{"id":12009,"date":"2018-03-20T08:43:41","date_gmt":"2018-03-20T11:43:41","guid":{"rendered":"http:\/\/www.blogdomassinha.com.br\/v1\/?p=12009"},"modified":"2018-03-20T08:43:41","modified_gmt":"2018-03-20T11:43:41","slug":"cem-anos-do-mestre","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogdomassinha.com.br\/v1\/2018\/03\/20\/cem-anos-do-mestre\/","title":{"rendered":"Cem anos do mestre"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/www.blogdomassinha.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/0B177264-2B4B-485A-9A32-60FEAA7E368D.jpeg\" class=\"gallery_colorbox\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter wp-image-12010\" src=\"http:\/\/www.blogdomassinha.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/0B177264-2B4B-485A-9A32-60FEAA7E368D-1024x712.jpeg\"  alt=\"0B177264-2B4B-485A-9A32-60FEAA7E368D\" width=\"500\" height=\"348\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ainda n\u00e3o era setenta. Falo de mil novecentos e setenta. Quis o destino, pelos corredores jesu\u00edtas, vieirenses pudesse seguir ao encontro de um grande homem, assim como meu pai. Sim, desde ent\u00e3o entendi que a grandeza do car\u00e1ter, o brilho da intelig\u00eancia s\u00e3o caracter\u00edsticas singulares, capazes de fazer figuras com pouco mais de metro e meio, gigantes em tudo.<br \/>\nNo Col\u00e9gio Ant\u00f4nio Vieira, onde pude encontrar as bases respons\u00e1veis por ser letrado, me tornei amigo de alma siamesa, sua filha, \u00c2ngela Chaves, amizade que conservo at\u00e9 hoje e para todo sempre, mesmo porque, o cosmos reserva passado presente e futuro, \u00e0queles que nunca deixaram e deixar\u00e3o de caminhar lado a lado.<br \/>\nDigo do Mestre Raul Chaves. Acordava ele, quando o rel\u00f3gio badalava pr\u00f3ximo \u00e0s dez da manh\u00e3. Seu caf\u00e9, sempre servido no quarto da casa linda postada ao limiar da Avenida Centen\u00e1rio, era sagrado. Lembro-me, certa feita, levado pelo professor a congresso na capital pernambucana, dentre figuras hoje representativas do cen\u00e1rio t\u00e9cnico jur\u00eddico da Bahia, a exemplo do \u00ednclito Professor Fernando Santana, de meu car\u00edssimo amigo, Conselheiro Pedro Lino, al\u00e9m de \u00c2ngela e outra figura inolvid\u00e1vel, Lucy, funcion\u00e1rio do hotel recusou entregar o repasto matinal, nos aposentos onde ele se achava, n\u00e3o prestavam dito servi\u00e7o. Pude ouvi-lo dizer, \u201ch\u00e1 mais de trinta anos meu desjejum \u00e9 servido na cama onde durmo\u201d e, diante das suas assertivas veementes, nada restou, sen\u00e3o quebrar o protocolo da hospedaria.<br \/>\nAssertivas veementes eram a t\u00f4nica daquele mago das palavras, da ret\u00f3rica, do argumento recheado de raz\u00f5es embasadas na doutrina, na jurisprud\u00eancia, respons\u00e1veis por faz\u00ea-lo, qui\u00e7\u00e1, o melhor advogado criminalista de seu tempo, terra \u201cbrasilis\u201d afora.<!--more--><br \/>\nEm terno branco de linho, impecavelmente engomado chegava \u00e0 Faculdade de Direito da Ufba., de onde foi Diretor e Coordenador, perto do meio dia, na qual ministrava aulas magn\u00edficas, \u00e0 pl\u00eaiade de discentes apaixonados por seu discurso, sempre impar. Por obvio, desde quando quem muito oferta, por demais cobra, o rigor imposto por ele, frente aos resultados nas provas de avalia\u00e7\u00e3o fazia tremer, todos quantos foram alunos seus.<br \/>\nDeus me permitiu o privil\u00e9gio de conviver por longo per\u00edodo, quando ainda findava formar meu car\u00e1ter, no seu reduto, templo de D. Myrthes &#8211; santa esposa -, \u00c2ngela, Reine, Raul Filho, Lana, assim como atendentes, tais quais Baba e Maria, verdadeiros anjos da guarda naquele lar, desde fins do ensino m\u00e9dio e durante os anos todos de vida universit\u00e1ria.