WebtivaHOSTING // webtiva.com . Webdesign da Bahia
secom bahia engenhar construtora PMVC vittasaude HSVP hospital sao vicente santa casa


março 2024
D S T Q Q S S
 12
3456789
10111213141516
17181920212223
24252627282930
31  
blog do marcelo

boulevar shopping

camara de vitoria da conquista

atlanta veiculos

unimed

pinheiro plantas

Aquelas santas sextas, por Valéria Figueira

As experiências de criança se imprimem na alma da gente feito tatuagem no coração.

Todas as semanas santas da infância e adolescência eu passei na roça com meu pai. Ficava entre Tremedal e Belo Campo, se chamava Lagoa de Pedras, com muitas pedras e pouca lagoa.

Meu pai fazia moqueca de peixe, porque carne de boi, cremdeuspai, podia não.

O sol quente revezava com uma imensa lua cheia, naquele clarão da caatinga, que iluminava encantos e lendas.

Na sexta feira da paixão, todos sabiam quem virava lobisomem na região. Era sempre o mais quieto e mais isolado, o suspeito.

Havia um silêncio longo, que só era quebrado com as recomendações de resguardo de Anália; sob pena de castigo divino; não podia trabalhar, não podia montar em animal, nem brigar os menino unsunsoutro, nem sequer barrer a casa.

Não podia matar as moscas que teimavam em descansar em minha pele, nunca na roupa, restava a mim, me balançar.

O dia custava a passar, porque na minha roça de criança nunca teve TV, daí eu aprendia a brincar de vó com Sirlene, passando pedrinhas, uma a uma, entre os dedos no chão. Folheava uma revista velha, descascava uma laranja e ia chupar na rede.

Aleluia, chegava o sábado e eu via queimarem o judas, impiedosamente, como se fosse ele o culpado de toda ruindade do mundo.

No domingo painho me dava um ovo de chocolate chamado diamante negro, e eu repartia com meus amigos da roça, tudo derretido, lambuzando os dedos que já não estavam limpos.

Hoje sexta feira santa de 2024, cheguei na fazenda e já dei de cara com Domingos, o vaqueiro, apiando do cavalo, vindo da manga.

O povo da casa tinha quebrado o jejum com sanduíches de pernil.

Além de TV, a roça de hoje tem ar condicionado, e cada um tem um celular conectado a Wi-Fi.

O Judas eu acho que finalmente pagou os pecados dele, porque ninguém nem ouve mais falar.

O diamante negro ainda existe, mas mudou, toda vez que eu provo penso que tem açúcar demais, ou vontade de menos.

Resta esperar que a lua cheia continue a mesma.

Aqui matutando lembrei que do meu tempo de menina na roça não guardo uma só fotografia. Só tenho na memória as Páscoas mais verdadeiras que vivi.

5 respostas para “Aquelas santas sextas, por Valéria Figueira”

  • Que maravilha ver esse depoimento da grande amiga Valéria Figueira, que toca o coração das pessoas que valorizam a memória afetiva. Parabéns para Valéria e também para Pedro Massinha!

  • Lidice says:

    Que texto bonito Massa.. almoçamos hoje em família.. e recordei a menina de mãos dadas com as mulheres da casa( e tínhamos muitas.. mãe tias primas irmãs.. descíamos a rua dos Andrades, as empregadas e patroas com caldeirões de comida para dar aos presos( funcionava a delegacia , na sede da prefeitura… eu e as crianças curiosas e com medo, mas, aprendendo com o avô que, semana santa tinha que rezar, e compartilhar com os outros , do almoço sagrado desta sexta-feira santa, pq Jesus pagou por Tds nós)…, lá na casa de vovô, não havia risos, só música clássica e Tds falavam baixinho..da saudades só de lembrar de tantas sextas santas que passamos Tds juntos com a família!Hoje, foi almoço em família como fazíamos sempre, mas , com gosto de saudades de tantos que não estão mais aqui! Bjs amigo

  • Simone Dourado says:

    As lembranças de infância que nos trazem a simplicidade da vida e o seu real sentido.. Que delícia, que tempo bom…

  • Ana Palmira B.S. Casimiro says:

    Valéria retratou muito bem a vida na roça, as crenças e os costumes do seu tempo de menina.

    Parabéns!

  • Socorro Lopes says:

    Valéria Figueira, sou fã!
    Memórias…

Deixe seu comentário

alessandro tibo


WebtivaHOSTING // webtiva.com . Webdesign da Bahia