{"id":11795,"date":"2018-03-03T10:00:12","date_gmt":"2018-03-03T13:00:12","guid":{"rendered":"http:\/\/www.blogdomassinha.com.br\/v1\/?p=11795"},"modified":"2018-03-03T10:00:12","modified_gmt":"2018-03-03T13:00:12","slug":"ta-tudo-titirrane","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogdomassinha.com.br\/v1\/2018\/03\/03\/ta-tudo-titirrane\/","title":{"rendered":"T\u00e1 tudo titirrane"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/www.blogdomassinha.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/nando-da-costa-lima.jpg\" class=\"gallery_colorbox\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter wp-image-2596\" src=\"http:\/\/www.blogdomassinha.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/nando-da-costa-lima.jpg\"  alt=\"nando da costa lima\" width=\"500\" height=\"422\" srcset=\"https:\/\/www.blogdomassinha.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/nando-da-costa-lima.jpg 540w, https:\/\/www.blogdomassinha.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/nando-da-costa-lima-300x253.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>Por Nando da Costa Lima<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Renat\u00e3o nem quis pegar a catanica (coletivo) pra n\u00e3o sujar a roupa nova, tava parecendo que ia pra uma festa. Estava trajando o que havia de mais moderno na \u00e9poca (anos 70), at\u00e9 o cabelo ele mandou alisar. Dona Letra caprichou no \u201cferro quente\u201d, n\u00e3o ficou um fio enrolado. Renato demorou tanto tempo pra criar coragem e ir procurar Julinda&#8230; Ele queria chegar por cima, um verdadeiro \u201cp\u00e3o\u201d. Pra quem n\u00e3o viveu nesse tempo: \u201cp\u00e3o\u201d era o \u201cgato\u201d de hoje, ou seja, o \u201cp\u00e3o velho\u201d de hoje um dia j\u00e1 foi um \u201cgato\u201d.<br \/>\nRenato conheceu Julinda na ro\u00e7a. Ele era vaqueiro e estava com roupa de trabalho, at\u00e9 espora tava usando, isso sem falar na subaqueira de quem acabou de tirar leite duma cacetada de vacas. Talvez tenha sido isso que ati\u00e7ou a libido dela&#8230; Mas na cabe\u00e7a dele, ela ia acabar de apaixonar quando visse ele bonito e cheiroso. Estaria pronto pra passear de m\u00e3os dadas pelo Jardim das Borboletas, assistir o programa Alegria dos Bairros, visitar os presos na cadeia que ficava no pr\u00e9dio da prefeitura, ir numa matinal do Cine Gl\u00f3ria&#8230; Coisas simples, comuns aos enamorados daquela \u00e9poca. Tinha que estar bem vestido pra deixar todo mundo invocado! Por isso ele encomendou tudo de fora. Sua prima mandou de \u201cSompaulo\u201d, e ela caprichou: sapato cavalo de a\u00e7o, v\u00e1rias cal\u00e7as toureiro boca de sino, muitas mini blusas, uma pochete e um cinto que a fivela parecia uma bandeja inox. Renato ficou extasiado quando viu as roupas mandadas pela prima! Ia ficar mais bonito que Dot\u00f4 Alo\u00edsio Bonito.<!--more--><br \/>\nEle era vaqueiro por obriga\u00e7\u00e3o, uma heran\u00e7a de fam\u00edlia. Seu pai, seu av\u00f4&#8230; todo mundo tangeu gado nessa vida. Era a \u00fanica coisa que sabia fazer e fazia muito bem. Mas aquela belezura, apesar de um pouco mais velha que ele, tirou o vaqueiro do ch\u00e3o. Tinha que vir pra Conquista, j\u00e1 tava de saco cheio de tirar leite todo dia. Se a terra pelo menos fosse dele! N\u00e3o ia estragar sua juventude trabalhando duro, Julinda n\u00e3o ficaria esperando a vida toda. Tava resolvido: pediu as contas ao patr\u00e3o e de l\u00e1 da fazenda j\u00e1 saiu pra Conquista. Tava chic&#8230; Cal\u00e7a toureiro vinho, mini blusa do Fluminense, tamanco e \u00f3culos escuros. Fez o maior sucesso com a mulherada. J\u00e1 os homens achavam que o sujeito que usasse uma roupa daquelas sem ser artista s\u00f3 podia estar querendo virar \u201cbait\u00f4la\u201d. Mas nada disso abalou o jovem apaixonado.<br \/>\nSe as meninas da fazenda acharam que ele tava \u201clindro\u201d, imagine as da cidade? Mas ele s\u00f3 tinha olhos pra Julinda Marina, aquela senhora que ele tra\u00e7ou num curral cheio de lama e bosta de boi. Foi uma \u201caventura transcendental\u201d, segundo a hippie velha. Renato n\u00e3o tava nem a\u00ed pros vinte e poucos anos que ela tinha a mais que ele, Julinda era \u201ccabe\u00e7a\u201d! Falava ingl\u00eas, mandarim, praticava yoga, era diretora de cinema e tarada.<br \/>\nQuando Renat\u00e3o chegou na casa de Julinda Marina ela quase n\u00e3o o reconheceu. N\u00e3o tinha nada do vaqueir\u00e3o que \u201cpegou\u201d ela na lama do curral. Aquele cheiro de suor que ela tanto gostava deu lugar ao desodorante e ao perfume usados excessivamente, tava lascando! Ela acabou de se retar quando Renato, pra dar uma de avan\u00e7ado, perguntou: \u201cT\u00e1 tudo titirrane?\u201d e a pediu em casamento de supet\u00e3o. Ela s\u00f3 n\u00e3o desmaiou de raiva porque era uma mulher experiente. Mesmo assim, partiu pra ignor\u00e2ncia: \u201cDesinfeta, pe\u00e3o! Nem me lembro de ter lhe dado\u201d. E assim colocou o pretendente pra fora aos empurr\u00f5es. Explicando aos berros praquele provinciano que a trepada que eles deram na lama foi apenas um trabalho de laborat\u00f3rio pro seu pr\u00f3ximo filme! N\u00e3o seria ela que deixaria a ponte rodovi\u00e1ria Conquista-Salvador por um p\u00e9 rapado qualquer.<br \/>\nRenato n\u00e3o estava acostumado com aquelas modernagens. Aquela coroa feminista jogou \u00e1gua no brinquedo dele. Foi direto pro brega depois da desfeita, encheu o rabo de pinga no \u201cLago Azul\u201d, ficou a noite inteira contando sua desventura pras \u201cprimas\u201d. J\u00e1 voltou pra ro\u00e7a com um discurso pronto, n\u00e3o queria ser objeto de goza\u00e7\u00e3o. Foi por isso que criou aquela hist\u00f3ria que repetia como se fosse um disco arranhado: \u201cEm curral que eu trabalho, tiro leite de vaca, amanso burro brabo e velha assanhada metida a intelectual\u201d. Nem a prof.\u00aa Janoca, que era sua tia, suportava aquela prosa ruim. Foi n\u00e3o foi, uma feminista metia a m\u00e3o na cara dele: \u201cSe assunte, p\u00e3o velho!\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Nando da Costa Lima Renat\u00e3o nem quis pegar a catanica (coletivo) pra n\u00e3o sujar a roupa nova, tava parecendo que ia pra uma festa. Estava trajando o que havia de mais moderno na \u00e9poca (anos 70), at\u00e9 o cabelo ele mandou alisar. Dona Letra caprichou no \u201cferro quente\u201d, n\u00e3o ficou um fio enrolado. 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