<br \/>\nFrente ao televisor do saudoso santu\u00e1rio, de mil mem\u00f3rias inesquec\u00edveis assisti meu nome ser indicado como um dos aprovados da turma que ingressou na Faculdade de Direito, no ano de 1970, tempo que n\u00e3o volta. Tamb\u00e9m ali pude ver os gols que fizeram a sele\u00e7\u00e3o brasileira sagrar-se campe\u00e3 mundial, no M\u00e9xico e outras coisas tantas que calaram indelevelmente em minh\u2019alma.<br \/>\nNaquele canto especial\u00edssimo ouvi cantarem Vinicius, Toquinho e Mar\u00edlia Medalha, numa noite onde o poeta entoou para Lana, a ca\u00e7ula da fam\u00edlia, musica in\u00e9dita que versava: \u201cera uma casa muito engra\u00e7ada, n\u00e3o tinha teto, n\u00e3o tinha nada\u201d, quem sabe, energia duradoura capaz de me fazer arriscar rabiscar sonetos, nos tempos atuais.<br \/>\nDepois de ministrar as aulas partia o advogado incans\u00e1vel ao f\u00f3rum, no af\u00e3 de cumprir suas demandas. Na hip\u00f3tese de n\u00e3o ter que varar madrugadas, entre r\u00e9plicas e tr\u00e9plicas, nos j\u00faris hom\u00e9ricos dos quais foi protagonista, finais de tarde, atendia no escrit\u00f3rio famoso, posto em travessa da Rua da Ajuda, centro hist\u00f3rico de Salvador.<br \/>\nTestemunhei, junto aos demais, esposa, filhos, amigos, parentes e funcion\u00e1rios, muitas vezes, sua volta ao lar quando a noite j\u00e1 avan\u00e7ava e o vimos por jornais do pa\u00eds inteiro, sob a mesa da sala de jantar lendo-os de forma peripat\u00e9tica recortando aquilo o quanto interessava, para depois compilar artigos e not\u00edcias, em pastas que levava \u00e0 biblioteca, onde varava madrugadas preparando aulas, corrigindo provas, arrazoando textos manuscritos que seriam depois datilografados por F\u00e1tima, fiel escudeira, na velha maquina de escrever de antanho.<br \/>\nNuma destas noites estou naquela casa sublime, vestido numa camisa de bot\u00f5es, aberta abaixo do peito, quando chega o doutor e me pergunta, diante de todos os presentes. \u201cO Sr. acha que est\u00e1 aonde, para se postar desta forma\u201d. Engulo seco, bato em retirada, um tanto envergonhado deixando para tr\u00e1s os colegas, tamb\u00e9m meio sem jeito.<br \/>\nDia seguinte retorno, desta feita, \u201cchemisier\u201d fechado at\u00e9 o pesco\u00e7o. N\u00e3o sou admoestado pelo decano que deixa a sala e chama filha para aposento reservado, minha distinta amiga j\u00e1 colega acad\u00eamica. Em seguida \u00c2ngela retorna totalmente l\u00edvida e aduz: \u201cMeu pai perguntou se voc\u00ea est\u00e1 querendo desafi\u00e1-lo\u201d. Respondi, incontinenti, em tom alto, \u201cpor \u00f3bvio n\u00e3o\u201d pondo em seguida os bot\u00f5es no canto devido.<br \/>\nMinutos depois surge o homem, na porta do escrit\u00f3rio, ponto ladeado pela escada que acessava a sala principal, a partir dos dormit\u00f3rios postados na parte superior do im\u00f3vel dirigindo o olhar para mim, ato cont\u00ednuo segue na dire\u00e7\u00e3o do local aonde me achava e o sinto agigantar como nunca \u00e0 minha frente. Fita-me nos olhos, sorri aquele sorriso pequeno, delicado, mas grandioso, pr\u00f3prio de si mesmo, ent\u00e3o me abra\u00e7a. Todos os presentes se p\u00f5em assim at\u00f4nitos e estupefatos, n\u00e3o fui exce\u00e7\u00e3o.<br \/>\nAgora, quando esta figura &#8211; Dr. Raul Afonso Nogueira Chaves &#8211; completaria o centen\u00e1rio, neste plano temporal no qual estamos, conto ditas hist\u00f3rias, para dizer da sua import\u00e2ncia e do seu significado, diante de todos aqueles, nascidos ou n\u00e3o nesta Soter\u00f3polis, que tiveram a regalia de t\u00ea-lo perto bebendo na fonte de sua sabedoria, crescendo na esteira dos seus exemplos, numa \u00e9poca em que valores \u00e9ticos e morais est\u00e3o desgastados sobremaneira.<br \/>\nSaudades Mestre.<br \/>\nAbra\u00e7os,<br \/>\nDo irreverente e eterno aprendiz,<br \/>\nSalvador, mar\u00e7o de 2018<br \/>\nValdir Barbosa<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ainda n\u00e3o era setenta. 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