{"id":11087,"date":"2018-01-16T16:51:11","date_gmt":"2018-01-16T19:51:11","guid":{"rendered":"http:\/\/www.blogdomassinha.com.br\/v1\/?p=11087"},"modified":"2018-01-16T16:51:11","modified_gmt":"2018-01-16T19:51:11","slug":"leis-nao-vao-demolir-os-racismos-mas-mudancas-nas-praticas-sociais-diz-professor-alberto-bomfim","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogdomassinha.com.br\/v1\/2018\/01\/16\/leis-nao-vao-demolir-os-racismos-mas-mudancas-nas-praticas-sociais-diz-professor-alberto-bomfim\/","title":{"rendered":"\u201cLeis n\u00e3o v\u00e3o demolir os racismos, mas mudan\u00e7as nas pr\u00e1ticas sociais\u201d, diz professor Alberto Bomfim"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_11088\" style=\"width: 410px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/www.blogdomassinha.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/9C0B7197-865A-4157-AD02-A0261AA965FB.jpeg\" class=\"gallery_colorbox\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-11088\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-11088\" src=\"http:\/\/www.blogdomassinha.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/9C0B7197-865A-4157-AD02-A0261AA965FB.jpeg\"  alt=\"9C0B7197-865A-4157-AD02-A0261AA965FB\" width=\"400\" height=\"255\" srcset=\"https:\/\/www.blogdomassinha.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/9C0B7197-865A-4157-AD02-A0261AA965FB.jpeg 650w, https:\/\/www.blogdomassinha.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/9C0B7197-865A-4157-AD02-A0261AA965FB-300x191.jpeg 300w\" sizes=\"(max-width: 400px) 100vw, 400px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-11088\" class=\"wp-caption-text\">Oxal\u00e1 brancos e pretos tenhamos voz para responder positivamente ao chamado de Bob Marley: \u201cVoc\u00ea n\u00e3o vai ajudar a cantar essas can\u00e7\u00f5es de liberdade?<\/p><\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>Por F\u00e1bio Sena e Fl\u00e1vio Passos<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Marco legal na luta contra o racismo e em favor da dissemina\u00e7\u00e3o, no ambiente escolar, de conhecimento sobre a Hist\u00f3ria e Cultura Afro-Brasileira, a Lei 10.639, de 2003, integra o acervo de conquistas hist\u00f3ricas que o movimento negro acumula e cujo desdobramento mais vis\u00edvel \u00e9 o rompimento com uma l\u00f3gica educacional que buscava naturalizar o negro como mero coadjuvante na hist\u00f3ria brasileira. Al\u00e7ado \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de protagonista nos conte\u00fados escolares, os negros puderam, enfim, ter compartilhada sua experi\u00eancia hist\u00f3rica, sua contribui\u00e7\u00e3o intelectual, pol\u00edtica e cultural na forma\u00e7\u00e3o da identidade nacional.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No ano em que s\u00e3o celebrados os 15 anos de san\u00e7\u00e3o da lei pelo ent\u00e3o presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva, o Di\u00e1rio Conquistense e o professor doutorando Fl\u00e1vio Passos \u2013 militante negro e pesquisador ass\u00edduo do tema \u2013 se articularam para fomentar o debate sobre os avan\u00e7os, os limites e as perspectivas da lei. A ideia \u00e9 colher, por meio de entrevistas, a opini\u00e3o de professores e pesquisadores do tema e construir um pensamento coletivo sobre a import\u00e2ncia de uma lei cuja aplica\u00e7\u00e3o ainda enfrenta entraves de natureza v\u00e1ria, dentre as quais um que parece nortear boa parte dos artigos sobre o tema: como ensinar sobre algo que n\u00e3o se conhece?