e3o atendeu, n\u00e3o respondeu, ent\u00e3o passamos um e-mail, ele ficou de responder e eu n\u00e3o sei do resultado. Mas estamos querendo ver porque a gente tem condi\u00e7\u00e3o de fazer a c\u00f3pia, j\u00e1 que t\u00e1 todo com o roteiro em negativo com tratamento, em telecine d\u00e1 pra sair. N\u00e3o d\u00e1 pra sair pel\u00edcula porque \u00e9 muito caro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Quem foi o maior pilantra da hist\u00f3ria do Brasil? Assim, o mais vagabundo?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Da hist\u00f3ria do Brasil?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Pode ser contempor\u00e2nea, tamb\u00e9m\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Porra, bicho\u2026 n\u00e3o diga isso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Aquele pilantra, assim, que \u2018c\u00ea fala assim\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Bom, na pol\u00edtica, eu acho o paulista, n\u00e9, o que era prefeito, que foi governador de S\u00e3o Paulo\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Maluf?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Maluf.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Voc\u00ea acha que ele supera Collor?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 \u00c9\u2026 ele supera Collor. Agora, Collor n\u00e3o foi t\u00e3o malandro assim, n\u00e3o, certo; o Collor\u2026 ele n\u00e3o foi. A pilantragem maior\u2026 A pilantragem maior dentro do contexto brasileiro, da conjuntura brasileira, foi o Mensal\u00e3o! Foi pior do que os trinta mirr\u00e8is que a tiazinha do Collor puxou pra poder fazer a casa da Dinda.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Voc\u00ea j\u00e1 passou poucas e boas nesse neg\u00f3cio de cinema pol\u00edtico, n\u00e3o \u00e9?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Olha, eu estava em\u2026 em 69, eu tava gravando uma passeata na pra\u00e7a Castro Alves, com Jo\u00e3o Jorge Amado, o filho de Jorge Amado, ele com uma Super 8, eu com ele gravando, eu gravava e ele gravava, \u00e9 muito meu amigo o Jo\u00e3o Jorge Amado, filho mais velho de Jorge\u2026 a\u00ed, n\u00f3s est\u00e1vamos de frente ao A Tarde, a pol\u00edcia tinha atirado em um garoto e tinha matado um garoto, de frente ao Cine Guarani. Ent\u00e3o n\u00f3s est\u00e1vamos no A Tarde, diante daquele tumulto, toda aquela discuss\u00e3o, vinha a viatura, leva pro IML, e prende, e tal, e n\u00f3s est\u00e1vamos gravando esse material. A\u00ed chega sabe quem? Ettiene, coronel da PM, pica-lhe a Fanta aqui no meu pesco\u00e7o, a c\u00e2mera cai, Jo\u00e3o Jorge pega a c\u00e2mera, ele toma a c\u00e2mera de Jo\u00e3o Jorge e pega uma sacola de fita que n\u00f3s gravamos toda a passeata. Eu s\u00f3 fiquei com a fita pequena de super 8 que \u00e9 400 p\u00e9s, cinco minutos, s\u00f3, n\u00f3 bolso da camisa, e ele levou tudo, e n\u00e3o recuperamos. E prenderam a mim e Jo\u00e3o Jorge. Na Tarde ali da pra\u00e7a Castro Alves, dona Regina, o pessoal, liga pra ACM\u2026 Quem atende \u00e9 Luis Eduardo Magalh\u00e3es. A\u00ed Luis aparece l\u00e1 e consegue contornar a situa\u00e7\u00e3o. Solta Jo\u00e3o Jorge e a\u00ed quer me levar preso. Jo\u00e3o Jorge falou: \u201cN\u00e3o, Gild\u00e1sio est\u00e1 comigo, eu s\u00f3 vou se Gild\u00e1sio tiver solto\u201d; e a\u00ed foi que eu sa\u00ed. Mas se n\u00e3o eu seria preso. Foi interessante esse fato (risos\u2026).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Ent\u00e3o foi o dia em que ACM te salvou?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Foi\u2026 Luis Eduardo. Eu conhecia muito Luis Eduardo. Mas foi dona Regina que ligou pra poder resolver a situa\u00e7\u00e3o por causa de Jo\u00e3o Jorge. n\u00e9. Jorge Aamado\u2026 ningu\u00e9m mexia com Jorge Amado. Mas Jo\u00e3o Jorge indo preso\u2026 e era Ettiene, bicho, eu conhecia Ettiene. Eu conheci aqui, e aparece o fantasma l\u00e1 em Salvador, de frente ao A Tarde.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">NOTAS DO EDITOR-BLOGUEIRO:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">* O Circo Nerino esteve em Vit\u00f3ria da Conquista em 1958 entre 18 de junho e 12 de agosto. O Circo Nerino nasceu em Curitiba, PR, no ano de 1913, e apresentou seu \u00faltimo espet\u00e1culo em 1964, na cidade de Cruzeiro, SP. Durante quase 52 anos, num vai e vem cont\u00ednuo, circulou por todo o Brasil: sul, sudeste, norte, nordeste, centro-oeste. Viajou de trem, navio, barca\u00e7a e, por fim, de caminh\u00e3o em estradas de terra que na \u00e9poca eram de terra mesmo. E numa \u00e9poca em que o circo era o maior , quando n\u00e3o o \u00fanico, espet\u00e1culo das terras do Brasil.