{"id":13610,"date":"2018-07-25T15:25:01","date_gmt":"2018-07-25T18:25:01","guid":{"rendered":"http:\/\/www.blogdomassinha.com.br\/v1\/?p=13610"},"modified":"2018-07-25T15:25:01","modified_gmt":"2018-07-25T18:25:01","slug":"o-cansaco-democratico-explica-se-pelo-sucesso-da-propria-democracia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogdomassinha.com.br\/v1\/2018\/07\/25\/o-cansaco-democratico-explica-se-pelo-sucesso-da-propria-democracia\/","title":{"rendered":"O cansa\u00e7o democr\u00e1tico explica-se pelo sucesso da pr\u00f3pria democracia"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: left;\"><a href=\"http:\/\/www.blogdomassinha.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/04339818-DACE-4F25-9738-107EDC05CBD6.jpeg\" class=\"gallery_colorbox\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter wp-image-13624\" src=\"http:\/\/www.blogdomassinha.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/04339818-DACE-4F25-9738-107EDC05CBD6.jpeg\"  alt=\"04339818-DACE-4F25-9738-107EDC05CBD6\" width=\"500\" height=\"223\" srcset=\"https:\/\/www.blogdomassinha.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/04339818-DACE-4F25-9738-107EDC05CBD6.jpeg 750w, https:\/\/www.blogdomassinha.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/04339818-DACE-4F25-9738-107EDC05CBD6-300x134.jpeg 300w\" sizes=\"(max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><b>Por Jo\u00e3o Pereira Coutinho*<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quem disse que a democracia era eterna? Ningu\u00e9m. Mas palpita ainda no cora\u00e7\u00e3o do homem civilizado a cren\u00e7a de que essa forma de governo estar\u00e1 entre n\u00f3s at\u00e9 ao fim dos tempos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma ideia t\u00e3o otimista seria ris\u00edvel \u00e0 luz da hist\u00f3ria do pensamento pol\u00edtico. Plat\u00e3o \u00e9 o exemplo mais extremo: a democracia faz parte de um movimento c\u00edclico de regimes \u2014e, para ele, \u00e9 uma forma degenerada de governo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Depois da democracia, haver\u00e1 um tirano para p\u00f4r ordem no pardieiro; e, depois do tirano, haver\u00e1 novamente uma aristocracia, que ser\u00e1 suplantada por uma timocracia, que ser\u00e1 suplantada por uma oligarquia, at\u00e9 a democracia regressar. Nada perdura.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 precisamente esse pensamento l\u00fagubre que percorre uma moda editorial recente \u2014livros sobre o fim, real ou imagin\u00e1rio, da democracia liberal. Na sua coluna mais recente, Otavio Frias Filho j\u00e1 abordou o assunto. Continuo pelo mesmo caminho com David Runciman e o recente &#8220;How Democracy Ends&#8221;.<!--more--><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aviso j\u00e1: n\u00e3o \u00e9 uma das melhores colheitas de Runciman. Mas o livro, disparando em v\u00e1rias dire\u00e7\u00f5es, consegue acertar em alguns alvos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O primeiro lida com os contornos desse hipot\u00e9tico fim: se a democracia chegar ao seu termo, n\u00e3o teremos uma repeti\u00e7\u00e3o de 1930, defende Runciman. N\u00e3o teremos viol\u00eancia de massas, movimentos armados, tanques nas ruas. Vivemos em sociedades radicalmente diferentes \u2014mais afluentes, envelhecidas, conectadas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E, al\u00e9m disso, conhecemos o pre\u00e7o da brutalidade autorit\u00e1ria e totalit\u00e1ria. As nostalgias reacion\u00e1rias s\u00e3o coisa de jovens: eles desejam o que ignoram e ignoram o que desejam.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas se os &#8220;golpes tradicionais&#8221; s\u00e3o improv\u00e1veis, h\u00e1 formas invis\u00edveis de conseguir o mesmo objetivo: pela gradual suspens\u00e3o da ordem legal; pelo recurso a elei\u00e7\u00f5es fraudulentas; pela marginaliza\u00e7\u00e3o dos freios e contrapesos do regime. O que se passa nas Filipinas, na Turquia ou na Pol\u00f4nia confirma-o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por outro lado, como discordar de Runciman sobre a eros\u00e3o da cultura c\u00edvica que servia de suporte \u00e0 experi\u00eancia democr\u00e1tica?