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A primeira entrevista \u00e9 com o professor da rede municipal de ensino, Alberto Bomfim da Silva, graduado em Hist\u00f3ria pela Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia, especialista em Pol\u00edtica, Cultura e sociedade e mestre em Letras: Cultura, Educa\u00e7\u00e3o e Linguagens tamb\u00e9m pela UESB. Militante social, Alberto Bomfim \u00e9 professor do Curso Pr\u00e9-Vestibular Dom Clim\u00e9rio, administrado pela organiza\u00e7\u00e3o Agentes de Pastoral Negros e voltado principalmente a estudantes afro-brasileiros. Sondado sobre a possibilidade de esbo\u00e7ar um pensamento sobre o assunto, o professor imediatamente aceitou o convite e respondeu \u00e0s perguntas que lhe foram enviadas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Alberto Bomfim acredita que a Lei 1\u20190.639 representou um avan\u00e7o significativo no sentido de promover repara\u00e7\u00f5es em um sistema de ensino-aprendizado cuja forma\u00e7\u00e3o liga-se \u00e0s necessidades do projeto colonizador de cultura europeia nos s\u00e9culos XVI e XVII, a come\u00e7ar pela imposi\u00e7\u00e3o da L\u00edngua Portuguesa. Para o estudioso, \u201c\u00e9 um absurdo pensar que ainda hoje nossos alunos e professores falem de Mil\u00e3o ou York, mas n\u00e3o conhe\u00e7am nada sobre Lagos, na Nig\u00e9ria, cidade com a qual o Brasil possui muito maior pertencimento cultural e comercial\u201d.<!--more--><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Abaixo, na \u00edntegra, a primeira da s\u00e9rie de entrevistas que o Di\u00e1rio Conquistense e o Professor Fl\u00e1vio Passos v\u00e3o publicar no decorrer deste m\u00eas de janeiro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">DI\u00c1RIO CONQUISTENSE: A Lei 10.639, de 2003, completou 15 anos neste janeiro. Neste per\u00edodo, \u00e9 poss\u00edvel apontar o que significou a lei no combate ao racismo?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">ALBERTO BOMFIM: Eu n\u00e3o conseguiria agregar num texto todos os significados que cercam o tema, mas chamo aten\u00e7\u00e3o de alguns aspectos: a Lei 10.639, que modifica a Lei 9394\/1996 Lei de Diretrizes e Bases da Educa\u00e7\u00e3o (LDB) e introduz o ensino de Hist\u00f3ria e Cultura Afro-Brasileira nos estabelecimentos de ensino fundamental e m\u00e9dio, representou um avan\u00e7o significativo no sentido de promover repara\u00e7\u00f5es em um sistema de ensino-aprendizado cuja forma\u00e7\u00e3o liga-se \u00e0s necessidades do projeto colonizador de cultura europeia nos s\u00e9culos XVI e XVII, a come\u00e7ar pela imposi\u00e7\u00e3o da L\u00edngua Portuguesa. Ainda, herdeiro do pensamento eugenista presente em larga escala nas forma\u00e7\u00f5es cient\u00edficas que aportaram no Brasil no s\u00e9c. XIX quando se funda o ensino superior no pa\u00eds com as primeiras faculdades de Direito e Medicina.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 um absurdo se pensar que ainda hoje nossos alunos e professores falem de Mil\u00e3o ou York, mas n\u00e3o conhe\u00e7am nada sobre Lagos, na Nig\u00e9ria, cidade com a qual o Brasil possui muito maior pertencimento cultural e comercial. Sem d\u00favida, um sistema de ensino-aprendizado eivado de interesses euroc\u00eantricos e eug\u00eanicos que menospreza a diversidade sociocultural do pr\u00f3prio pa\u00eds. Para se ter ideia, ainda hoje professores e mesmo documentos oficiais se referem \u00e0 L\u00edngua Portuguesa escrita como \u201cnorma culta\u201d, num enunciado que que relega todas as variantes dessa l\u00edngua no pa\u00eds \u00e0s formas \u201cincultas\u201d, sugerindo que aqueles que n\u00e3o conseguem dominar a l\u00edngua formal s\u00e3o desprovidos de cultura. Um claro v\u00edcio do projeto \u201ccivilizador\u201d racista do sec. XIX. A lei demorou a vir, se inseriu em um campo que tem promovido mudan\u00e7as sociais importantes e ainda h\u00e1 muito o que mudar nas pr\u00e1ticas educacionais, inclusive com a necessidade de adapta\u00e7\u00e3o para a inclus\u00e3o de outras diversidades culturais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tal lei foi fruto de um processo hist\u00f3rico de lutas por cidadania e liberdade de negros e mesti\u00e7os, que ganhou for\u00e7a na medida em que se inseriu em um amplo projeto de pol\u00edticas p\u00fablicas de afirma\u00e7\u00e3o \u00e9tnico-raciais. Um processo que busca retirar uma parcela da sociedade brasileira da condi\u00e7\u00e3o de \u201cquase-cidad\u00e3o\u201d e conferir visibilidade \u00e0 sua hist\u00f3ria e cultura.