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">** Serguei Mihailovitch Eizenshtein foi um dos mais importantes cineastas sovi\u00e9ticos. Foi tamb\u00e9m um film\u00f3logo. Relacionado ao movimento de arte de vanguarda russa, participou ativamente da Revolu\u00e7\u00e3o de 1917 e da consolida\u00e7\u00e3o do cinema como meio de express\u00e3o art\u00edstica. Notabilizou-se por seus filmes mudos Strike, O Coura\u00e7ado Potemkin e Outubro: Dez Dias que Abalaram o Mundo, assim como os \u00e9picos hist\u00f3ricos Alexander Nevsky e Ivan, o Terr\u00edvel. Sua obra influenciou fortemente os primeiros cineastas devido ao seu uso inovador de escritos sobre montagem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">*** Seu Cazu: Casemiro Gomes Cardoso, geralmente conhecido como \u201cSeu Cazu\u201d, nasceu no munic\u00edpio de Urandi (BA), quando ainda pertencia a Caetit\u00e9 (BA), no dia 4 de mar\u00e7o de 1876. Chegou a Conquista no dia 11 de agosto de 1911 e dedicou toda sua atividade de trabalho a sua fazenda de pecu\u00e1ria e ao com\u00e9rcio de gado. Casou-se com D. C\u00e2ndida Silveira (irm\u00e3 do m\u00e9dico Cresc\u00eancio Silveira) no dia 23 de fevereiro de 1907, com quem teve 10 filhos, todos conquistenses, com exce\u00e7\u00e3o do primog\u00eanito (Moderato). Faleceu nesta cidade em 3 de abril de 1979, aos 103 anos de idade. A sua longevidade o fez presenciar o crescimento e o desenvolvimento de Vit\u00f3ria da Conquista (Taberna da Hist\u00f3ria).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">**** Quem se lembra de O tropeiro, de A\u00e9cio F. Andrade, que parece ser oriundo de Vit\u00f3ria da Conquista? Realizado em 1964, conta com Mozart Cintra, Elizabeth Imperial, Carlos Aquino, Jurema Penna (grande atriz baiana da Escola de Teatro de Martim Gon\u00e7alves), Mozael Silveira. Vale observar que a dire\u00e7\u00e3o de arte deste filme vem assinada por Agnaldo Siri Azevedo, que mais tarde \u00e9 o diretor de produ\u00e7\u00e3o preferido de Glauber Rocha. E a m\u00fasica do grande Remo Usai. A fotografia de Waldemar Lima, o mesmo iluminador de Deus e o diabo na terra do sol. Filme raro e desaparecido, portanto, que est\u00e1 apenas na mem\u00f3ria daqueles que participam de sua elabora\u00e7\u00e3o muitos dos quais j\u00e1 mortos. Curioso \u00e9 constatar que a montagem \u00e9 de Calazans Neto, artista pl\u00e1stico de renome.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fonte: http:\/\/setarosblog.blogspot.com\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Li no Blog do F\u00e1bio Sena que mais um nome da nossa cultura nos deixou. Trata-se de Gild\u00e1sio Leite, um homem cheio de sonhos e que realizou muitos deles. Gild\u00e1sio foi um amante das artes, seu foco principal foi o cinema, foi vanguardista nessa \u00e1rea, deixou sua marca nas produ\u00e7\u00f5es e tamb\u00e9m deixou a sua [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":15820,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[7,1],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.blogdomassinha.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15819"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.blogdomassinha.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.blogdomassinha.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogdomassinha.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogdomassinha.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=15819"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.blogdomassinha.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15819\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":15821,"href":"https:\/\/www.blogdomassinha.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15819\/revisions\/15821"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogdomassinha.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/media\/15820"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.blogdomassinha.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=15819"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogdomassinha.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=15819"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogdomassinha.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=15819"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}