{"id":11902,"date":"2018-03-12T16:01:45","date_gmt":"2018-03-12T19:01:45","guid":{"rendered":"http:\/\/www.blogdomassinha.com.br\/v1\/?p=11902"},"modified":"2018-03-12T16:01:45","modified_gmt":"2018-03-12T19:01:45","slug":"encosto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogdomassinha.com.br\/v1\/2018\/03\/12\/encosto\/","title":{"rendered":"Encosto"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/www.blogdomassinha.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/nando-da-costa-lima.jpg\" class=\"gallery_colorbox\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter wp-image-2596\" src=\"http:\/\/www.blogdomassinha.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/nando-da-costa-lima.jpg\"  alt=\"nando da costa lima\" width=\"500\" height=\"422\" srcset=\"https:\/\/www.blogdomassinha.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/nando-da-costa-lima.jpg 540w, https:\/\/www.blogdomassinha.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/nando-da-costa-lima-300x253.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Por Nando da Costa Lima<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u200bMulher de poeta deve sofrer&#8230; Tem at\u00e9 quem ache que o SUS devia ter um servi\u00e7o de atendimento psicol\u00f3gico s\u00f3 para elas. Dona Marizilda que o diga! Casada com o poeta Cust\u00f3dio Carente da Silva, ela n\u00e3o perdia uma oportunidade para esculhambar com a \u201cra\u00e7a\u201d dos poetas, e o marido principalmente. Ela achava que o poeta ia tomar jeito depois da idade avan\u00e7ada, 78 anos n\u00e3o \u00e9 qualquer coisa. Mas ele continuava agindo como se fosse jovem, n\u00e3o podia ver uma mo\u00e7a bonita que fazia um verso. E ainda aparecia quem admirava aquele lenga, quase sempre, voltado para o amor. Dona Marizilda perdeu a cabe\u00e7a quando encontrou no bolso do poeta uma poesia quilom\u00e9trica dedicada a uma afilhada deles, dessa vez ele extrapolou. A mo\u00e7a, al\u00e9m de ser cria da casa, tinha idade pra ser neta daquele safado. Ela estava irredut\u00edvel, n\u00e3o ia passar o pouco que lhe restava da vida com um velho tarado que n\u00e3o respeitava nem a fam\u00edlia. A sorte dele \u00e9 que a menina era maior de idade, sen\u00e3o a esposa j\u00e1 tinha dado queixa na delegacia. Foi a\u00ed que chegou dona Elenilda e tentou acalmar a amiga, as duas estavam na fila do posto de sa\u00fade:<br \/>\n&#8211; Calma, Marizilda. Seu marido \u00e9 um poeta premiado, tem at\u00e9 livro publicado!<!--more--><br \/>\n&#8211; Poeta porra nenhuma, aquilo \u00e9 um encosto! Voc\u00ea t\u00e1 falando assim porque n\u00e3o sabe nada do que eu passei nesses 54 anos junto deste traste que voc\u00ea chama de poeta. Tive que sustentar esse merda a vida toda e voc\u00ea ainda tem coragem de me lembrar que ele \u00e9 poeta.<br \/>\n&#8211; Mas amiga, ele deve ter ganhado algum dinheiro com os livros que publicou. Se eu n\u00e3o me engano, foram mais de dez, todos dedicados a voc\u00ea.<br \/>\n&#8211; Se vendeu, aplicou no sinuc\u00e3o ou na cacha\u00e7a. No meu fog\u00e3o nunca passou um centavo daquele filho da puta.<br \/>\n&#8211; Calma, querida! Pra qu\u00ea botar o nome da m\u00e3e no meio da briga?<br \/>\n&#8211; Porque foi ela que pariu o merda do meu marido e mais oito poetas! A velha s\u00f3 teve filho imprest\u00e1vel, todos ficaram vi\u00favos cedo. As coitadas das mulheres n\u00e3o aguentaram o tranco. Imagina a\u00ed, Elenilda: uma casa com as contas todas vencidas, inclusive o aluguel. A\u00ed quando d\u00e1 duas da madrugada chega um safado b\u00eabado falando que ganhou mais um concurso de poesia. N\u00e3o tem mulher que aguente o baque! Ou endoida ou morre. S\u00f3 eu que sou osso duro de roer pra suportar. Mas agora, na velhice, ficar achando versos e mais versos de amor justificando uma brochada que aquele traste deu num motel com uma mo\u00e7a que tem idade pra ser neta dele. Chega de poeta!