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma curiosidade sobre a lei 10.639 \u00e9 que ela conseguiu agregar um relativo consenso em torno de si. N\u00e3o houve vozes significativas que se levantassem contra sua aplica\u00e7\u00e3o, salvo aquelas que queriam ampli\u00e1-la, abarcando ainda outras refer\u00eancias culturais, ao contr\u00e1rio de outros dispositivos criados no conjunto das pol\u00edticas de afirma\u00e7\u00e3o \u00e9tnico-racial como, por exemplo as cotas para negros em universidades, o reconhecimento das comunidades quilombolas, reserva de vagas no servi\u00e7o p\u00fablico, e outros. Uma aceita\u00e7\u00e3o que lhe confere ampla legitimidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No entanto, \u00e9 preciso entender que a import\u00e2ncia maior de uma lei n\u00e3o reside nos instrumentos jur\u00eddicos que a concebem, mas nos interesses sociais que a legitimam ou n\u00e3o. N\u00e3o se pode negar que do ponto de vista da lei houve esfor\u00e7os que concorreram, at\u00e9 certo ponto, para o acesso dos brasileiros \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de cidad\u00e3os, ao mesmo tempo, e contraditoriamente, as for\u00e7as culturais que agem no sentido da nega\u00e7\u00e3o destes direitos de cidadania para negros e mesti\u00e7os s\u00e3o resistentes. Para se ter ideia, desde a primeira constitui\u00e7\u00e3o brasileira (1824) todos os cidad\u00e3os s\u00e3o considerados \u201ciguais\u201d diante da lei, um avan\u00e7o consider\u00e1vel para uma \u00e9poca em que v\u00e1rios outros pa\u00edses como Inglaterra e EUA faziam distin\u00e7\u00f5es raciais claras. No Brasil, os dispositivos legais que faziam discrimina\u00e7\u00e3o \u00e9tnico-racial eram dissimulados, por exemplo, com a lei de 1881, que proibia o voto de analfabetos, e que s\u00f3 foi derrubada na Constitui\u00e7\u00e3o de 1988. O racismo \u00e0 brasileira n\u00e3o \u00e9 claro, ele \u00e9 dissimulado. E n\u00e3o nos enganemos, ele n\u00e3o \u00e9 sutil, pelo contr\u00e1rio, continua violento. Trata-se de uma sociedade carregada de ambiguidades, que enaltece alguns aspectos da cultura afro-brasileira, como o samba, a capoeira e o ideal de \u201csensualidade\u201d e, ao mesmo tempo, tenta manter a subalternidade de negros e mesti\u00e7os. Mas n\u00e3o s\u00e3o as leis que ir\u00e3o demolir os racismos e sim as mudan\u00e7as nas pr\u00e1ticas sociais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">DI\u00c1RIO CONQUISTNSE: Entre as reflex\u00f5es feitas por te\u00f3ricos do movimento negro e estudiosos da lei, destaca-se o fato de n\u00e3o haver professores preparados para ensinar sobre hist\u00f3rica e cultura afro-brasileira nas salas de aula. Este \u00e9 um problema que persiste?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">ALBERTO BOMFIM: Sim, em parte. A aplica\u00e7\u00e3o da lei 10.639\/03 n\u00e3o aconteceu do modo esperado pelo movimento negro, pois a experi\u00eancia demonstrou que uma mudan\u00e7a de tal ordem requer mais do que uma determina\u00e7\u00e3o do Estado; s\u00e3o necess\u00e1rios agenciamentos, que envolvem a forma\u00e7\u00e3o do professor, a recep\u00e7\u00e3o dos alunos e de suas fam\u00edlias, metodologias e recursos \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o e de mudan\u00e7as na pr\u00f3pria cultura escolar que, fazendo parte da sociedade brasileira, traz consigo sua pr\u00f3pria fra\u00e7\u00e3o de racismos. Ainda assim, muitas mudan\u00e7as foram