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 1980, apenas 5% dos republicanos afirmavam que n\u00e3o gostariam de ver os filhos casados com democratas. Hoje, a cifra subiu para 49%. Imagino que seja o mesmo do outro lado das trincheiras.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por outras palavras: a democracia s\u00f3 sobrevive porque somos capazes de gerir as nossas frustra\u00e7\u00f5es quando os resultados nos s\u00e3o desfavor\u00e1veis. Essa toler\u00e2ncia diminui de ano para ano.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E diminui sob o chicote das redes sociais. Runciman acredita que o principal problema do mundo virtual est\u00e1 no poder praticamente ilimitado que os gigantes tecnol\u00f3gicos exercem sobre os usu\u00e1rios.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pessoalmente, o meu temor \u00e9 outro: o poder praticamente ilimitado que os usu\u00e1rios exercem sobre os poderes Executivo, Legislativo e at\u00e9 Judici\u00e1rio. A democracia representativa, como a express\u00e3o sugere, sempre foi um compromisso feliz entre a vontade do povo e a capacidade dos mais preparados de filtrar as irracionalidades do povo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O filtro perdeu-se com essa esp\u00e9cie de &#8220;democracia direta&#8221; que \u00e9 exercida pela multid\u00e3o sobre os agentes pol\u00edticos. A &#8220;tirania da maioria&#8221; \u00e9 agora mais real do que no tempo dos pais fundadores dos Estados Unidos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para que n\u00e3o restem d\u00favidas: n\u00e3o acredito em formas de governo eternas. Mas, at\u00e9 prova em contr\u00e1rio, a democracia liberal \u00e9 o \u00fanico regime que garante a liberdade pol\u00edtica e a dignidade pessoal dos indiv\u00edduos, bem como a prosperidade sustentada das suas sociedades. A hist\u00f3ria ilustra a tese.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas a hist\u00f3ria do presente tamb\u00e9m nos mostra que cresce no Ocidente um certo &#8220;cansa\u00e7o democr\u00e1tico&#8221;. E que partes crescentes do eleitorado, por ignor\u00e2ncia ou desespero, est\u00e3o dispostas a trocar a liberdade e a dignidade da democracia por expedientes mais radicais e securit\u00e1rios. Por qu\u00ea?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Devolvo a palavra a David Runciman. Para o autor, a democracia disseminou-se nos \u00faltimos dois s\u00e9culos porque havia uma narrativa aspiracional a cumprir.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Era necess\u00e1rio dar voz pol\u00edtica a todos os cidad\u00e3os (pobres, mulheres, negros etc.) e integr\u00e1-los na mesma rede de direitos e deveres (a grande tarefa do p\u00f3s-Segunda Guerra). Os Estados tinham ainda recursos materiais e institucionais para cumprir com razo\u00e1vel \u00eaxito esse programa. Eis a ironia: o cansa\u00e7o democr\u00e1tico explica-se pelo sucesso da pr\u00f3pria experi\u00eancia democr\u00e1tica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ningu\u00e9m sabe como ser\u00e1 o futuro dessa experi\u00eancia \u2014e Runciman n\u00e3o se atreve a fazer astrologia. Para ele, o diagn\u00f3stico basta: a democracia vive a crise da meia-idade. Resta saber se essa crise destr\u00f3i o casamento ou o torna mais forte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 uma boa met\u00e1fora. Que convida a outra: o casamento s\u00f3 ir\u00e1 sobreviver se a maioria conseguir redescobrir, com novos olhos, as virtudes que permanecem no lar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">*<i>Escritor, doutor em ci\u00eancia pol\u00edtica pela Universidade Cat\u00f3lica Portuguesa.<\/i><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Jo\u00e3o Pereira Coutinho* Quem disse que a democracia era eterna? Ningu\u00e9m. 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