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O Brasil vem experimentando uma série de governos contraditórios após a redemocratização do país. Saímos de um modelo ditatorial no qual a Arena era o partido que mandava e desmandava sob os olhares protetores dos militares. Insurgiram contra o regime de exceção jovens políticos, intelectuais e parte da sociedade civil que, abrigados sob o guarda-chuva do MDB (Movimento Democrático Brasileiro), se contrapunham a Arena (Aliança Renovadora Nacional).
Como tudo na vida, um dia a casa cai. Depois de muitas lutas, liderados por Ullysses Guimarães, os brasileiros conseguiram alcançar o regime democrático através de eleições diretas para presidente, trazendo de volta ao país nomes como Fernando Henrique Cardoso, Waldir Pires, Miguel Arraes, Leonel Brizola, além de personalidades como Caetano Veloso e Gilberto Gil, por exemplo, que não utilizavam o direito sagrado de exercitar as suas vozes.
A turma que veio do exílio foi recebida de braços abertos por outros patriotas e construíram uma vitória inquestionável em 23 estados da federação, elegendo através do voto direto os seus governadores através do PMDB, nome que veio substituir o histórico MDB. Aí já estavam juntos Lula, José Dirceu, Pedro Simon, Teotônio Vilela, Marcos Freire, Franco Montoro, além de outros. Aqui na Bahia foram resgatados nomes como Pedral Sampaio, Chico Pinto, Haroldo Lima, Rômulo Almeida e mais uma infinita lista de democratas que sempre sonharam com um Brasil livre.
A política, dinâmica como ela só, virou nuvem: um dia nublado, outro não. Evolui com ideias distintas, mas acabam se juntando numa mesma sala, num mesmo ninho, num mesmo balaio. Tancredo Neves, avô de Aécio Neves, elege-se presidente com o apoio de José Sarney, patriarca do regime fechado, quase que dono do estado do Maranhão, mas aí já era aceito como “companheiro” e assume a presidência da República depois da morte inesperada do mineiro Tancredo Neves.
Já estávamos quase que totalmente acordados, o país já conversava, já convivia ao redor da mesma mesa com Marcos Maciel, Antônio Carlos Magalhães, Franco Montoro, Mário Covas, PCdoB, PDT, PVC, além, claro, do PMDB encontrando resistência em pensamentos mais resistentes que não compunham com as siglas oficiais e preferiam a clandestinidade, como também com o novato PT (Partido dos Trabalhadores), visto como “discricionário, radical e obtuso” por não admitir a composição com a burguesia, por não legitimar o caminho democrático para se chegar ao poder através do voto.
O tempo passa, tudo muda. As nuvens mudaram de lugar. Collor é eleito, depois é deposto, à frente dos jovens estudantes estava Lindenberg Farias, que mais a frente admitiu estar com o Caçador de Marajás. A esquerda avançou, cresceu, chega ao poder com Lula apoiado pelos partidos de esquerda e por uma frente popular e democrática. O Brasil, quase em uníssono, aprovou a pregação do líder nordestino de pouquíssimo estudo, mas que passou segurança e esperança para as camadas mais sofridas da população. A classe mais abastada, a elite política, os banqueiros, o mundo, todos viram no homem que hoje está sentado no banco dos réus em Porto Alegre por possíveis crimes que teria cometido, uma perspectiva de futuro melhor, mais humano, mais fraterno e com oportunidades para todos num país tão rico quanto o nosso.
A partir dali o Lula já não era apenas o nome dos socialistas, da esquerda, dos jovens marxistas, mas da grande maioria da população brasileira que cria e ainda crê que a nossa nação pode experimentar dias melhores na educação, saúde, segurança e na justiça social. E que a política seja um sacerdócio, não um instrumento de benesses, negociatas parlamentares e enriquecimento ilícito.
As contradições estão postas. Quase todos cederam ao adesismo barato e oportunista. A governabilidade está na ordem do dia. Não importa de onde você veio, o importante é somar-se a nós. Todos pela política de resultado. Daí o ceticismo da juventude, ela não acredita mais na política como instrumento de transformação. Quer dizer, tem muito jovem que ainda acredita, ele está se apresentando pouco a pouco, silenciosamente, e vai dar a volta por cima. Sem utopia a vida não tem sentido, a música de John Lennon ainda ecoa nos nossos corações: “O sonho não acabou!”. Ninguém é mais capaz que os jovens para começar um novo tempo.