postas em curso, e \u00e9 poss\u00edvel afirmar, creio, que os professores est\u00e3o comparativamente mais habilitados para a disciplina hoje que h\u00e1 15 anos. O que n\u00e3o quer dizer que seja um avan\u00e7o homog\u00eaneo; muitos professores tornaram-se at\u00e9 mais resistentes \u00e0s mudan\u00e7as nos \u00faltimos 2 anos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mais que a lei, importa conhecer as transforma\u00e7\u00f5es agenciadas em seu contexto. Assim, por exemplo, as mudan\u00e7as operadas a partir do Exame Nacional do Ensino M\u00e9dio (ENEM) s\u00e3o de fundamental import\u00e2ncia para compreender o curso da inser\u00e7\u00e3o das demandas dos movimentos negros no universo escolar. O ENEM adotou quest\u00f5es na prova de ci\u00eancias humanas e suas tecnologias que dizem respeito \u00e0 parte dessas demandas, como se verifica nos objetos de conhecimento associados \u00e0s Matrizes de Refer\u00eancia para a prova de Ci\u00eancias Humanas e suas Tecnologias:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">V \u2013 Recorrer aos conhecimentos desenvolvidos para elabora\u00e7\u00e3o de propostas de interven\u00e7\u00e3o solid\u00e1ria na realidade, respeitando os valores humanos e considerando a diversidade sociocultural\u2026 H10 \u2013 Reconhecer a din\u00e2mica da organiza\u00e7\u00e3o dos movimentos sociais e a import\u00e2ncia da participa\u00e7\u00e3o da coletividade na transforma\u00e7\u00e3o da realidade hist\u00f3rico-geogr\u00e1fica\u2026 H25 \u2013 Identificar referenciais que possibilitem erradicar formas de exclus\u00e3o social ([1] Fonte INEP: <a href=\"http:\/\/download.inep.gov.br\/educacao_basica\/encceja\/matriz_competencia\/mat_cien_hum_tec_em.pdf aceso em 14.01.2018\">http:\/\/download.inep.gov.br\/educacao_basica\/encceja\/matriz_competencia\/mat_cien_hum_tec_em.pdf aceso em 14.01.2018<\/a>.).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Diversidade cultural, conflitos e vida em sociedade \u2013 Cultura material e imaterial; patrim\u00f4nio e diversidade cultural no Brasil. A escravid\u00e3o e formas de resist\u00eancia ind\u00edgena e africana na Am\u00e9rica. Hist\u00f3ria cultural dos povos africanos. A luta dos negros no Brasil e o negro na forma\u00e7\u00e3o da sociedade brasileira. S\u00e3o temas que est\u00e3o presentes nas quest\u00f5es das provas de Humanas. Al\u00e9m disso, todos os eixos cognitivos do exame s\u00e3o atravessados pelas quest\u00f5es de cidadania. Ainda, outros exames vestibulares tenderam a seguir o caminho proposto pelo ENEM. Isso empurrou mudan\u00e7as nos projetos pedag\u00f3gicos e nos conte\u00fados ministrados por professores em sala de aula em \u201ccursinhos pr\u00e9-vestibulares\u201d e escolas do ensino m\u00e9dio Brasil afora. N\u00e3o h\u00e1 como ter certeza de que o ENEM continue com tal proposta pedag\u00f3gica nos pr\u00f3ximos anos, mas at\u00e9 aqui ele se constituiu como um vetor de transforma\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">DI\u00c1RIO CONQUISTENSE: A sala de aula continua sendo um dos ambientes favor\u00e1veis \u00e0 luta contra a discrimina\u00e7\u00e3o, a falta de informa\u00e7\u00e3o e o racismo?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">ALBERTO BOMFIM: Sim. A sala de aula \u00e9 um lugar de muitas oportunidades de transforma\u00e7\u00e3o, muito embora seja tamb\u00e9m de reprodu\u00e7\u00e3o de pr\u00e1ticas sociais racistas. Nesse espa\u00e7o cabe ao professor o principal protagonismo. Sabe-se que o processo ensino-aprendizado ocorre muito para al\u00e9m da sala de aula, mas s\u00e3o duzentos dias letivos em um ano! Sem d\u00favida se constitui num lugar representativo para a vida dos estudantes. Um professor atento pode identificar as pr\u00e1ticas racistas e outras formas preconceituosas em andamento nos discursos dos alunos e desenvolver vastos instrumentos de interfer\u00eancia que podem ser desde chamar aten\u00e7\u00e3o de um aluno espec\u00edfico, acionar a dire\u00e7\u00e3o da escola e a fam\u00edlia em casos mais graves ou o que geralmente \u00e9 mais efetivo: construir pr\u00e1ticas pedag\u00f3gicas que positivam as culturas afro-brasileiras.