<br \/>\n&#8211; Bobagem&#8230; Voc\u00ea j\u00e1 suportou tanta coisa e vai sair do jogo por causa de mais um caso irrelevante que pelo visto nem se concretizou&#8230;<br \/>\n&#8211; Voc\u00ea viu o verso??? Eu at\u00e9 decorei. N\u00e3o \u00e9 nem verso, \u00e9 tipo um bilhete pedindo arrego: \u201cQuerida amada, quando lembro que n\u00f3s passamos uma noite juntos esperando meu amor fluir, o que infelizmente n\u00e3o aconteceu e voc\u00ea maldosamente me chamou de \u2018bal\u00e3o apagado\u2019, eu quase morri de vergonha! Como poeta choro e pe\u00e7o uma segunda chance\u201d e bl\u00e1, bl\u00e1, bl\u00e1&#8230;<br \/>\n&#8211; U\u00e9, amiga. \u00c9 s\u00f3 um bilhete se explicando. Voc\u00ea nem devia levar isso em conta.<br \/>\n&#8211; Me desculpe, mas por que voc\u00ea s\u00f3 interfere em favor do meu marido? Por acaso voc\u00ea conhece a pe\u00e7a?<br \/>\n&#8211; Mais ou menos. Ele \u00e9 amigo do meu marido, e c\u00e1 pra n\u00f3s, pior que o meu marido t\u00e1 pra nascer, n\u00e3o existe no mundo! Crispiniano vale por dez, d\u00e1 trabalho demais. Sem falar da prosa ruim&#8230;<br \/>\n&#8211; U\u00e9, voc\u00ea tamb\u00e9m casou com um poeta in\u00e9dito? A mo\u00e7a foi taxativa: bal\u00e3o apagado.<br \/>\n&#8211; Bem pior, minha querida. Meu marido \u00e9 m\u00fasico. J\u00e1 pensou ter que suportar um baterista \u201cinvocado\u201d e desempregado? O homem vende tudo da casa, menos a porra da bateria. \u00c9 o dia todo, \u00e0s vezes at\u00e9 \u00e0 noite, batucando naquilo. \u00c9 o meu calv\u00e1rio.<br \/>\n&#8211; Oxente! Eu tava me queixando da vida logo pra voc\u00ea, sendo que o seu caso \u00e9 bem pior que o meu. Baterista, al\u00e9m de geralmente ser sistem\u00e1tico, \u00e9 barulhento. Poeta n\u00e3o, tirando a cacha\u00e7a e arrumando um emprego&#8230; Um empreguinho bem leve!<br \/>\n&#8211; Pior \u00e9 minha irm\u00e3, que se casou com um ator que tem pra mais de cinquenta anos que fez uma ponta num filme. Seu \u00faltimo trabalho foi no filme \u201cO Tropeiro\u201d, o velho at\u00e9 hoje fala disso! Nem sei se foi conclu\u00eddo. Eu s\u00f3 sei que foi todo rodado aqui em Conquista e que Lulu Barabad\u00e1 trabalhou nele. Aparece nu montado num cavalo em pelo. Haja c\u00fa! Artista passa por cada aperto&#8230;<br \/>\n&#8211; Elenilda, eu t\u00f4 aqui morrendo de raiva, querendo me divorciar, voc\u00ea at\u00e9 fome t\u00e1 passando por causa daquele abestalhado metido a baterista. E voc\u00ea ainda me vem falar de um filme do tempo que a gente era crian\u00e7a&#8230; Tenha paci\u00eancia!<br \/>\n&#8211; \u00d4, amiga. Eu s\u00f3 falei do filme pra voc\u00ea relaxar, \u00e9 que eu estou sem saber como te dar a not\u00edcia&#8230;<br \/>\n&#8211; Que not\u00edcia, mulher. Desembucha!<br \/>\n&#8211; \u00c9 que aquela sua filha que mora em \u201cSompaulo\u201d, aquela que voc\u00ea falou que ia ficar solteirona, casou semana passada. Hoje que eu fiquei sabendo. Pronto falei!<br \/>\n&#8211; U\u00e9, e eu precisava ficar lembrando de um filme pra relaxar por que? Voc\u00ea acabou de me dar uma boa not\u00edcia. Casar uma filha aos 40 anos \u00e9 coisa rara!<br \/>\n&#8211; Eu sei, Marizilda. \u00c9 que o noivo \u00e9 ator, poeta e baterista de uma banda de garagem. O traste que se casou com sua filha \u00e9 meu enteado Simpl\u00edcio, lembra dele? Est\u00e3o vindo passar a lua de mel aqui.<br \/>\n&#8211; A\u00ed lascou, Elenilda. Isso \u00e9 not\u00edcia que se d\u00e1 pra uma m\u00e3e na fila do posto de sa\u00fade? Cruz credo! Sou sogra de Simpl\u00edcio Marcha Lenta, quando ele morava aqui j\u00e1 tinha esse apelido&#8230; Isso \u00e9 carma! Nos \u201cfinalmente\u201d da vida aparece outro poeta pra me pirra\u00e7ar.<br \/>\nNando da Costa Lima<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Nando da Costa Lima \u200bMulher de poeta deve sofrer&#8230; Tem at\u00e9 quem ache que o SUS devia ter um servi\u00e7o de atendimento psicol\u00f3gico s\u00f3 para elas. Dona Marizilda que o diga! 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