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Defendo que na conjuntura atual os principais instrumentos de interven\u00e7\u00e3o est\u00e3o nos discursos est\u00e9ticos. Comumente um professor n\u00e3o se enxerga como racista, mas continua, de modo quase autom\u00e1tico, a fazer elogios \u00e0 beleza de alunos de cor clara e cabelos lisos, enquanto silencia sobre aqueles de cor mais escura e cabelos crespos, podendo comprometer gravemente sua autoestima. \u00c9 um sil\u00eancio que grita.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Logo, o professor precisa estar atento aos seus pr\u00f3prios enunciados, entend\u00ea-los a partir de uma corrente de linguagem que contribua para a desconstru\u00e7\u00e3o de processos discriminat\u00f3rios na sala de aula. Outra parte fundamental est\u00e1 na escolha de textos, imagens, filmes, etc. que afirmem as est\u00e9ticas afro-brasileiras e positivem a diversidade socioculturais. Citaria algumas obras, mas a lista seria muito extensa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">DI\u00c1RIO CONQUISTENSE: H\u00e1 uma frequente associa\u00e7\u00e3o entre ensino da Hist\u00f3ria da \u00c1frica e pr\u00e1tica religiosa, especialmente o candombl\u00e9. Professores evang\u00e9licos seriam entrave neste sentido por discordarem da necess\u00e1ria abordagem sobre temas ligados \u00e0s religi\u00f5es de matriz africana. \u00c9 poss\u00edvel afirmar que tem havido esta interpreta\u00e7\u00e3o equivocada pOR parte de alguns professores?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">ALBERTO BOMFIM: Certamente h\u00e1 um problema. Professores que possuam cren\u00e7as fundamentalistas, e quase sempre \u00e9 o caso, j\u00e1 que a maioria se vincula a sistemas de cren\u00e7a religiosa monote\u00edstas, sobretudo crist\u00e3s, que numa atitude epistemologicamente desrespeitosa julgam o deus de sua cren\u00e7a como o \u00fanico verdadeiro e os demais como falsifica\u00e7\u00f5es: isso constitui uma dificuldade discursiva elementar para conferir respeito \u00e0 religiosidade do outro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O problema torna-se pior com o fato de que h\u00e1 institu\u00edda a disciplina de religi\u00e3o no ensino fundamental. Situa\u00e7\u00e3o no m\u00ednimo esdr\u00faxula, num pa\u00eds cujo Estado se declara laico, mas mant\u00e9m uma disciplina cuja mera exist\u00eancia propala em alto e bom som que o ideal para os estudantes \u00e9 que eles possuam algum sistema de cren\u00e7a! \u00c9 pertinente que os fen\u00f4menos religiosos devam ser estudados na escola o que poderia ocorrer pelo prisma da Hist\u00f3ria, da Antropologia, dos Estudos Culturais, etc. ou qualquer \u00e1rea do conhecimento com atributos de investiga\u00e7\u00e3o e n\u00e3o de sacraliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As religi\u00f5es de matriz africanas s\u00e3o de extrema import\u00e2ncia para se compreender os processos de perman\u00eancia de tra\u00e7os culturais africanos em nossa cultura. Sempre \u00e9 bom lembrar: a religi\u00e3o que possui maior n\u00famero de seguidores na \u00c1frica, h\u00e1 s\u00e9culos, \u00e9 o islamismo, e tamb\u00e9m ele veio para o Brasil nos tumbeiros. Mas aqui foram, sobretudo o candombl\u00e9 e a umbanda, que se ressignificaram e se constitu\u00edram como religi\u00f5es afro-brasileiras dotadas de uma riqueza de elementos c\u00eanicos. Como tal, devem ser levadas ao conhecimento da escola. Ent\u00e3o a herc\u00falea tarefa de discutir as religi\u00f5es de matriz africana na escola dever\u00e1 ser feita com parceria desses mesmos professores que lhe oferecem resist\u00eancia. Isto requer estrat\u00e9gias de resist\u00eancia, de alteridade, de enuncia\u00e7\u00e3o, respeito e muita negocia\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">DI\u00c1RIO CONQUISTENSE: Por fim, a sociedade brasileira avan\u00e7a para ser a t\u00e3o propalada democracia racial ou ainda est\u00e1 engatinhando quando o assunto \u00e9 igualdade racial?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">ALBERTO BOMFIM: A express\u00e3o \u201cdemocracia racial\u201d foi bastante \u00fatil ao longo do s\u00e9culo XX e ainda serve hoje ao jogo de dissimula\u00e7\u00e3o no qual os indiv\u00edduos se disp\u00f5em superficialmente contra o racismo, mas continuam imersos na corrente de pr\u00e1ticas sociais que o perpetuam. Tamb\u00e9m serviu de muni\u00e7\u00e3o intelectual para as tentativas de conten\u00e7\u00e3o das demandas dos movimentos negros at\u00e9 hoje. Afirmar que existe uma democracia racial foi a sa\u00edda, aparentemente mais l\u00f3gica, de negar a necessidade de pol\u00edticas p\u00fablicas de repara\u00e7\u00e3o etnicorraciais e continuar com um modelo de sociedade em que certos grupos esperam subalternidade de outros. Logo, \u00e9 preciso deixar de acreditar que somos, para em seguida almejar ser uma democracia racial.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Penso que estamos avan\u00e7ando lenta e gradualmente na constru\u00e7\u00e3o de um modelo de cidadania que confira maior igualdade de direitos etnicorraciais, as lutas por liberdade e cidadania colheram frutos preciosos, mas n\u00e3o se trata de um processo linear. Eventualmente corremos o risco de recuar em direitos duramente conquistados. Oxal\u00e1 estejamos atentos para continuar num campo onde ainda h\u00e1 muito que fazer. Oxal\u00e1 brancos e pretos tenhamos voz para responder positivamente ao chamado de Bob Marley: \u201cVoc\u00ea n\u00e3o vai ajudar a cantar essas can\u00e7\u00f5es de liberdade?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por F\u00e1bio Sena e Fl\u00e1vio Passos Marco legal na luta contra o racismo e em favor da dissemina\u00e7\u00e3o, no ambiente escolar, de conhecimento sobre a Hist\u00f3ria e Cultura Afro-Brasileira, a Lei 10.639, de 2003, integra o acervo de conquistas hist\u00f3ricas que o movimento negro acumula e cujo desdobramento mais vis\u00edvel \u00e9 o rompimento com uma [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":11088,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[821,7],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.blogdomassinha.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11087"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.blogdomassinha.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.blogdomassinha.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogdomassinha.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogdomassinha.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11087"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.blogdomassinha.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11087\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":11089,"href":"https:\/\/www.blogdomassinha.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11087\/revisions\/11089"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogdomassinha.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/media\/11088"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.blogdomassinha.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11087"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogdomassinha.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11087"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogdomassinha.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11087"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}